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O verdadeiro eixo do mal

Hoje, depois das razões que levaram à colocação no texto constitucional inicial, o tal direito de possuir e usar arma, ao invés de constituir um fator de defesa, ou de dissuasão, o que acaba é por permitir a posse de armas por um amplíssimo universo humano.

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De um modo assaz objetivo, talvez este meu texto não se justificasse, dado que o surgimento de massacres com armas de fogo, em geral pela mão de jovens, ou de atentados de norte-americanos sobre concidadãos seus, ou sobre estruturas, é coisa já tão corrente, que acaba mais por nos causar uma reação que vai oscilando entre a chalaça e o desinteresse por tais acontecimentos.

Muito recentemente – pouco mais de um mês –, um afroamericano, que já não era jovem, operou um qualquer atentado no comboio metropolitano de certa cidade, mas com repercussões más quase nulas. Ou porque foi encontrado um documento, ou porque assim terá exposto às autoridades, os Estados Unidos são uma sociedade violenta e que nasceu na violência. Bom, é a verdade, que pude já referir bastas vezes.

Hoje, depois das razões que levaram à colocação no texto constitucional inicial, o tal direito de possuir e usar arma, ao invés de constituir um fator de defesa, ou de dissuasão, o que acaba é por permitir a posse de armas por um amplíssimo universo humano. Se a isto juntarmos a forte pobreza presente no seio da sociedade norte-americana, a instabilidade na vida profissional, a constante presença dos Estados Unidos em guerras por toda a parte do mundo, e a comparação entre o que se ouve aos políticos e o que se passa, de facto, no seio da sociedade, percebe-se facilmente que estes massacres estão à mão de uma revolta íntima, quase sempre com um fundo de razão social. Outra coisa é descarregar tal revolta com a prática de crimes.

Desde que se tenha acompanhado o que foi a vida no seio da sociedade norte-americana, percebe-se que a mesma se suporta numa amplíssima máquina de criar riqueza por via da exploração humana dos que, de facto, ajudam, essencialmente, a criá-la. Mas também a explorar as riquezas de povos os mais diversos, deitando mão de ditadores e corruptos, que ajudam mesmo a fugir à justiça dos seus países, como se deu com Reza Palevi, ou com Marcos e sua família. Entre mil e um outros.

No plano interno, nós pudemos assistir ao FBI de John Edgar Hoover espiando a classe política, incluindo presidentes, mas também na perseguição política, ou ideológica, a americanos que pudessem ser comunistas, ou mesmo socialistas ou social-democratas. Ou às ligações desta estrutura policial aos clãs mafiosos, mormente em casos de homicídios históricos, como o dos Kennedy e de Luther King.

A tudo isto há que juntar a perigosa ausência da separação dos poderes, com os juízes federais a serem nomeados pelo poder político, acabando mesmo por mentir nas audiências perante o Senado, como se deu com os quatro juízes nomeados por republicanos, ao redor da questão da legislação, já com décadas, sobre o aborto.

Mas também os crimes de Estado, por interesses a este ligadas, nomeadamente, ao homicídio de políticos estrangeiros, ou norte-americanos, ou ao seu planeamento, ou à sua falhada execução. Infelizmente para a nossa honorabilidade, também Portugal teve um Primeiro-Ministro e um Ministro da Defesa Nacional assassinados a soldo de interesses dos Estados Unidos, como se deu com Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.

A tudo isto, podem ainda juntar-se as experiências em seres vivos, como as bombas de vírus amortecidos lançadas sobre a baía de S. Francisco, ou sobre Minneapolis, sem conhecimento nem autorização de quem quer que fosse. E é bom não esquecer os cursos fornecidos a agentes da antiga PIDE sobre tortura sem vestígios, hoje já legalizada na sequência dos ataques de 11 de Setembro. E também tudo o que nos contou a brigadeiro-general Janis Karpinsky, em livro e na televisão, depois de sucessivamente ter insistido para ser presente a tribunal marcial na sequência dos acontecimentos de Abougrahib. A verdade é que, neste caso, ninguém se interessou pelo que a bonita oficial-general tinha para contar. Nem ao nível das autoridades militares norte-americanas, nem ao das Nações Unidas, nem de qualquer tribunal internacional. Estando Donald Rumsfeld em causa, e não Vladimir Putin, tudo mudou logo de figura. Resultado? Ah, desproveram-na… De modo que entendo pôr um fim neste texto com dois dados que considero importantes.

Em primeiro lugar, o que sucedeu em Angola, logo após a independência, com a guerra entre a UNITA e o MPLA. Quem tiver a oportunidade de ler a obra A CIA CONTRA ANGOLA, de John Stockwell, que era o residente da CIA em Kinshaza, perceberá a terrível responsabilidade dos Estados Unidos no que depois se veio a desenrolar em Angola, mas também a dos seus apoiantes na política portuguesa. Apostaram no cavalo errado, como usa dizer-se…

E, em segundo lugar, o texto curto e recente de Francisco Seixas da Costa, no seu blogue, “duas ou três coisas”: A orgia de armas em que a sociedade americana vive tem as suas habituais consequências. Mas nada faz supor que os equilíbrios políticos nos EUA apontem para a derrogação ou limitação do princípio constitucional que abre a porta a regulares massacres. A América é também isto.

Enfim, quando agora termino este texto, há uma dúvida que me surge: para quando e onde o próximo massacre deste tipo nos Estados Unidos?

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