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Os tais valores…

Hoje, quando se recorda o Muro de Berlim, quase se acha graça, tal é a desproporção entre a sua envergadura e o estado a que o mundo chegou, nos dias de hoje, neste domínio da construção de muros protetores. Se muitos condenaram tal ideia, a verdade é que o surgimento de novos muros não desapareceu, muito ao invés.

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Todos recordamos bem o ruído que se gerou no espaço da União Europeia quando Trump, O Bronco, surgiu, ainda durante a campanha eleitoral, a assumir a garantia de que iria combater a imigração clandestina para os Estados Unidos por meio de um muro a separar estes do México. E também que o custo da obra seria imputado a este último. A verdade é que o muro lá se iniciou, creio que sem atingir a sua plenitude, e sem que o México tivesse pagado o que quer que fosse.

Num ápice, desde o Vaticano aos bem-pensantes do mundo, incluindo norte-americanos, se deitaram a protestar contra uma tal ideia. O próprio Papa Francisco, por mais de uma vez, abordou (e condenou!) tal ideia, mas a verdade é que uma medida deste tipo não era a primeira. Mesmo no espaço europeu, tal como em Israel, esta medida havia já sido materializada. E, se a memória não me atraiçoa, tais iniciativas nunca mereceram a barulheira que a de Trump, O Bronco, suscitou. Eu mesmo escrevi, a dado momento, que também o Vaticano se encontra protegido por um muro.

Hoje, quando se recorda o Muro de Berlim, quase se acha graça, tal é a desproporção entre a sua envergadura e o estado a que o mundo chegou, nos dias de hoje, neste domínio da construção de muros protetores. Se muitos condenaram tal ideia, a verdade é que o surgimento de novos muros não desapareceu, muito ao invés. O próprio Mediterrâneo se acabou por transformar num outro tipo de muro, envolvendo, quase com toda a certeza, muito mais mortes que as causadas pelo Muro de Berlim. Um velho sonho, afinal, transformou-se num trágico logro.

Muito para lá da América de Trump, O Bronco, a Europa tomou, neste domínio, um lugar cimeiro, fruto, como há dias se escreveu, do aço, cimento e medo, que vêm suportando este tipo de estruturas por toda o espaço europeu. Também a Polónia se determinou a gastar 353 milhões de euros numa vedação de cinco metros e meio de altura e 186 quilómetros de extensão na fronteira com a Bielorrússia. A Polónia católica romana, de onde nos chegou o Papa que nos exortou a não termos medo… E a razão principal deriva do receio das vagas de refugiados e de migrantes que fogem às guerras e à pobreza, no Médio Oriente ou em África. Nestes casos migratórios, não se tratando de cristãos e, provavelmente, não brancos, o que a Europa tem para dar são muros, nada comparáveis à política de braços abertos aplicada à Ucrânia. É o esboroar de todo um conjunto de apregoados valores pelos políticos europeus.

De modo concomitante, depois dos Estados Unidos e a Europa terem ajudado ao derrube do histórico poder líbio de Kadafi, eis que na passada sexta-feira se operou o assalto ao parlamento líbio em Tobruk, operado por manifestantes, levando as Nações Unidas a apontarem tal ação como um vandalismo inaceitável. Depois dos Estados Unidos, a Líbia…

No meio de tudo isto, depois do que o mundo pôde ver com o homicídio de George Floyd, aí está o mais recente jovem negro morto pela polícia, quando estava de costas para esta. Uma situação que levou o seu advogado a manifestar a crença de que o jovem terá sido atingido por… 90 tiros. Bobby DiCello, advogado deste, diz agora, depois de rever as imagens da câmara da farda dos agentes, que tanto ele como a sua equipa não viram nenhuma prova de que o jovem assassinado tivesse disparado contra os agentes.

Perante isto, as consequências: os agentes envolvidos no assassinato foram colocados em licença administrativa enquanto decorre uma investigação, sendo que o autarca da cidade e o chefe da polícia se comprometeram a dar uma atualização sobre a situação assim que se chegar a uma conclusão. Mas tudo, porém, deverá vir a terminar como com o caso de Rodney King, dado que a polícia, na dita democracia norte-americana, goza de imunidade qualificada…

Todavia, de pronto surgiu um novo caso nos Estados Unidos. Depois de detido pela polícia, certo homem fraturou a coluna em vários pontos, encontrando-se hospitalizado, mas correndo o risco de nunca mais voltar a andar.

