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O suicídio da III República

Seis anos depois do nascimento da Geringonça, o PS de António Costa teve a mais cabal oportunidade de ter dado ao SNS um rumo político que tivesse evitado o estado de degradação a que se chegou.

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Quem acompanha os meus textos terá já percebido que utilizo sempre a expressão “o PS e os partidos da Esquerda”, e nunca “os partidos da Esquerda – PS, PCP, Verdes, Bloco de Esquerda e PAN”. A razão deste meu procedimento deve-se ao facto de não existir o dito socialismo democrático, como há muitos anos expliquei, sendo – para mim, claro está – o PS um partido do Centro, com gente ideologicamente mais ligada às ideias do socialismo, e outra mais próxima do posicionamento do PSD de sempre, e que tomei como um partido liberal e da Direita. Todavia, o líder do PS mais à Esquerda foi, indubitavelmente, Jorge Sampaio, com Guterres situado no seu lado mais à Direita. E a verdade é que este saiu pela porta baixa, com aquele a sair como há pouco se pôde ver. Neste sentido, a grande diferença entre PS e PSD situou-se sempre no domínio das preocupações sociais: o PS, no meu entendimento, foi sempre um PSD com preocupações sociais, o que permitiu manter, até hoje, o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social Púbica e o Sistema de Ensino que temos.

Convém recordar que o CDS votou contra a Constituição de 1976 e que o PPD esteve à beira de o seguir, só tal não vindo a ter lugar por via de conversações a nível mais íntimo dos parlamentares e das lideranças partidárias. Por ser esta a realidade, sempre me pareceu inútil a conversa da Direita sobre o preâmbulo da Constituição da República, a propósito do caminho para o socialismo… Tudo isto, como qualquer um percebe bem, foi sempre conhecido das lideranças partidárias.

Quando o PCP, depois de quanto sofreu em face das continuadas críticas sem lógica ao gonçalvismo, ainda produzidas por Mário Soares no final dos anos oitenta do passado século – mesmo depois –, se determinou a apoiar a candidatura de Mário Soares na sua corrida contra Diogo Freitas do Amaral, não o fez por ser aquele um socialista democrático, mas porque ele seria, como Presidente da República, o mal menor. Vencer Diogo Freitas do Amaral tal eleição seria cair na situação em que, muito provavelmente, se irá agora dar.

O que hoje fez o PCP foi, precisamente, o inverso do que se deu com Álvaro Cunhal naquele tempo já distante. E se nesse tempo se quis evitar o fim da Revolução de Abril e da sua Constituição, com esta atitude do Bloco de Esquerda e do PCP o que acabará por dar-se, quase com toda a certeza, será o fim do Estado Social – SNS, Segurança Social Pública e Sistema Educativo –, e, por aí, a perda bastante acentuada do próprio PS, sem que os partidos da Esquerda venham com isso a ganhar. Será, para mim, o suicídio da III República, dado que o seu suporte essencial foi sempre o PS, com a estrutura do Estado Social que conseguiu criar, de parceria com o PCP e outros, mas sempre contra a vontade política do PSD e do CDS.

Seis anos depois do nascimento da Geringonça, o PS de António Costa teve a mais cabal oportunidade de ter dado ao SNS um rumo político que tivesse evitado o estado de degradação a que se chegou. E bem poderia ter optado pelas suas soluções de sempre em matéria laboral, ao invés de se deixar guiar pelas regras impostas pela Tróyka e logo hipertrofiadas pelo terno Cavaco-Passos-Portas. A verdade é que o PCP, Verdes e Bloco de Esquerda sempre souberam que o PS estava marcado pela estrutura que foi a sua desde sempre. E convém recordar também o significado desta minha frase já antiga: o PS foi sempre o suporte, em Portugal, da grande estratégia dos Estados Unidos.

Em conclusão: fruto das naturais e conhecidas contradições ideológicas do PS e das suas limitações correspondentes, mas por igual do erro estratégico de se pedir o que se sabe, quase com toda a certeza, que não iria ser concedido, os partidos da Esquerda, com esta sua recusa do Orçamento do Estado, voltaram a colocar o ponteiro da História da III República no tempo final do terno Cavaco-Passos-Portas. Infelizmente, sobraram, abandonados, a grande maioria dos portugueses, à mercê da Direita e da Extrema-Direita, com as consequências que até puderam já experimentar. E quer o leitor um conselho amigo? Pois, vá a uma biblioteca e leia os textos de Salazar, porque em alguns está lá bem espelhada esta falência na ação política conjunta das designadas Esquerdas. Vão ficar mal os portugueses…

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