Categorias: Opinião

Sem limites

Continuo a ficar pasmado com o modo como os nossos canais televisivos se deitam a noticiar a evolução da COVID-19 entre nós, sempre com um tom alarmista, e também acompanhados de uma evolutiva bateria de técnicos, eles também ajudando, digamos assim, a chover no molhado.

Esta fantástica baralhada, a nós trazida pela nossa grande comunicação social televisiva, chega mesmo a conseguir informar-nos, por igual, que a relatada situação está neste momento a ter lugar em países os mais diversos, incluindo os normalmente apontados como de ponta, onde a organização será, supostamente, excecional – é o que é repetido à saciedade –, e tudo, com a maior naturalidade, sempre apresentado com um tom verdadeiramente dramático.

Se não se estivesse perante uma situação muitíssimo desagradável e perigosa – a todos os níveis –, seria risível ouvir uma bateria de especialistas nossos apontarem uma sucessão de críticas à ação dos seus colegas, mas, muito acima de todos, aos governantes: tudo terá sido tardio, falta gente, camas e materiais diversos, apontam-se os testes rápidos, embora logo outros digam que os resultados fornecidos por estes são pouco fiáveis, enfim, critica-se a esmo e pede-se o que ninguém ainda descobriu em parte alguma do mundo.

No meio de tudo isto, surgem as usuais fantásticas críticas dos nossos comentadores, como há dias se pôde escutar a Luís Marques Mendes: o Natal foi um erro. Todavia, ditas estas palavras, de pronto surgiram outras: foi um erro de todos os partidos, porque todos aceitaram a ideia. E como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa há dias reconheceu, também ele falhou, porque o contrato de confiança com os portugueses soçobrou. Ou seja: debate-se, afinal, o inútil e consabido.

No meio de tudo isto, falta o essencial, só abordado, infelizmente, por muito poucos: a responsabilidade de cada um dos portugueses. A nossa dita democracia tem este problema: ninguém quer ficar mal na fotografia perante os portugueses, e ainda menos perante os jornalistas. E como estes não se criticam entre si, o que vão perorando, bem ou mal, lá vai fazendo alguma escola. Certas notícias chegam mesmo a gerar uma sucessão temporal informativa: um conta às 20.00; outro às 21.00; outro às 23.00, etc..

Disse hoje a Ministra da Saúde que, se vier a mostrar-se necessário, recorrerá o Governo à requisição civil dos hospitais privados, se estes, porventura, se reusarem a tratar doentes com COVID-19. Simplesmente, torna-se claro que o recurso a um tal mecanismo gerará logo um novo coro de intervenções. E intervenções críticas: deveria ter sido antes, faltou diálogo, os custos do ato médico são pagos abaixo do custo real, por aí fora. Os arautos destas críticas, bom, são sensivelmente os mesmos de sempre: políticos oposicionistas, jornalistas, analistas, comentadores, técnicos do setor da Saúde, etc., etc..

É para mim ainda verdadeiramente espantoso o modo como se tratam os interesses de Portugal e dos portugueses, atacando, quase sem limites, a Ministra da Saúde, Marta Temido, quando todos sabemos o que vai pelo mundo no domínio da COVID-19, bem como o modo competente e dedicado com que a ministra e os responsáveis pelo setor da Saúde têm trabalhado. Quem ouve a grande comunicação social televisiva fica com a ideia de que a solução a contento de uma amplíssima maioria de portugueses estará ali, mesmo à esquina mais próxima. Simplesmente, este é o tipo de comportamento social que tem feito crescer a Extrema-Direita por largas partes do mundo. No fundo, foi isto que Trump, O Bronco, foi praticando ao longo do seu mandato e logo desde a campanha eleitoral: a elite no poder é um horror, não realiza o bem comum, ali estava ele, desejoso de realizar essa tarefa em prol dos seus concidadãos. Mas se é verdade que a grande comunicação social norte-americana, de um modo muito geral, desde sempre pôs Trump em causa, por cá está a repetir-se, com as naturais adaptações, a prática autodestrutiva que teve lugar na I República… Uma tristeza.

Comentar
Partilhar
Publicado por
Hélio Bernardo Lopes