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Uma tragédia com raízes distantes

No meio desta realidade muito longamente desenvolvida, houve um marco histórico deveras importante para o mundo europeu e, logo, para quantos deste haviam ficado dependentes por via da colonização iniciada com os Descobrimentos. Esse marco foi a Guerra Mundial de 1939-1945.

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O mundo terreno é, indubitavelmente, um sistema aberto. É um sistema aberto, sobretudo, em relação a certos fatores e pouco aberto, mesmo quase nada aberto, relativamente a outros. E o mesmo se pode dizer de cada um dos Estados do nosso planeta. Em todo o caso, no domínio nacional o sistema só muito dificilmente se pode considerar cabalmente fechado. Invariavelmente, cada Estado encontra-se fortemente dependente do restante da designada Comunidade Internacional.

Esta realidade dos nossos dias foi sendo construída na base da descoberta do mundo por parte de povos os mais diversos. Todavia, o tempo que hoje se vive, com a catrefa de acontecimentos dos nossos dias, apresenta causas muito recentes. Causas que se foram adicionando no tempo, escondidas umas, deturpadas outras, tudo envolvendo a subjugação de povos a outros povos.

Tenho para mim – já escrevi isto há algum tempo – que os Descobrimentos – portugueses e espanhóis, holandeses, franceses e ingleses – foram os principais causadores da atual conflitualidade, e sempre tendo como referencial omnipresente a temática religiosa e os interesses. Se olharmos a Terra de hoje, facilmente se constata que o designado Terceiro Mundo – os povos a quem não chegam as vacinas contra a COVID-19…– se constitui no espaço terreno aonde chegaram aqueles povos europeus atrás referidos. E estes dominaram os locais, subjugando-os, reclassificando-os, explorando as suas riquezas, fomentando guerras locais e regionais, só se determinando a conceder-lhes falsas independências ao se darem conta de que estas seriam sempre, em larguíssima medida do tempo, uma ilusão.

No meio desta realidade muito longamente desenvolvida, houve um marco histórico deveras importante para o mundo europeu e, logo, para quantos deste haviam ficado dependentes por via da colonização iniciada com os Descobrimentos. Esse marco foi a Guerra Mundial de 1939-1945. No final deste conflito, perante a realidade do comunismo soviético, iniciou-se na Europa os fundamentos que permitiram evitar, tanto quanto possível, a derrocada que tivera já, ao menos, duas materializações. Embora artificialmente, surgiu a ideia da democracia, bem como a do Estado Social, os Direitos Humanos e as Nações Unidas. Simplesmente, tudo isto, como sempre teria de dar-se, continuou sempre dependente de uns quantos. Neste caso, dos Estados Unidos e da União Soviética, que dividiram entre si, de um modo civilizado e modernizador, os comandos das suas áreas de influência. E o mundo, malgrado tudo, não assistiu aos graves problemas que hoje se vão vendo, boa parte deles sem solução percetível. Infelizmente, mente-se muito em política…

Um dado é certo: o Ocidente – o espaço euro-atlântico, com a África do Sul, Israel, Austrália e Nova Zelândia – foi sucessivamente explorando o designado Terceiro Mundo, a cujos Estados haviam concedido, objetivamente, falsas independências. De modo concomitante, as principais instituições do Direito Internacional foram sempre sendo sediadas no espaço ocidental, deste modo enviesando o grosso da doutrina e das decisões delas saídas. E nunca deixou de crescer o mecanismo da corrupção nos Estados do Terceiro Mundo, em larguíssima medida fomentado por interesses ocidentais.

Também no domínio religioso se operou uma longínqua carga de ressentimento, sobretudo, por via da imposição cristã sobre islamitas e judeus. E por igual se deu com todo o tipo de grupos étnicos que, sendo não caucasianos, se viram por estes dominados no âmbito dos Descobrimentos, ou da expansão cristã para as diversas partes do mundo. Estes ressentimentos, como se sabe, estão vivos e a recrudescer progressivamente.

Em contrapartida, os acontecimentos de 1939-1945 permitiram a dominação do espaço europeu pelos Estados Unidos, mormente através da OTAN, cujo conceito estratégico não para de se alargar. Mais uns meses, porventura uns anitos, e já não custa admitir que esta estrutura – a OTAN é o ramo militar dos Estados Unidos na Europa – se possa alargar para o Pacífico, englobando, no mínimo, o Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas. A recente saída dos Estados Unidos do Afeganistão – portanto, também saiu, de pronto, a OTAN…– já mostra, de um modo claro, que os democratas estão a dar passos largos para criar uma guerra – sempre os democratas…– com a China, ultrapassados que foram por esta, e a níveis muito diversos.

Esta Europa, que se tornou cabalmente dependente dos Estados Unidos, resolveu-se a conceder (falsas) independências às suas antigas possessões africanas, bem como aos territórios que administrava no Médio Oriente. Bom, o resultado deste mecanismo está hoje à vista de todos: ressurgiu o pior do religioso – por este caminho, acabará por ter consequências no catolicismo romano europeu –, desenvolveu-se a pobreza, a grande criminalidade transnacional e, mais recentemente, o terrorismo de origem fanático-religiosa.

