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Sonhar acordado

Objetivamente, este nosso concidadão, que até tem razão em absoluto, vive uma espécie de sonho, que se desenrola com ele mesmo acordado. No fundo, ele parece não se aperceber do que se passa por partes diversas do mundo, muitas delas bastante mais ricas e poderosas em meios.

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Com um fantástico espanto, foi como acabo de tomar conhecimento do que se passou com a visita do Presidente da República a Murça. Certamente sem esperar, Marcelo Rebelo de Sousa viu-se envolvido por certo concidadão nosso, creio que a residir num país estrangeiro, que protestava em face do resultado dos incêndios. Incêndios que se sucedem a cada novo ano, como sempre seria de esperar.

Este nosso concidadão, que em essência até tem razão, mostrou ali possuir um sonho: deseja que os governantes lhe permitam viver numa espécie de antecâmara do Paraíso. A uma primeira vista, e tendo mesmo razão em princípio, ele deverá possuir uma fórmula para evitar os terríveis transtornos que, a cada ano, vão assolando Portugal e os portugueses. Uma solução que, a provar-se eficaz, até poderia ser aproveitada por californianos e australianos. No mínimo.

Tenho para mim que o Governo, através dos Ministros da Agricultura e do Ambiente, deverá convidá-lo para um encontro pessoal, a fim de que o nosso concidadão exponha o que entenda dever ser feito pelo Governo, a fim de pôr um ponto final nos fogos florestais, que nos surgem mal sobem as temperaturas e baixa a humidade, para mais muito apoiados pelo número crescente de incendiários da nossa floresta.

Objetivamente, este nosso concidadão, que até tem razão em absoluto, vive uma espécie de sonho, que se desenrola com ele mesmo acordado. No fundo, ele parece não se aperceber do que se passa por partes diversas do mundo, muitas delas bastante mais ricas e poderosas em meios. Precisamente o que, desde há muito, tem lugar na Austrália e na Califórnia, e a cada ano que passa. Ele deverá acreditar que o homem pensa e assim nasce logo a obra.

Termino com uma história simples, que pude observar há minutos, quando saí para ir às compras. No interior do supermercado, um par de amigos, homem e mulher, separados, aguardando o pagamento. A sair, um indivíduo meio esfarrapado, com ar de pobreza e de pouco asseio. Na circunstância, o senhor tossia com força e muito barulho, o que fez com que todos acabassem por acompanhar os seus movimentos.

Já na rua, o referido senhor cuspiu, por duas vezes, para o passeio, o que de pronto gerou uma crítica, em voz alta, do tal que ainda estava na fila de espera: um porcalhão!…, devia levar uma multa valente, que era para aprender!! Chegada a minha vez, paguei e dirigi-me para o café próximo de minha casa, a fim de tomar mais uma bica.

Ocupada a mesa que escolhi, fiquei a observar quem pudesse passar pela Estrada de Benfica, comigo junto de uma das amplas montras. A dado passo, lá vi o tal senhor que deu aquela boa lição de civismo. Aguardando a paragem de um veículo junto da passagem dos peões, eis que de pronto o vi… cuspir para o chão! De modo que disse para comigo: aqui está um parlapatão lusitano! E completei, cá para mim e em voz baixinha: criticou o outro, mas ele, afinal, é igual.

O nosso concidadão que, sem nexo, abordou o Presidente da República nos termos que se puderam ver, deve ser escutado pelos ministros antes referidos, a fim de lhes explicar a solução competente para resolver o problema que está subjacente aos seus protestos. Espero, pois, que o Governo faça como aqui refiro. E já agora: Marcelo é o Presidente da República, e fala, como é natural, mas não resolve os problemas da governação, porque não lhe cai em cima um tal trabalhão. E convém sempre recordar Salazar: governar é, acima de tudo, descontentar.

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