Informativo Digital de Trás-os-Montes e Alto Douro

Perigosa barafunda

Lamentavelmente, o Governo optou por deixar andar, talvez nunca imaginando que a atitude de muitos elementos das nossas polícias pudesse chegar ao que se pôde ver.

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O caso que se vem desenrolando ao redor dos protestos dos agentes policias acabou por constituir-se numa perigosa barafunda. Um verdadeiro alçapão, repleto de riscos e que está a gerar uma muito má imagem de Portugal no Mundo.

Este caso dos polícias contém fatores recentes, derivados da atual ação governativa, e outros, já muito antigos, gerados por via de práticas erradas, mas que foram assentando arraiais ao longo de sucessivas governações, e com cores políticas as mais diversas.

Em primeiro lugar, uma velha prática que se constituiu em tomar como materialização do princípio da igualdade as atualizações dos vencimentos à luz de um montante igual, em percentagem, para todas as categorias profissionais, e mesmo dentro de cada instituição.

Ao proceder deste modo, foi-se alargando, quase sem parança, e com uma enorme dificuldade de inverter o erro logo que detetado, o leque salarial dentro da mesma instituição. Se nesta o topo recebesse 1000 e a base 100, a diferença era de 900. Se no ano seguinte se adotasse um aumento de 10 % para todas as categorias, o topo passaria a 1100 e a base a 110, ou seja, a diferença alargar-se-ia para 990. Foi-se ampliando, deste modo, o leque salarial, atingindo-se uma situação difícil de corrigir.

Em segundo lugar, acabou por aceitar-se que as instituições, mesmo que muito diferentes, teriam de ser sempre tratadas de modo completamente igual, o que viria sempre a constituir-se num erro. A Polícia Judiciária tem uma estrutura própria, que poderá ser muito distinta da PSP ou da GNR. E mesmo estas duas podem também ser distintas entre si. Procurar nivelar todas pela mesma bitola é criar um fator acrescido de complicação política e administrativa.

Em terceiro lugar, continuou sempre a estruturar-se toda a administração pública na base dos baixos salários, salvaguardando-se o caso do ordenado mínimo nacional. Só que, ao proceder-se deste modo, também se fez aproximar, perigosamente, o ordenado mínimo nacional do ordenado médio das carreiras dos estratos sociais médios, como que criando um amplo leque de portugueses a viverem abaixo do lógico e do desejável.

E, em quarto lugar, o modo paralisante como a governação de António Costa deixou andar o problema dos baixos salários dos agentes policiais. E se esta atitude foi geral e prolongada, já o recente comportamento político do Governo se veio a traduzir num fator de acirramento da ação dos polícias. Era dever do Governo, desde que aquele guarda da PSP se veio a deitar frontalmente à Assembleia da República, ter encetado um diálogo franco, criativo e nteligente com as diversas forças sindicais, a fim de tentar alinhar um caminho que pudesse vir a ser posto em prática no caso de ser o PS de novo a ter de governar após as próximas eleições para deputados à Assembleia da República.

Lamentavelmente, o Governo optou por deixar andar, talvez nunca imaginando que a atitude de muitos elementos das nossas polícias pudesse chegar ao que se pôde ver. Objetivamente, com alguma estupefação e com forte preocupação social. Uma desagradável e preocupante situação, para mais à beira de se comemorar o meio século sobre a Revolução de 25 de Abril…

Até aqui, a generalidade dos portugueses atentos ao funcionamento social foi-se mostrando solidário com os polícias. Simplesmente, tudo mudou de figura com o caso da tal indisposição em números razoáveis por parte de agentes policiais, para mais acabando por impedir a realização de uns quantos jogos de futebol. Sejamos sinceros: ninguém acredita em tal acontecimento como sendo real. Simplesmente, tudo ainda piorou com a exposição pública da hipótese de se poderem vir a não realizar algumas das entregas de votos nas próximas eleições. E a razão é simples: se eu apontar um certo tipo de ilícito ainda não ocorrido, mas passível de vir a ter lugar, nunca sei se o mesmo, depois de lido, poderá, ou não, vir a dar-se, nem se a exposição pública da hipótese irá ser a causa se o mesmo vier a ter lugar.

Se os polícias têm razão, e a governação de pouco lhes tem ligado – e de forças políticas diversas –, continuar a fugir ao diálogo entre os que estão em confronto de pontos de vista constitui-se num erro muitíssimo forte. O facto de estar o Governo em gestão, tal não impede que se equacione, desde já, os caminhos para se vir a trabalhar num futuro, mesmo que ainda desconhecido. A verdade é que se evitam tensões inúteis e perigosas, naturalmente aproveitadas por concidadãos desejosos de assumir o poder, e a qualquer preço.

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