Depois de detido e colocado no interior da carrinha celular, algemado e sem cinto de segurança – sem ter, pois, onde se apoiar –, veio a ser atirado com violência contra a carrinha numa travagem repentina, três minutos após se ter o iniciado a viagem. Lá foi pedindo ajuda, mas ninguém acreditou, incluindo na esquadra, onde, depois de arrastado, foi colocado numa cadeira de rodas. Só depois de levado ao hospital foi confirmado que o jovem em questão havia fraturado a coluna em diversos pontos. Está agora paraplégico e ligado a um ventilador. E então? Ah, o sargento e os quatro agentes envolvidos foram já afastados, enquanto decorrem as investigações a um caso que nem é inédito! É que já em 2015, Freddy Gray, de 25 anos, morreu depois de uma viagem semelhante. E a vida, claro está, continuou a correr… Até porque existe a tal imunidade qualificada. É a dita democracia norte-americana na sua melhor referência para o mundo.

No entretanto, um líder índio brasileiro surgiu a reconhecer que o Brasil de hoje, tal como a generalidade da América Latina, continua marcado pelo colonialismo. É uma realidade perfeitamente objetiva, que ninguém, com um mínimo de atenção e de honestidade intelectual, pode pôr em dúvida. De resto, o Papa Francisco também agora se referiu a esta realidade.

Questionado sobre as mudanças políticas no subcontinente americano, com fórmulas políticas em vários países que ilustram uma rejeição ao neoliberalismo, Francisco referiu o sonho de San Martín e Bolívar,

que classificou como uma profecia, um encontro de todo o povo latino-americano, e que, além da ideologia, deve buscar soberania. E logo juntou: a América Latina ainda está neste caminho lento, de luta, do sonho de San Martín e Bolívar – pais das independências latino-americanas – pela unidade da região. Precisamente o que há dias expôs o tal líder índio brasileiro.

Francisco também salientou que toda a região subcontinente americana sempre foi vítima, e será vítima até que seja completamente libertada, dos imperialismos exploradores. Mas logo se esquivou a fazer o que faz com o caso da grande batalha da Ucrânia: não quero mencioná-los, porque são tão óbvios que todos os veem. Lamentavelmente, Francisco tinha o dever de falar claro, como tem feito com o que se passa em solo ucraniano.

Em contrapartida, neste caso da grande batalha da Ucrânia o Papa voltou a apelar à Paz, salientando que o mundo precisa de um tal ingrediente, mas sem ser baseado no equilíbrio dos armamentos e no medo recíproco. E logo referiu que a crise ucraniana não deveria ter acontecido, instando a que se converta num desafio entre sábios estadistas capazes de construir, com o diálogo, um mundo melhor para as novas gerações.

Faltou ao Papa Francisco a retoma das suas anteriores e corajosas considerações para a causa do que se tem vindo a passar na Ucrânia, a que Kissinger também se referiu na sua entrevista à CNN, e que o PCP, tal como a China, tão claramente apontaram recentemente: a OTAN é a maior ameaça à paz, mostrando uma estratégia de confrontação com a Rússia e a China.

Que o Ocidente, sob a batuta dos Estados Unidos, vai mal, pois, ninguém, desde que dominado pela boa-fé, pode pôr em causa. Um mal que vem logo de dentro dos próprios Estados Unidos, mas se está a expandir por toda a érea sob sua dependência, como agora se pôde ver com a violência surgida na Dinamarca, ao mesmo tempo que a Suécia e a Finlândia se determinaram a deixar a sua lógica situação de Estados soberanos para ingressarem num clube político-militar, sob a liderança, sempre agressiva, dos Estados Unidos.

Se Francisco não se cansa de apregoar a Paz e a necessidade da concórdia e da união de esforços entre os povos, a verdade é que o que cresce é o individualismo, o egoísmo e o apetite pelo dinheiro e pelo lucro a qualquer preço. Lamentavelmente, a tal União Europeia dos valores, depois de mostrar ao mundo o desprezo pelos povos mais pobres em face da necessidade de vacinas contra a COVID-19, continua agora a perseverar na escalada de uma guerra que deixou que os Estados Unidos e a OTAN ajudassem a fazer surgir. Se uma mulher assassinar o marido, bom, é um homicídio, mas se o tiver feito quinze anos depois de brutalmente martirizada pelo homem, raros, no domínio social, lhe apontarão facilmente o dedo. E é isto que vem faltando ao Papa Francisco, depois daquele momento de coragem sobre as longínquas causas da atual grande batalha da Ucrânia.

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