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Reviravoltas

Há, no meio de tudo isto, uma certa confusão, suportada, acima de tudo, por uma mistura entre posições oriundas da educação familiar e a realidade objetiva das coisas, que é muito omnipresente.

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O tempo que hoje está a passar pelo mundo está já marcado, e de um modo claro, pela perceção de que a democracia tem vindo a estar longe do que de si seria de esperar. Uma realidade omnipresente no mundo, seja nos países ricos, seja na grande maioria deles, muitíssimo pobres e onde continuam presentes aspetos diversos de instabilidade. Lamentavelmente, a grande maioria das designadas democracias do Estados do Primeiro Mundo funcionam à luz de uma espécie de regra de diz tu, direi eu.

Como teria de dar-se, esta realidade mostra-se também à espreita no domínio religioso. Um domínio em que, muito recentemente, nos foi dado escutar, para alguns com grande espanto, as palavras de certa senhora católica, na missa dominical, a ser transmitida pela RTP, ao dar corpo à leitura da passagem da Epístola de São Paulo aos Efésios. Sem mais, a nossa concidadã lá referiu a submissão da mulher ao marido, cabeça da família. Palavras que justificam, plenamente, a reação de Fernanda Mestrinho: não, não é em Cabul, é na missa televisiva deste domingo…!

Também Madalena Abecasis, com plena formação católica, mostrou a sua reação às palavras em causa: estou ainda boquiaberta com o que foi lido por esta senhora, tendo em conta todo o panorama mun-dial, ainda mais ignorante, pré-histórico e maléfico. E completou, com toda a razão: não me venham dizer que é tirado do contexto, pois não há contexto nenhum neste mundo que justifique este discurso nos dias que correm. Bom, é a plena realidade.

Por fim, Catarina Camacho deixou esta sua reação, bastante compreensível: não tenho palavras, e fiquei incrédula, para mais com tudo o que se está a passar no mundo destes dias. E logo completou: o meu Deus não é este, é livre, é pela igualdade e pela liberdade.

Há, no meio de tudo isto, uma certa confusão, suportada, acima de tudo, por uma mistura entre posições oriundas da educação familiar e a realidade objetiva das coisas, que é muito omnipresente. Vejamos, pois, alguns aspetos desta questão recente.

Em primeiro lugar, este caso raramente foi comentado pelos nossos políticos, analistas, comentadores e jornalistas conhecidos como da Esquerda. Apenas alguns católicos levantaram a sua voz contra as tais palavras referidas pela senhora que leu a tal parte da Epístola de São Paulo aos Efésios. Todavia, foram muito poucas essas vozes, sendo que houve mesmo um caso em que a posição assumida visava potenciar a recuperação da situação antes perdida.

Em segundo lugar, de um modo muito geral, os católicos seguem a tradição por um mecanismo meramente familiar, embora longe da vivência plena do magistério da Igreja Católica Romana. Tudo não passa de um hábito oriundo da educação recebida e muito raramente aperfeiçoada no domínio cultural em causa.

Em terceiro lugar, vem aí uma nova sociedade suportada nas novas tecnologias, que virá a lançar no desemprego hordas vastas de gente que hoje possui uma profissão. E não custa perceber que a Igreja veja neste mecanismo uma oportunidade para apontar às mulheres o que sobre elas, maioritariamente, virá a ter lugar. Portanto, se esta ideia for sendo passada, para mais suportada numa Epístola de São Paulo, talvez se consiga começar a sensibilizar a comunidade dos nossos dias para um futuro como o referido naquele documento.

E, em quarto lugar, quando se abraça uma religião, naturalmente, não se é completamente livre do que os seus representantes nos indicam. O Deus católico, a que se referiu Catarina Camacho, não é livre, nem pela igualdade ou pela liberdade. O Deus católico, como em qualquer outra religião, é como no-los indicam os seus representantes supremos. Suporta-se (sempre!) numa perspetiva absoluta da realidade conhecida ou imaginável, onde o seguidismo e a obediência, com cambiantes, estão sempre presentes.

Por fim, uma nota, já por mim referida há uns anos: não sei se existe Deus ou não, mas há uma coisa que eu sei, é que ele já existe. E já agora: percebe o leitor que esta sociedade das mais amplas liberdades, a nós chegada pela Revolução de 25 de Abril, afinal, acaba por manter silenciosos a enormíssima maioria dos nossos políticos, jornalistas, analistas e comentadores? É que as coisas parece que mudaram, mas não mudaram.. Há muitíssimo mais que 2000 anos já existiam deuses, e por todos os lugares da Terra.

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