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O mais antigo genoma humano moderno

Foi o ADN Neanderthal que levou a equipa às suas principais conclusões sobre a idade do fóssil. Zlatý kůň continha aproximadamente a mesma quantidade de ADN Neanderthal no seu genoma, como Ust Ishim ou outros humanos modernos fora de África, mas os segmentos com ascendência Neanderthal eram, em média, muito mais longos.

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António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou…

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A análise do ADN antigo dos Neandertais e dos primeiros seres humanos modernos demonstrou, recentemente, que os grupos provavelmente se entrecruzaram algures no Próximo Oriente, depois dos seres humanos modernos terem deixado África há cerca de 50 mil anos. Como resultado, todas as pessoas fora de África transportam cerca de 2% a 3% de ADN Neanderthal. Nos genomas humanos modernos, esses segmentos de ADN Neanderthal tornaram-se cada vez mais curtos ao longo do tempo e a sua duração pode ser usada para estimar quando um indivíduo viveu. Dados arqueológicos, publicados no ano passado, sugerem ainda que os humanos modernos já estavam presentes no sudeste da Europa há 47-43 mil anos atrás, mas devido à escassez de fósseis humanos bastante completos, e à falta de DNA genómico, há pouca compreensão de quem foram estes primeiros colonos humanos – ou das suas relações com grupos humanos antigos e actuais.

Num novo estudo publicado há dias na revista Nature Ecology & Evolution, uma equipa internacional de investigadores relata o que é provavelmente o mais antigo genoma humano moderno sequenciado até hoje. Descoberta pela primeira vez na República Checa, a mulher da espécie Homo sapiens, conhecida pelos investigadores como Zlatý kůň (cavalo dourado em checo), exibia extensões mais longas de ADN Neandertal do que o indivíduo Ust’-Ishim de 45 mil anos de idade encontrado na Sibéria, que era o mais antigo genoma humano moderno até há pouco conhecido. A análise genética sugere que ela, Zlatý kůň, fazia parte de uma população que se formou antes das populações que deram origem à divisão entre europeus e asiáticos dos dias de hoje.

Um estudo antropológico recente baseado na forma do crânio de Zlatý kůň mostrou semelhanças com pessoas que viviam na Europa antes do Último Máximo Glacial – pelo menos há 30 mil anos – mas a datação por radiocarbono tinha produzido resultados contraditórios, alguns indicando que o crânio teria só 15 mil anos. Só quando Jaroslav Brůžek da Faculdade de Ciências de Praga e Petr Velemínský do Museu Nacional de Praga colaboraram com os laboratórios de genética do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, é que foi possível esclarecer as contradições entre os vários tipos de datação. “Encontrámos provas de contaminação de ADN de vaca no osso analisado, o que sugere que uma cola à base de matéria proveniente dos bovinos utilizada no passado para consolidar o crânio estava a produzir datas radiocarbónicas mais recentes do que a verdadeira idade do fóssil”, diz Cosimo Posth, co-líder autor do estudo, num comunicado do Instituto Max Planck. Posth foi anteriormente líder do grupo de investigação do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana e é actualmente Professor de Arqueo e Paleogénese na Universidade de Tübingen, na Alemanha.

Contudo, foi o ADN Neanderthal que levou a equipa às suas principais conclusões sobre a idade do fóssil. Zlatý kůň continha aproximadamente a mesma quantidade de ADN Neanderthal no seu genoma, como Ust Ishim ou outros humanos modernos fora de África, mas os segmentos com ascendência Neanderthal eram, em média, muito mais longos.
“Os resultados da nossa análise de ADN mostram que a Zlatý kůň viveu mais perto no tempo do evento de mistura com os Neandertais”, explica Kay Prüfer, co-autor do estudo, no comunicado já citado.

Os cientistas conseguiram estimar que a Zlatý kůň viveu aproximadamente 2 mil anos após o cruzamento com neandertais dos seus antepassados. Com base nestas descobertas, a equipa argumenta que Zlatý kůň representa o genoma humano mais antigo sequenciado até hoje.

“É bastante intrigante que os primeiros humanos modernos na Europa não tenham tido sucesso! Tal como com Ust’-Ishim e o crânio europeu até agora mais antigo do Oase 1, Zlatý kůň não mostra qualquer continuidade genética com os humanos modernos que viveram na Europa há 40 mil anos”, comenta Johannes Krause, autor principal do estudo e director do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva.

Uma explicação possível para a descontinuidade é a erupção vulcânica Ignimbrite Campaniana ocorrida há cerca de 39 mil anos, que afectou gravemente o clima no hemisfério norte e pode ter reduzido as hipóteses de sobrevivência dos Neandertais e dos primeiros seres humanos modernos em grandes partes da Europa da Idade do Gelo.

À medida que os avanços na sequenciação de DNA humano antigo revelam mais sobre a história da nossa espécie, os futuros estudos genéticos de outros indivíduos europeus primitivos ajudarão a reconstruir a história e o declínio dos primeiros humanos modernos a expandir-se para fora de África e para a Eurásia antes da formação das populações não africanas dos tempos modernos.

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Fonte desta notícia: Projecto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa

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