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“O lugar da mulher é onde ela quiser” – pela milésima vez, pelas nossas filhas e pela paz

A resposta está mesmo ali, na teimosa e inquieta subconsciência humana que ao longo dos séculos foi cultivada pelas ideologias, tradições passadas de geração em geração e regada pelo testemunho de inúmeras mulheres que se têm submetido à noção de que na vida tem a obrigação de desempenhar um certo papel, o papel de mulher.

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Anna Kosmider Leal

Antropóloga e linguista, fundadora da plataforma de ensino de…

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Na “Declaração das Responsabilidades Humanas Para a Paz e o Desenvolvimento Sustentável”, realizada pela Universidade da Paz das Nações Unidas na Costa Rica (1989), pode ler-se no artigo 4: “Todos os seres humanos são partes inseparáveis da família humana e dependem uns dos outros para sua existência, seu bem-estar e desenvolvimento. Cada ser humano é uma expressão e manifestação singular da vida, e tem uma contribuição individual a dar para a vida na Terra. Cada ser humano tem direitos e liberdades inalienáveis e fundamentais, sem distinção de raça, cor, sexo, língua, religião, política ou outra opinião, origem social e nacional, status económico e outras situações sociais.

Ainda na mesma declaração, mas no artigo 9: “Por meio da paz orientada e consciente, os indivíduos entenderão a natureza das condições necessárias ao seu bem-estar e desenvolvimento”. Verificamos assim, o enfoque na importância da paz enquanto alicerce estrutural de uma sociedade promotora de um desenvolvimento sustentável e harmonioso.

Também Kofi Anan, por ocasião do lançamento do Ano Internacional da Cultura da Paz em 2000, refere que o verdadeiro conceito de paz vai muito além da ausência de guerra. Implica obrigatoriamente desenvolvimento económico e justiça social e conceitos como democracia, dignidade, diversidade e respeito, apenas citando alguns.

O lema “o lugar da mulher é onde ela quiser” já foi utilizado muitas vezes, nas redes sociais, em inúmeras campanhas, programas e ações humanitárias tanto em Portugal como fora do país. O porquê de tocar novamente neste assunto tão cliché? – estará a perguntar o lado escondido da nossa consciência. Vamos lá então responder ao invisível curioso.

A resposta está mesmo ali, na teimosa e inquieta subconsciência humana que ao longo dos séculos foi cultivada pelas ideologias, tradições passadas de geração em geração e regada pelo testemunho de inúmeras mulheres que se têm submetido à noção de que na vida tem a obrigação de desempenhar um certo papel, o papel de mulher. Mulher que é o sexo fraco, fada do lar, reprodutora, cuidadora dos filhos, e acima de tudo submissa ao homem.

Parece ultrapassado? Assim de repente talvez possamos ter essa impressão, mas porque não olhar mais de perto? Que tal entrarmos no mundo da política, que é associado com a alta nobreza e cargos de respeito. No entanto, ainda recentemente não passou despercebido que a presidente da Comissão Europeia Ursula Von Der Leyen foi humilhada e ignorada publicamente pelo presidente turco Erdogan e pelo representante do Conselho Europeu, Charles Michel. Se um caso destes tem lugar no mundo contemporâneo, onde o conhecimento atingiu o nível mais elevado de todos os tempos, e num contexto cultural aparentemente mais favorável, até cria pavor imaginar o que acontece na reflexão do espelho social. Do outro lado deste espelho vivem milhares de mulheres que estão a ser privadas de liberdade, paz e segurança que, queiramos ou não, fazem parte dos primeiros direitos humanos. Indo mais além, aos cantos mais distantes da nossa realidade, existem mulheres de outras crenças religiosas e culturais que estão a ser constantemente comparadas com o padrão estabelecido, muito longe das suas identidades. A sua segurança e o sentimento da pertença escondem-se nas burcas, nas escolhas de vida e nos hábitos que não podem ser percebidos pelos outros. As mulheres muçulmanas, africanas, europeias e todas as outras, precisam apenas de sentir que a vida é delas, que têm o direito à escolha, têm liberdade e igualdade de direitos, relativamente a qualquer aspeto da sua vida, seja a condução de uma viatura, as tarefas domésticas ou a igualdade no mercado de trabalho e rendimento salarial.

Para conseguirmos chegar à nossa consciência precisamos perceber a raiz do problema. É necessário combater os espíritos das ideologias passadas, e urgente entender que a igualdade dos direitos da mulher é uma política de todos e, fundamentalmente, que o feminismo não é uma luta de mulher contra homem, é uma luta contra a exclusão e a favor da igualdade, do equilíbrio social e finalmente da paz.

Ser ‘feminista’ no sentido autêntico do termo é desejar para todos, mulheres e homens, a libertação de padrões de papéis sexistas, dominação e opressão.” Bell Hooks fez essa declaração clara e poderosa no seu estudo de 1981 sobre sexismo, racismo e movimentos feministas. Quase 40 anos depois, o mundo ainda conta com uma desigualdade de género generalizada e indesculpável, sustentada por preconceitos e sexismo. A pesquisa e a saúde não são exceção” (The Lancet, 2019: Editorial p.493)

The Lancet (2019) afirma-se que: “A equidade de género não é apenas uma questão de justiça e direitos, é crucial para produzir as melhores pesquisas e fornecer os melhores cuidados aos pacientes. Se os campos da ciência, medicina e saúde global têm a esperança de trabalhar no sentido de melhorar as vidas humanas, eles devem ser representativos das sociedades que servem. A luta pela igualdade de gênero é responsabilidade de todos, e isso significa que o feminismo também é para todos – para homens e mulheres, pesquisadores, médicos, financiadores, líderes institucionais e, sim, até mesmo para revistas médicas. “

Pela mãe, irmã, esposa, filha e pelas futuras mulheres – pela vida, a perceção do papel da mulher, hoje em dia torna-se quase obrigatório para conseguirmos um nível mais elevado da existência humana que na tradução cultural tem um nome – PAZ.

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Fonte desta notícia: Projecto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa

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