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O poder do sonho

Estes dois casos – Capitólio e Wagner – inserem-se na decomposição moral do mundo depois do fim do comunismo soviético, e com o triunfo neoliberal. É um mundo onde 700 pode ser menor que 5, desde que se pense nos mortos no Mediterrânio, ou na tal visita ao Titanic.

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Não estando ligado a qualquer estrutura de informações, estava longe de imaginar o que se passou na Federação Russa por via daquela iniciativa de um já consabido doido varrido. Mas é interessante, contudo, acompanhar como, num ápice, tantos acreditam em que havia já quem soubesse de tudo. Ou seja: os dirigentes da Federação Russa desconheciam tudo, mas a CIA, talvez também o MI6, estavam já a par de toda a realidade.

Indiscutível era o que se vinha passando com o referido louco que dirigia a tal Wagner. Custava perceber que um Estado digno e capaz pudesse consentir, e para mais vindo de um empresário de mercenários, no que o sujeito vinha dizendo a torto e a direito. Uma realidade que acabou por se constituir numa fonte para o surgimento de todo o tipo de conspirações.

Para se poder entender o que se passou, é essencial perceber o que está na base da nossa tentativa de compreensão de tal realidade. Ora, essa base situa-se na grande comunicação social, que é hoje o grande instrumento da propaganda ocidental contra a Federação Russa e contra o Presidente Vladimir Putin. Se o leitor pensar um pouco, perceberá que a destruição dos gasodutos, tendo sido obra dos ucranianos, ficou pelo caminho. E o mesmo se ia dando com o tal míssil que caiu na Polónia, que teria logo de ser oriundo da Federação Russa, ou com os mísseis caídos junto da central nuclear, de que a AIEA nunca mais falou. Ou da própria barragem, que logo foi olhada como tendo sido o resultado de uma ação sob as ordens do Presidente Vladimir Putin. Se é mau, é de Putin; se vem de Zelensky, é logo bom.

Ora, o que se passou na Federação Russa também se passou, há uns três anos, nos Estados Unidos, com o que se pôde ver no Capitólio. Nem nos sonhos noturnos mais criativos tal teria sido expectável. A verdade é que os Estados Unidos continuaram, realmente mergulhados numa crise social e política profunda, onde se chegou ao ponto de esconder o que se passou com Hunter Biden à custa de um caso de falta de licença de uso e porte de arma, porque o que fez Trump pedir a Giuliani que soubesse, junto de Zelensky, o que se passara com os negócios de Hunter na Ucrânia. Bom, ficou em nada.

Hoje, percebeu-se já que Trump bem poderá vir a vencer as eleições presidenciais que se aproximam, de modo que o poder atual não esteve com meias medidas: começou a processar, por tudo e umas botas mais, o pobre do Donald. Claro está que este fez mais do que o suficiente para ser presente a juízo, mas isso nunca teria lugar se ele fosse um outro antigo líder presidencial. Basta olhar o que nos é contado na obra OS MANDANTES DO ATENTADO DE CAMARATE, do falecido Alexandre Patrício Gouveia, ou o que fez Richard Nixon depois de ser Kennedy ser considerado como o vencedor das eleições. Ou a fantástica impostura do Relatório Warren.

Estes dois casos – Capitólio e Wagner – inserem-se na decomposição moral do mundo depois do fim do comunismo soviético, e com o triunfo neoliberal. É um mundo onde 700 pode ser menor que 5, desde que se pense nos mortos no Mediterrânio, ou na tal visita ao Titanic. Como há dias escrevi, a propósito do Professor Salazar ser um homem probo, vivemos um tempo em que deixaram de existir honra e vergonha, uma época onde o dinheiro é o real valor cimeiro. O Papa Francisco tem-nos dito isto mesmo à saciedade, mas a verdade é que ninguém lhe liga.

Discute-se agora quem saiu vencedor desta recente contenda russa. Ora, percebe-se facilmente que o vencedor foi o Presidente da Federação Russa, dado que o objetivo estratégico do louco da Wagner não atingiu o seu objetivo. Mas é evidente que seria preferível que todo este impercetível episódio não tivesse tido lugar. E não é verdade que Salazar subsistiu sempre às mil e uma tentativas para ser derrubado? Até de gente da PVDE, mormente de Agostinho Lourenço! Não se passaram os acontecimentos da Índia, e não continuou Salazar e o regime por muitos anos? Portanto, porquê continuar a tentar aqui sublimar a vitória de Putin através de um suposto seu enfraquecimento? E se Trump voltar a ser Presidente? Então, não era um mau, e é depois escolhido democraticamente?! Ridículo. Ridículo transformar o sonho em realidades sucessivamente adaptáveis.

Infelizmente, tudo o que se tem vindo a passar na Ucrânia podia ter sido evitado. Desde logo, não operando a invasão, o que teria requerido que o Ocidente não se tivesse deitado, desde há muito, a tentar cercar a Federação Russa, como James Baker III prometeu, sem cumprir, a Gorbachev.

Depois, de a ONU e a OSCE tivessem, desde antes da invasão, cumprido o seu papel, que era pôr em funcionamento uma real estrutura de garantias de paz na Europa. A verdade é que nada fizeram. E foi assim porque estavam por detrás os interesses estratégicos do Ocidente, sobretudo, dos Estados Unidos.

Tenho para mim, por tudo o que escrevi antes, que o regime russo em nada saiu enfraquecido. E a razão é simples: conhecem-se mil e uma situações em que assim aconteceu. Felizmente que o louco da Wagner se determinou a ir andando sem que lhe limitassem o caminho. Finalmente, lá terá percebido: mas o que é que eu irei fazer depois, já em Moscovo?

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