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O livre direito à asneira

Certamente por um acaso, não lhe ocorreu propor, por exemplo, Maria de Fátima Bonifácio, ou Henrique Neto.

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Há já umas boas décadas, almoçando com uma ninhada de grandes amigos, deles escutei o espanto por ter eu adquirido a obra de Rui Mateus, ao que respondi: se quero estar informado, tenho de ler o que sai sobre a temática política. Claro está que o referido espanto não passava de mera peça teatral, porque quase todos deveriam ter já adquirido a obra.

Também hoje tenho de acompanhar, tanto quanto possível e conveniente, o que se vai passando nos nossos canais televisivos. Deste modo, lá tive ontem de visionar, agora já com algum sorriso na face, o diálogo engraçado entre Eduardo Marçal Grilo e Luís Nobre Guedes, na RTP 3. Um diálogo de conteúdo quase nulo, ou mesmo distorcido, mas que tenho de visionar, porque tal é o meio de que disponho para poder escrever, por exemplo, este meu texto.

De tudo o que de pouca ou nenhuma utilidade ali foi dito, houve uma saída deveras engraçada, que nos surgiu pela voz de Luís Nobre Guedes. Nunca pondo em causa a qualidade e a independência de Pedro Adão e Silva, Luís deitou-se a imaginar que talvez tivesse sido preferível que o PS tivesse trabalhado com o PSD sobre um nome consensual para o cargo que irá ser o de Pedro Adão e Silva. Ora, qual foi, então, a ideia que ocorreu a Luís Nobre Guedes? Pois, nem mais, nem menos, esta: António Barreto!!!

Certamente por um acaso, não lhe ocorreu propor, por exemplo, Maria de Fátima Bonifácio, ou Henrique Neto. Bom, fartei-me de rir – foi mesmo assim, chegando até a engasgar-me e a tossir, o que terá sido escutado pelos vizinhos do lado, de cima e de baixo –, porque é preciso um de dois ingredientes para ali, em público, defender uma tal inenarrável ideia: ou uma terrível desfaçatez, ou a incapacidade para perceber que se o consenso era a regra, Barreto era uma cabalíssima impossibilidade, dado ser hoje um homem claramente da Direita, que nunca mereceria o apoio do PS. Aliás, terá mesmo, ao longo da sua vida, atravessado quase todos os quadrantes, em geral irmanados – um acaso, claro está – com a dominante do tempo.

Claro está que a razão desta luta reside em dois fatores. Por um lado, Pedro Adão e Silva é comentador de futebol, sendo benfiquista. Por outro lado, a enorme maioria dos que se atiraram a esta escolha desejariam que a Revolução de 25 de Abril não fosse comemorada, ao nível do seu primeiro meio século, com um tão grande alcance e com uma tão ampla abrangência e marca pública. Esquecê-la, para esta rapaziada, seria o melhor…

Mas se o problema é de consenso, eu acho que a escolha de Eanes também não devia ter tido lugar, porque ele é alguém já assumidamente da Direita, porque acabou por dar cobertura ao PRD, e porque seria natural escolher alguém bem mais abrangente, como, por exemplo, um capitão de Abril – Vasco Lourenço, ou Garcia dos Santos –, ou um académico, por acaso comunista, como um historiador do maior prestígio, que até tenha passado pela prisão e por muitos anos, como se dá com António Borges Coelho.

Escolher Eanes, para mais com tal escolha feita por alguém da Direita, como se dá com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, é, para mim, uma escolha enviesada. Não suscita reações, como suscitaria, por exemplo, a escolha de Cavaco, mas fica a anos-luz da qualidade e do simbolismo de alguém como António Borges Coelho. Eanes não é a mesma coisa que o falecido Eduardo Lourenço, ou como António Borges Coelho, ainda na nossa companhia.

Àquela saída inenarrável de Luís Nobre Guedes aplica-se, sem ruído, uma histórica saída de Adelino Amaro da Costa em certa entrevista: o direito à asneira é livre.

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