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“Ode às mulheres que querem ser soldados”, poema de Jesús Lizano

Poemário, rúbrica de Carlos d’Abreu, raiano do Douro Transmontano (1961), Geógrafo (USAL/UC), Arqueólogo (UP/USAL) e Historiador (UPT/USAL), colaborador do Centro de Literatura Portuguesa (UC); investigador, poeta (e diseur), antologista e tradutor; conta com várias publicações nestas áreas.

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Ode às mulheres que querem ser soldados

Aos quartéis!
Enchei de filhos os quartéis!
Que se misturem os filhos nos desfiles!
Que brinquem com as armas e as munições!
Que as desmontem e confundam!
Que interrompam
as arengas dos coronéis!
Sim, sim, vós!
Passai as noites nas guaritas da guarda!
Levai à cantina os alferes!
Multiplicai os altifalantes!
À carreira de tiro! Descei à carreira de tiro com a merenda
e estendei as toalhas! Toalhas!
Toalhas!
E tapai de queijo os fuzis
ensaiando mil toques novos de corneta.
Que fiquem loucos todos os capitães!
Que dancem até se desconjuntarem os corneteiros!
Estendei as roupas na Sala de Comando!
Desfilai! Desfilai
mostrando os vossos encantos!
Isso! Isso! Soldados!
E logo, aos templos! Há muitos templos!
Enchei de criaturas os templos!
Que brinquem às escondidas pelos armários, pelos sítios recônditos!
Que se disfarcem com as fardas e os lençóis!
Incenso! Muito incenso!
Ide às procissões com os vossos pratos e caçarolas
e que se espalhe pelos armazéns
o cheiro a ovos fritos e a borrego!
A mãe do borrego!
Ala! Ala!
Cumpri a longa marcha até aos bancos!
Confundi todos os códigos!
Acelerai os ventiladores!
Que voem todos os arquivos e se percam todos os créditos!
Casai-vos com os banqueiros!
Com os presidentes de câmara! Com os acionistas!
Enchei com o vosso perfume e o vosso encanto os ministérios!
Levai as meias ao hemiciclo!
Nem luz nem estenógrafas!
Luz? Estenógrafas?
Sim, seres maravilhosos que quereis ser soldados!
Às escolas! Às escolas!
Ponde as patas em cima das geografias e das histórias!
As regras!
Seduzi os catedráticos!
À Aula Magna! À Aula Magna!
E passeai nuas e revestidas com as suas togas!
Pari nos Conselhos de Ministros!
E nas loggias! E nas Academias!
Recebei as vossas amigas nas Academias!
Nas Reais Academias!
Salvai da ordem o mundo!
Começará um tempo novo
e voltaremos à selva!
E assim terminará este ciclo tão antigo
quando Eva, desta vez, devolva ao género humano o Paraíso!

Jesús Lizano

``Ode às mulheres que querem ser soldados``
Poemário de Carlos d'Abreu
``Ode às mulheres que querem ser soldados``Poemário de Carlos d'Abreu
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Jesús Lizano foi um poeta e um pensador libertário espanhol, ligado ao movimento anarquista. Defendeu o Misticismo Libertário que concebia a evolução a partir do mundo selvagem, onde convergem todos os animais excepto a espécie humana, que agora está estagnada no mundo político real, a caminho do mundo real poético .

Estudou filosofia e leccionou, onde foi alcunhado “Antiseñor Lizano” por garantir a aprovação de todos os alunos. Publicou periodicamente “A coluna poética e o poço político” na revista libertária Polémica publicada em Barcelona. Escreveu em jornais.A Sua poesia era oral, o que o levou a participar em numerosos recitais participativos e apaixonados, dos quais existem alguns testemunhos em vídeo que ele editou.

“…exemplo de luta em defesa da humanidade
e de todas aquelas causas justas às quais dedicou a vida… que a sua figura e a sua obra de luta social a favor dos desiguais seja seguida e recordada por muito tempo…”

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