Categorias: Opinião

Uma histórica transferência de votos

O surgimento do Chega! à nossa vida política suporta-se numa diversidade de fatores, muitos deles facilmente explicáveis. É desta realidade política que pretendo aqui alinhavar algumas ideias simples, de resto já expressas por mim noutras circunstâncias.

01 – Os portugueses, de um modo muito geral, nunca foram especiais adeptos da democracia durante o tempo político da II República. É verdade que diziam mal de tudo e mais umas botas, mas a verdade é a que Amadeu Garcia dos Santos nos conta no seu livro, a propósito de seu pai e da tertúlia que se reunia numa ourivesaria da nossa Baixa lisboeta, propriedade de um amigo. Dizer mal de Salazar era a regra omnipresente, mas bastava uma qualquer barulheira e logo todos davam à sola.

02 – Tal como agora se deu entre nós com a vacinação, também naquele tempo os portugueses eram fortemente dados à obediência perante as autoridades.

03 – O PS e os partidos da Esquerda nunca quiseram reconhecer que a adesão dos portuguese à revolução de 25 de Abril foi fortemente condicional, esperando com cautela, a fim de verem no que as coisas iriam dar… Toleraram os acontecimentos que sobrevieram, mas sempre atentos ao desenrolar das circunstâncias.

04 – A Revolução de 25 de Abril, como sempre teria de dar-se, dispôs de um estado de graça, mas sempre com os portugueses à espera de uma espécie de chefe providencial, até porque a responsabilidade que envolve a vida democrática nunca os atingiu.

05 – Uma boa parte dos portugueses nunca deixou o estado de pobreza que foi sempre uma regra do País. Infelizmente, as elites do País também nunca tiveram como preocupação central esta mudança do estado de uma enorme franja de portugueses.

06 – A grande maioria dos portugueses com interesse político e ligados ao Estado Novo, naturalmente, adaptaram-se ao tudo em nada, que sempre foi, desde a primeira hora, o PPD. Por sorte, José Pacheco Pereira ensinou isto aos que o acompanham semanalmente, o que torna logo tudo mais fácil de gizar.

07 – A realidade político-social portuguesa fez-se notar através do célebre concurso sobre O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE, que nos forneceu o resultado, mais que esperado, da vitória de Salazar. Bastaria um mínimo de atenção e de aceitação da realidade histórica portuguesa, e logo se perceberia que teria de ser esse o resultado de um tal concurso. O PS e os partidos da Esquerda, lamentavelmente, deitaram-se a recusar o valor e o significado de tal concurso.

08 – Lamentavelmente, o ideal do socialismo começou a decair rapidamente desde que se operou o triunfo neoliberal, após a queda do muro de Berlim e do fim da antiga URSS. Mário Soares, perante a desatenção geral dos portugueses, incluindo a da grande comunicação social, deitou-se a expor e defender o que designou por socialismo democrático, o que se constitui, de facto, numa contradição.

09 – O triunfo neoliberal viu-se rapidamente prolongado pela globalização, operando a ascensão do lucro ao lugar de valor supremo e os direitos naturais das pessoas para o de variável menos ponderada pela classe política. O resultado foi o que se tem podido ver: uma quase extinção dos partidos comunistas, socialistas e sociais-democratas, tudo seguido da adoção das práticas do neoliberalismo.

10 – Como sempre teria de dar-se, o crescimento da corrupção, do crime organizado e do egoísmo, tal como o fim do sentido de servir, acompanharam o do neoliberalismo e da globalização.

11 – Nestas circunstâncias, operou-se o que seria expectável: o início do desinteresse pela democracia. A grande verdade, raramente compreendida pelos políticos do PS e da Esquerda, é que a democracia pressupõe algum grau de segurança e de ascensão social dos cidadãos. Ora, o que se tem vindo a ver é, precisamente, o inverso.

12 – É neste ambiente que se tem vindo a operar o regresso dos supostos extintos nazismo, fascismo e racismo, mas sempre adaptados à realidade aparente da ideia dita democrática. Simplesmente, isto tem um limite…

13 – Como sempre acontece, o regresso da Extrema-Direita à superfície deu-se em Portugal já depois de ter surgido nas zonas que alumiam duas vezes. Já Daniel Cohn-Bendit, respondendo a certo jornalista, sobre o caso português, respondeu: Portugal não interessa, porque nada representa no quadro geral do imperialismo.

14 – O surgimento do Chega! é a manifestação desta dinâmica que aqui exponho. Adaptado às imposições de uma aparente democracia, o Chega! deita mão de todo o simbolismo de Salazar e do seu Estado Novo: o terço, brandido por André Ventura; André, agora com plenos poderes, tal como Salazar, logo que se tornou Presidente do Conselho; o Deus, Pátria e Família, temperado, por necessidade aparente, com a ideia central da Opus Dei, o Trabalho; a crítica sem limites à Constituição de 1976, depois das diversas revisões de que já foi alvo; o elevar a um altar supremo das forças de segurança e ordem pública; uma atitude que desenvolve, subliminarmente, nos cidadãos os velhos sentimentos racistas; e a garantia de que, em breve, será a terceira força política na Assembleia da República.

15 – Por fim, esta realidade, porventura ainda não plenamente compreendida: o suporte eleitoral do Chega!
situa-se, muito acima de tudo o resto, nos eleitorados do CDS e do histórico PPD/PSD. Concidadãos que se viram na circunstância de por aí andar a dizer-se democratas, tal como hoje se deixaram vacinar sem pestanejar. O histórico sentido da obediência, por acaso muito facilitado pela presença de um vice-almirante no comando da vacinação.

16 – E mesmo por fim, a essencial colaboração da grande comunicação social no decaimento da imagem da democracia, ao mesmo tempo que o Sistema de Justiça atingiu níveis inimagináveis para uma enorme parte dos portugueses. A recente afirmação de João Adelino Faria de que a vacinação está a ser um caos, mostra bem como os nossos jornalistas só expõem o que pode ir mal, que é muito pouco, nunca referindo o êxito (quase) global. A História irá um dia registar qual tem sido o papel da grande comunicação social na perda da imagem da nossa democracia e da atual III República, bem como o seu papel no desenvolvimento do Chega! e da imagem de André Ventura.

Comentar