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Regresso ao passado

Diz-nos Daniel Bessa que quem, por esta ordem, for capaz de manter lucros, salários e pensões vai ter de contribuir pesadamente e com progressividade. Bom, isto tem um nome, e esse nome é o do regresso ao passado. O passado que a anterior Maioria-Governo-Presidente tentou criar e pôr em vigor para sempre. Um passado a que a Geringonça, com espírito de justiça e coragem política, pôs um fim.

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Depois da tão apreciada entrevista de Eanes a Fátima Campos Ferreira – pelo lado da Direita, claro está –, alguém teria de se lhe seguir, pegando no testemunho, digamos assim. E foi o que se deu com Daniel Bessa e as suas recentes considerações sobre o imperativo da solidariedade nesta crise criada pelo surto da COVID-19. E se o nosso antigo Presidente da República teria a coragem de ceder o seu ventilador a um pai de família com filhos, Daniel Bessa está agora pronto da dar uma parte dos seus rendimentos – qual será o montante? – para a recuperação nacional.

Diz-nos Daniel Bessa que quem, por esta ordem, for capaz de manter lucros, salários e pensões vai ter de contribuir pesadamente e com progressividade. Bom, isto tem um nome, e esse nome é o do regresso ao passado. O passado que a anterior Maioria-Governo-Presidente tentou criar e pôr em vigor para sempre. Um passado a que a Geringonça, com espírito de justiça e coragem política, pôs um fim.

Mas logo Daniel Bessa nos assegura que não quer ver lucros ou rendimentos a baixar, antes pelo contrário, pretende que possam contribuir para um esforço de solidariedade, de partilha da austeridade. E logo reforça: não se pode pedir a quem tem uma pensão mínima ou um salário mínimo esse esforço, mas consideraria repugnante que, quando terminar a fase de negação que estamos a atravessar, no momento próprio, mais cedo do que tarde, os rendimentos que sobreviverem não sejam chamados a pagar a sua parte.

Todo este palavreado é deveras inenarrável, porque os que não têm uma pensão mínima ou um salário mínimo já foram chamados a pagar os desvarios criados lá por fora, e cá por dentro, pelos mil e um que por aí andam pelos tribunais. Aliás, os que não têm uma pensão mínima ou um salário mínimo lá continuam a pagar o que ainda falta liquidar do que tantos bandidos, por cá e por esse mundo fora, se deitaram a criar aos diversos povos do mundo.

À luz deste argumentário, Daniel Bessa salienta que no imediato, o que se pode fazer é distribuir dinheiro, para que as empresas se mantenham, porque é vital que não acabem, e as pessoas não fiquem na miséria e não morram de fome. No fundo, a repetição do que fez na crise anterior, oriunda dos Estados Unidos: distribuir dinheiro pela banca, para que se mantivesse, porque era vital que não acabasse, e a sociedade não ficasse na miséria e disfuncional. De um modo simples: a classe média que pague a crise, proletarizando-se. E os mais velhos – os tais queridos velhinhos do grupo de risco…– que voltassem a ser penhorados com cortes à Passos-e-Portas. São uns queridos, mas há que cortar nas pensões e nas reformas.

Mas Daniel Bessa vai ainda mais longe: estou-me a referir aos lucros que alguns vão poder manter, não tanto na banca, um dos setores mais ameaçados, mas noutras empresas, e a quem recebe salários, alguns dos quais garantidos, como na função pública, pelo menos para já, ou pensões. Bom, caro leitor, um verdadeiro mimo político! E logo completa: só este esforço pode justificar que haja também solidariedade por parte da União Europeia. E voltar a reforçar: teria de dar toda a razão ao Ministro das Finanças holandês se tudo se resumisse a ir ao Banco Central Europeu e à Comissão Europeia buscar dinheiro, se, em casa, quem sobrevive não for chamado a contribuir. E conclui: as duas coisas têm de ir a par!!

Trata-se, como se vê, de uma tentativa de potenciar um autêntico regresso ao passado, até porque a União Europeia, como seria de esperar de um espaço onde se implantou forte-e-feio o neoliberalismo, continua a não contribuir. De resto, Daniel Bessa, sendo professor de Economia, sabe muitíssimo bem que a União Europeia só existe para fomentar a economia, os seus lucros, o jogo financeiro, mas crescentemente sem olhar às pessoas. É bom que Daniel Besa, quando se determinar a falar de soluções desumanas para este caso, se recorde das palavras de verdade do Papa Francisco: esta economia mata. Esqueceu-se.

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