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Politicamente (in)correcto…

Mais do que nunca percebemos que nesta sociedade pós-moderna tudo pode ser momentâneo e imagético. Particularmente agora, em que a aparência supera o conteúdo, neste tempo em que as palavras começam a ser escassas e muitas até já perderam todo o sentido original.

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Júlio Roldão

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em…

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Aquela linguagem dissimulada que dá pelo nome de “Ketman”, linguagem antiga que Czeslaw Milosz tão bem apresentou, na coletânea de ensaios “A Mente Cativa”, essa linguagem volta a ser necessária e de enorme utilidade na hora de abordar o tema da guerra que ganha força na Ucrânia.

“Ketman” é a linguagem da falsa liberdade de expressão, uma arte da sobrevivência para quem vive em ambiente de verdades absolutas, políticas ou religiosas, onde qualquer deslize de linguagem pode levantar dúvidas sobre a pureza da ortodoxia de quem o possa cometer.

“Só pode duvidar das impostas verdades absolutas quem tenha o privilégio de poder sentar-se, na corte, bem ao lado do rei”, disse-me, um dia, alguém que conhece bem todos os segredos do “Ketman” e de muitas outras sucedâneas linguagens politicamente correctas. A Leste e a Oeste.

Com a chegada da pandemia, no início de 2020, e com o desenvolvimento que a guerra na Ucrânia regista em 2022, quem não usar na perfeição a linguagem do “Ketman” arrisca-se a ter de evitar estes temas, sob pena de ficar marcado como alvo para quem cultiva os discursos do ódio e muitas outras agressividades.

Mais do que nunca percebemos que nesta sociedade pós-moderna tudo pode ser momentâneo e imagético. Particularmente agora, em que a aparência supera o conteúdo, neste tempo em que as palavras começam a ser escassas e muitas até já perderam todo o sentido original.

E quando olhamos para estas normas do gosto, ditadas por quem faz opinião, entre os exércitos de seguidores e os respectivos votos de apreço, publicamente expressos, quando conferimos o nosso lugar na elencagem (ranking) da popularidade, percebemos que as emoções superam sempre as razões. O que não é, propriamente, uma coisa boa para a boa informação.

Lembram-se de um anúncio de uma operadora de telecomunicações que deificava (ou talvez, pelo contrário, diabolizava) a ideia de aldeia global mostrando a desilusão de um homem do campo ao verificar que um vídeo, por ele colocado nas redes sociais do ciberespaço com os dotes dele enquanto músico, nem um “like” (aprovação) tinha merecido.

Caminhamos, na verdade, em muitos campos férteis à desinformação.

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