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Propinas

Infelizmente, assiste-se a uma verdadeira desilusão política, que vai atirando a imagem da democracia representativa para o cesto da velharia.

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Num dia destes, talvez anteontem, surgiu por aí a notícia de certo estudo de uma organização internacional sobre a forma de dimensionar as propinas ao nível do ensino superior. Sem estranheza política, eis que o referido estudo veio propor o fim da gratuidade no universo do ensino superior, defendendo o aparente justo critério de pagarem menos os mais carenciados, e mais os de maiores posses. Creio, até, que propõe a existência de três escalões. De um modo simples: um logro, como procurarei explicar.

01 – O sentimento geral, criado na sequência do funcionamento da Geringonça, foi o de que estaria a desenvolver-se uma tendência para a gratuidade ao nível dos cursos de licenciatura no ensino superior. No mínimo.

02 – Durante muito tempo defendeu-se a ideia de que melhores remunerações para os jovens após o ensino superior só com mais estudos. A verdade é que tal não se veio a operar, continuando a assistir-se à saída dos que passaram pelas universidades e politécnicos para trabalharem fora de Portugal. Os salários são muito baixos, as garantias de estabilidade profissional são cada dia mais fracas e as possibilidades de realização pessoal mui limitadas.

03 – Perante esta realidade, o Governo de António Costa, já sem a Geringonça, que tão despudoradamente rejeitou, percebendo que o gasto com o ensino superior se esvaía para o exterior do País, deitou-se a mudar a agulha. Para tal, precisava de um novo estudo sobre as propinas no ensino superior. E foi isso que agora surgiu a público: nada de tendência para a universali-dade com valor progressivamente mais baixo. Enfim: o dito por não dito…

04 – O Governo de António Costa irá agora agarrar avidamente as conclusões do referido estudo, a cuja luz quem ganha pouco pagará pouco, e quem ganhar mais, pagará mais. O problema é que esta falácia não tem um suporte credível, porque é vasto o número de fatores que podem permitir concluir o que é justo e correto e o que o não é.

05 – Ora, num destes dias, António Costa esteve presente num encontro de jovens socialistas, a quem expôs o suposto caráter fantástico do ensino profissional, para cujo suporte irá ser aplicada uma verba muitíssimo maior. Num certo sentido, até se poderia retirar a ideia de que profissional é que é bom…

06 – O problema é que a realidade tem muita força. De modo que seria interessante saber quantos concidadãos nossos são oriundos do ensino profissional e se encontram no Governo, ou nos gabinetes políticos do poder. Quantos dos nossos oficiais do Quadro Permanente acederam ao ensino superior militar provindo do ensino profissional. Ou quantos dos nossos académicos são oriundos desta área do ensino pré-superior. E, se acaso não erro, esse número simplesmente é… nulo.

07 – De um modo simples, percebe-se que o Governo de António Costa trabalha a todo o gás para pôr um fim no Estado Social. Se com a colocação de professores o que se passa está já a criar a barulheira que se tem visto, e se com a Saúde não se percebem respostas capazes e lógicas, desta vez calhou acertar nas propinas do ensino superior. É, indubitavelmente, o regresso, e pelas mãos políticas do PS de António Costa, ao velho modelo do ensino técnico profissional da II República, embora com as roupagens que as técnicas do marketing permitem nos nossos dias.

Infelizmente, assiste-se a uma verdadeira desilusão política, que vai atirando a imagem da democracia representativa para o cesto da velharia. Se o Governo de António Costa nos surge com esta viragem de quase um ângulo raso, da oposição sobra a gritaria, porque o plano de ação seria o mesmo ou pior, embora não possa, por isso, ser explicitado. É por tudo isto que a democracia está em queda e quase por toda a parte. E atenção, jovem: se puder, procure o seu futuro fora de Portugal, porque por aqui só de mal para pior.

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