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Tempo de antena

Acontece que no tempo em que eu e o Eduardo fomos alunos liceais não existiam cursos de professores, mas os professores estavam lá, não existiam aulas em vazio, e nunca nos demos conta de que o ser-se efetivo mostrava uma visível superioridade na transmissão do saber em face de se ser provisório.

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O tempo de antena televisivo está aí ao alcance dos jornalistas e de quem estes se determinam a convidar. Em muitos casos, o tema abordado pelos convidados acaba por apresentar conteúdo nulo. Foi o caso da entrevista de ontem à noite, concedida por Eduardo Marçal Grilo, na RTP 3, acompanhado da bela Carolina. Tão bela quanto bem preparada e esperta.

Como digo, a entrevista teve um conteúdo completamente nulo, sem que o convidado tenha sido capaz de responder, de um modo claro, ao que a jornalista lhe foi colocando, e que seria do maior interesse para os telespectadores, muitos deles professores ou seus familiares. E a coisa chegou a um tal ponto, que, a certa altura, quase se tornou interessante fazer apostas, no sentido de prever se iria responder, ou simplesmente arredondar. Talvez bolear, como se diz no desenho técnico, ou mesmo adoçar, em linguagem mais comum.

Para começar, o entrevistado brindou-nos com esta sua informação profunda: “a matéria da Educação é uma matéria muito delicada.” Um pensamento profundo, logo complementado com a conclusão de que “é preciso pensar o Sistema Educativo na sua globalidade.” Bom, não se podia dizer nada de mais profundo. Tão profundo, que logo se percebeu que tudo, ali, não iria passar de conversa. A tal conversa que, como se viu, mostrou um conteúdo complemente nulo.
Um pouco adiante, Eduardo também acabou por reconhecer que “faltam professores.” Uma afirmação corretíssima, mas que me suscitou logo esta dúvida: em todas as suas intervenções ao longo do último ano, em quantas delas Eduardo alertou para esta realidade? É uma pergunta lógica, porque sem professores as aulas não funcionam e a aprendizagem dos alunos vai-se deteriorando.

Acontece que no tempo em que eu e o Eduardo fomos alunos liceais não existiam cursos de professores, mas os professores estavam lá, não existiam aulas em vazio, e nunca nos demos conta de que o ser-se efetivo mostrava uma visível superioridade na transmissão do saber em face de se ser provisório. Por ser esta uma realidade ainda hoje percetível, a enorme maioria dos licenciados, ou dos mestrados, não procura os cursos de formação de professores, situação que Eduardo Marçal Grilo reconheceu. Além do mais, e ao contrário do referido pelo antigo ministro, a profissão de professor está hoje muito depreciada, situação que se espraia desde a atitude dos poderes até à da generalidade da população.

Um pouco à frente, o antigo governante lá se determinou a enfrentar as greves. E então, depois de se referir à “competição sindical”, acabou por salientar o facto de “estas greves prejudicarem terceiros”. Mas as greves prejudicam sempre terceiros!! É sempre assim. A única maneira de evitar uma tal realidade é proibir o direito à greve, como fizeram Reagan e Thatcher. Eram democratas, portanto, e grandes defensores dos Direitos Humanos… Provavelmente será assim por quase todo o mundo, incluindo numa boa dose de Estados da União Europeia.

Por fim, já com a bela Carolina em nervosismo interno forte, lá indicou Eduardo o caminho adequado: “sentarem-se à mesa as forças em confronto, usarem de boa-fé, terem em conta o défice, a dívida e os direitos dos professores, e procurarem uma plataforma de entendimento, naturalmente extensível à forças partidárias.” Bom, milagre! Um milagre que tem de ser revelado a Guterres, seu antigo conterrâneo e líder governativo – com a liderança governativa de Guterres, Eduardo filiou-se e desfiliou-se do PS, na justa medida em que Guterres entrou e saiu –, a fim de que este possa solicitar os bons préstimos do antigo ministro na tentativa de fazer a paz na grande batalha da Ucrânia.

Felizmente, que a bela Carolina é mulher de coragem e já muito experiente no jornalismo televisivo, porque rapidamente se determinou a pôr um ponto final naquela entrevista de conteúdo nulo. E uma conclusão se pode daqui tirar: a democracia da nossa III República serve para isto mesmo, ou seja, falar sem nada dizer que não tenha um conteúdo nulo. Em todo o caso, e para mim, valeu a pena, porque ajudou os mais atentos a entenderem a razão do CRESPÚSCULO DA DEMOCRACIA, como escreve Anne Applebaum no título de uma sua obra.

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