De tudo isto, o que acabou por vir a dar-se foi o refluxo migratório de povos africanos e do Médio Oriente sobre a Europa. Uma realidade dificílima de resolver, uma vez que a subsistência do modelo europeu depende da exploração dos territórios africanos e dado que o vespeiro do Médio Oriente traduz a luta da cristandade contra o islamismo. Chegou quase a ser também assim com a África do Sul, mas cedo se percebeu, perante o fim do comunismo soviético, que a situação não perigava a matriz ocidental.

Em toda esta mescla de realidades que foram fluindo no mundo o ponto central do Ocidente foram sempre os Estados Unidos. Simplesmente, no meio de tudo isto veio à superfície o pior da desumana sociedade norte-americana: uma ínfima minoria de multibilionários, em face da quase totalidade de gente sem outros meios que não o escasso vencimento do último mês auferido. Surgiu, pois, uma divisão profunda no seio da sociedade norte-americana, onde deixou de contar a simples ideia de uma pátria em que se pode ascender, mesmo que com alguma sorte e trabalho essenciais.

De um modo extremamente silencioso, a Europa foi sucessivamente assistindo à Guerra do Vietname, à do Iraque, e agora à do Afeganistão, abandonado à sua sorte pelos Estados Unidos. A OTAN, claro está, sendo a estrutura militar dos Estados Unidos na Europa, também saiu, rapidamente e em força, do Afeganistão. Os políticos europeus, estruturalmente empertigados – a tal política do megafone –, limitaram-se a ver e a repetir, mas sempre sob o comando norte-americano.

Em momento mui singular, ainda com Donald Trump na Casa Branca, foi possível escutar de Luís Costa Ribas que os Estados Unidos declaram guerra muito facilmente. Invariavelmente, falta sempre um verdadeiro objetivo construtivo, sendo frequente a ausência do essencial conhecimento histórico do ambiente em que vão intervir. A conversa de George Ball com Salazar, sobre uma hipotética declaração prévia de concessão de independências às antigas províncias ultramarinas, mostra isto mesmo: os políticos norte-americanos não medem as consequências das suas manifestações de uso da força. E foi isto mesmo que se deu com a mais recente guerra dos Estados Unidos, que se pode até aceitar-se no caso do Afeganistão, já não se concebe no caso do Iraque, afinal com base numa realidade nunca cabalmente esclarecida…

A verdade é que os Estados Unidos acabaram por embrenhar-se no Afeganistão, mas sem uma atitude consequente em face de uma possível mudança de fundo neste (dito) Estado. Quando hoje nos são mostradas imagens do Afeganistão ao tempo da governação ligada à extinta União Soviética, sob a liderança de Nagi Bulah, pode facilmente perceber-se o progresso histórico e o modernismo que a recente ocupação ocidental nunca conseguiu, nem de longe, repor.

Objetivamente, os Estados Unidos foram para o Afeganistão por razões de mera vingança. Em todo o caso, compreensível. Mas com vinte anos de presença no país, seria natural que se tivessem conseguido lançar as bases para o funcionamento de uma sociedade já bastante modernizada. Como se deu com a governação pró-soviética de Nagi Bulah. Infelizmente, o que se manteve foi a corrupção e uma subida crescente das plantações de ópio. E quando os Estados Unidos se viram obrigados a olhar, ainda mais, para o fantástico crescimento da China, bom, foi o pânico: num ápice, deitaram o Afeganistão e o seu povo às urtigas, ou mesmo bem pior. Infelizmente, os Estados Unidos foram sempre assim, para o que basta recordar, entre tantos outros casos, o do ATENTADO DE CAMARATE, ou as mais recentes revelações da colaboração da Austrália no golpe contra o Chile de Salvador Allende. Objetivamente, os políticos norte-americanos só conhecem a lei da força.

Por fim, uma nota: os acontecimentos de 11 de setembro foram um terrível crime, até para o mundo. O meu filho – o meu único filho – esteve no terraço público de uma das Torres Gémeas, mas com a sorte de não ter sido no dia do crime hediondo que se conhece e pudemos ver. Uma realidade que, na sua forma, eu pude prever no agosto de 1982, na Nazaré, a meio de certa tarde. Uma realidade que voltei a repetir, vezes sem conta, mas sem que ninguém levasse tal raciocínio a sério. Mas o lançamento das bombas nucleares de Hiroxima e Nagasaki também foram crimes terríveis, tal como os bombardeamentos às cidades alemãs. O horror, porém, é diferente, porque foram os Estados Unidos a perpetrá-los… Tivesse sido Estaline, ou islamitas, e tudo seria logo diferente. Infelizmente, este modo de ser bestial dos políticos norte-americanos é uma marca da vida política dos Estados Unidos: só conhecem a lei da força.

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