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Ninguém, desde que se determine a utilizar de boa-fé, pode hoje pôr em causa que a governação, nos Estados Unidos como no mundo em geral, se suporta, amiúde, em mentiras, deformações, ou mesmo omissões com valor de mentira.

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No editorial da edição do Público deste sábado, o seu diretor, Manuel Carvalho, escreve, logo ao início, que “Instilar na sociedade a ideia de que o Governo mente por natureza, que o jornalismo é uma fábrica de fake news, que os políticos roubam e os juízes são corrompidos, como Trump sempre fez, leva aonde a América está hoje.” Bom, discordo desta conclusão do diretor do Público.

Ninguém, desde que se determine a utilizar de boa-fé, pode hoje pôr em causa que a governação, nos Estados Unidos como no mundo em geral, se suporta, amiúde, em mentiras, deformações, ou mesmo omissões com valor de mentira. As próprias sondagens perderam toda a credibilidade, como as mais recentes em Portugal mostraram à saciedade. E o que toda a gente realmente pensa é, precisamente, que o Governo mente por natureza. E se nos Estados Unidos surgiu Trump, ele não foi a causa de assim se pensar por quase toda a parte do mundo. Novidade é surgir um lugar onde tal realidade não esteja presente.

Depois, a referência ao facto de Trump ter posto a correr a ideia de que o jornalismo é uma fábrica de fake news. Também aqui Manuel Carvalho erra na apreciação da realidade, para o que basta estar num café e referir a alguém conhecido certa notícia surgida na capa de algum jornal. Num ápice, a resposta recebida é deste tipo: já vi, mas sabe como são os jornais, põem lá o que querem. E, de facto, como que por acaso, eis que, afinal, o tal casal de russos que recebia ucranianos em Setúbal viu o seu inquérito arquivado. Ele era o tal que teria acesso ao Kremlin. Foram dias, talvez semanas, a badalar ao lado de… nada. Gerou-se a notícia, propalou-se a mesma em profusão, mas logo tudo deu em nada.

De seguida, a ideia, expendida por Trump, de que os políticos roubam. Perante isto, interrogo-me: será que Manuel Carvalho acredita que nada teve lugar com Juan Carlos; ou com o Príncipe André; ou com Sarkozy; ou com os mil e um casos que, diariamente, chegam ao conhecimento público? E já agora: e o caso, tão bem explicado em OS MANDANTES DO ATENTADO DE CAMARATE, de Alexandre Patrício Gouveia? E o crime de alta traição em que esteve envolvida a equipa de candidatura de Reagan, ao redor dos prisioneiros norte-americanos em Teerão? E a vitória de Kennedy sobre Nixon? E a de Bush sobre Al Gore? E a verdadeira causa da prisão de Noriega?

Por fim, a ideia, aparentemente defendida por Trump, de que os juízes são corrompidos. Bom, há um dado que é certo: nos Estados Unidos os juízes federais são nomeados pelo Presidente, sendo já hoje evidente a dependência ideológica das suas decisões em face de quem operou a escolha. Não se tratando de corrupção, no sentido usual e estrito do termo, a verdade é que se trata de uma corrupção funcional das instituições. E nenhum americano duvida hoje de uma tal realidade.

Quando Manuel Carvalho escreveu que estas ideias de Donald Trump levaram aonde a América está hoje, colocou o problema ao contrário: foi o apodrecimento global da sociedade norte-americana – já se fala em nova guerra civil…– que permitiu o surgimento vitorioso da candidatura de Donald Trump. E, se nada surgir de inesperado – ou irá surgir…? –, ele bem poderá voltar dentro de uns dois anitos.

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