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Pândega

As armas nucleares da URSS eram, claro está, deste extinto país. A sua utilização pressupunha o acesso a códigos secretos, só manuseáveis pelo poder político cimeiro da URSS, sedeado em Moscovo.

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Há já uns bons anos, surgiu por aí o problema das armas nucleares, e badalado ao redor da sua utilização como, por igual, da sua própria posse. Se acaso não erro, o tema foi introduzido pelo inefável António Guterres, já então Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, mas de pronto replicado pelo próprio Papa Francisco. É, como já escrevi, a mais que expectável consequência da presença, pela primeira vez, de católicos apostólicos romanos em Roma, Washington e Nova Iorque…

De imediato, tive a oportunidade de salientar duas coisas: por um lado, as armas nucleares só foram utilizadas contra um Estado pelos Estados Unidos, primeiro em Hiroxima, depois em Nagasaki. A sua réplica foi logo conseguida pela extinta União Soviética, (URSS), e pelo Reino Unido, e, mais tarde, pela França e pela China. Seguiram-se Israel, a África do Sul, a Índia e o Paquistão e também a Coreia do Norte. Embora, o segundo destes, com o fim do Apartheid, se tenha desembaraçado de tais armas, com o Paquistão a mantê-las sem grande significado.

Recentemente, no âmbito do desenrolar da grande batalha da Ucrânia, começou a questionar-se, ao nível dos comentadores de serviço no Ocidente, se a posse das armas nucleares da URSS devia ter passado para a Federação Russa, ou se também devia ter ficado na posse, por exemplo, da Ucrânia. Enfim, é um recurso argumentativo de desespero, que não valeria mais do que um valor em vinte numa prova de Direito Internacional Público.

As armas nucleares da URSS eram, claro está, deste extinto país. A sua utilização pressupunha o acesso a códigos secretos, só manuseáveis pelo poder político cimeiro da URSS, sedeado em Moscovo. É essa a razão de nos Estados com tais armas sempre andar atrás do Chefe de Estado um militar com uma pasta, contendo, precisamente, um sistema computacional que permite o acesso ao sistema de tais armas, para tal utilizando códigos só conhecidos pelo próprio Chefe de Estado.

A sede deste poder – o da URSS – era em Moscovo. Este facto, naturalmente, mostra que o controlo de tais armas só poderia ser feito a partir do poder que viesse a ficar em tal cidade, hoje a capital, da Federação Russa. Imagine o leitor, por exemplo, que Portugal fosse uma potência nuclear, e que no Porto Santo estivesse localizado um silo com mísseis do tipo Minuteman III. Bom, se o Arquipélago da Madeira assumisse a independência, tais mísseis viriam a ser dali removidos. De resto, os códigos de acesso à sua utilização estariam nas mãos do Chefe de Estado de Portugal, e não na dos madeirenses ou dos porto-santenses.

Pois, caro leitor, o desespero do interesse ocidental é de tal ordem, que se chegou já à defesa da ideia de que as armas nucleares da extinta URSS deviam ter sido democraticamente distribuídas pelas diversas repúblicas do tempo da desagregação do comunismo soviético!! Enfim, uma pândega.

Por fim, já agora se percebe, com cabal clareza, que o problema não é o das armas nucleares, mas o da sua posse por Estados não ocidentais… Como há muito escrevi, na peugada de Samuel Huntington, está em curso um conflito de civilizações – e como tantos, mentirosamente, o negaram…–, cada uma delas, como é da natureza das coisas, suportada, em última análise, numa estrutura de natureza religiosa, ou seja, numa visão absoluta da vida. De um modo simples e sintético: o problema não é o das armas nucleares, mas o das armas nucleares russas, porventura chinesas, e talvez, até, francesas…

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