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Realidades que se percecionam

Muitos cientistas de grande reputação dizem-nos agora que poderão existir no nosso planeta cerca de 1,7 milhões de vírus, que poderão ser responsáveis por futuras pandemias ainda mais mortíferas do que a COVID-19. E, de facto, nos termos da sociedade criada pela globalização e pelo capitalismo selvagem, tal ideia começa a parecer extremamente evidente a quase todos os cidadão comuns.

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A generalidade das pessoas atentas ao desenrolar do mundo em que vivemos há muito vem percecionando que o mesmo nos vem dando mostras, crescentemente evidentes, de que algo está descontrolado. O caso mais evidente é o determinado pela progressiva elevação do dinheiro, da riqueza e das modas que impõe, em detrimento do valor das pessoas. O triunfo pessoal e a posse de bens singulares, mesmo que objetivamente inúteis, passou a ser o supremo dos objetivos e da atividade de cada um. De um modo muito geral, claro está.

O recente surgimento do coronavírus, com a sua pandemia da COVID-19, fez tilintar todo o tipo de campainhas. Deixou de poder aceitar-se que tudo não irá passar de mera contabilidade temporal. A ciência, em mui boa medida, foi completamente apanhada de surpresa, apesar de Bill Gates se ter mostrado publicamente crente de que o grande fator destrutivo para o planeta pudesse vir a ser, precisamente, um vírus de grande impacto mundial.

Muitos cientistas de grande reputação dizem-nos agora que poderão existir no nosso planeta cerca de 1,7 milhões de vírus, que poderão ser responsáveis por futuras pandemias ainda mais mortíferas do que a COVID-19. E, de facto, nos termos da sociedade criada pela globalização e pelo capitalismo selvagem, tal ideia começa a parecer extremamente evidente a quase todos os cidadão comuns.

Mesmo sem certezas absolutas sobre como surgiu o surto do novo coronavírus, os cientistas verdadeiramente independentes continuam a estudar o impacto da atividade humana no mundo e as suas potenciais consequências. É uma linha de investigação que já não deverá vir a retroceder, o que não significa que muitos dos anteriores erros não continuem a ser praticados, fruto, claro está, da incessante e suicida busca pelo lucro como valor supremo para uma minoria de escroques.

Um estudo recente refere que a pandemia da COVID-19 poderá ser apenas um primeiro alerta sobre doenças ainda mais perigosas, presentes no mundo natural, e que, pela exploração que fazemos dos seus recursos, poderão vir a infetar-nos num futuro que pode nem estar assim tão longe. Esta dolorosa e perigosa realidade parece ter, já hoje pela leitura de quase todos, uma única espécie responsável: a atividade global do ser humano.

O nosso Planeta, fruto do triunfo neoliberal e da globalização, e na sequência da vitória presidencial de Donald Trump, que logo ajudou à de Bolsonaro, no Brasil, assistiu ao desmatar desenfreado, à expansão descontrolada e intensiva da agricultura, à exploração mineira, ao desenvolvimento de infraestruturas, à exploração de espécies selvagens, à destruição de zonas vastíssimas destinadas a extrair o gás de xisto, tudo criando uma autêntica tempestade perfeita para o surgimento de doenças novas e muitíssimo perigosas, até pelo seu desconhecimento anterior.

A verdade é que já não se duvida de que irão ter lugar pandemias futuras, provavelmente com muito maior frequência do que até aqui, disseminando-se muito rapidamente, com um impacto económico elevadíssimo e matando muito mais pessoas. E esta realidade irá chegar-nos se não tomarmos o essencial cuidado com os possíveis impactos das escolhas que fazemos hoje. E que deveremos continuar a fazer, assim esta pandemia se veja dominada e ultrapassada…

Foi, pois, com enorme satisfação que há dias escutei o académico Boaventura Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, no noticiário da noite da RTP 2, onde voltou a apelar a uma mudança de valores e de práticas político-sociais, ao redor da COVID-19, tema que abordou numa obra recente – A CRUEL PEDAGOGIA DO VÍRUS –, publicada pela Almedina. Vale a pena tentar visionar esta entrevista, que teve lugar ao início desta semana prestes a terminar. Quem puder visioná-la só terá a ganhar. Um dado é certo: teremos de utilizar bem o direito, ainda presente entre nós, de escolher os nossos representantes, impondo-se-nos mudar a terrível prática de produzir-consumir-descartar em larga escala e com grande velocidade. Se não formos por aqui, espera-nos – desta vez sim – um inferno na Terra.

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