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O Governo de Unidade Nacional

Esta ideia de um Governo de salvação nacional tem a sua lógica, e que é esta: se o PS cair, será, então, o seu fim. Até porque, pondo de parte tudo o que fossem valores políticos ideológicos, lá se iria o Estado Social, e com ele o Serviço Nacional de Saúde, a Educação Pública

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De um modo verdadeiramente pendular, acompanho, semanalmente, o diálogo que junta Eduardo Marçal Grilo e Luís Nobre Guedes. É um programa agradável, mas que, usando uma linguagem popular, não aquece nem arrefece. Uma realidade extremamente objetiva, que fica a dever-se à quase completa sintonia de pontos de vista entre os dois convidados do programa.

Ora, a edição do i desta terça-feira salienta, logo na sua capa, que Marçal Grilo defende um Governo de unidade nacional. Tendo tomado conhecimento deste dado logo ao início da madrugada, acompanhando a exposição das primeiras páginas na SIC Notícias, de imediato me determinei a adquirir esta edição do i, a fim de conhecer, com pormenor, o que ali se continha sobre o título surgido na capa. Ao contrário do que imaginei, não se tratava de uma entrevista a Eduardo Marçal Grilo, antes de uma peça em que também surgem declarações de Luís Nobre Guedes. A uma primeira vista, pois, uma espécie de texto ao redor do tema em causa – Governo de unidade nacional –, que bem poderia compor-se a partir do que os dois têm dito no seu programa semanal, uma vez que as diferenças ideológicas são ínfimas entre os dois residentes do programa.

O conteúdo do texto do i é ínfimo e resume-se a isto: é essencial pôr-se em funcionamento um Governo de unidade nacional, que deveria congregar a colaboração do PS, PSD, CDS e IL, onde não estivessem presentes condicionalismos ideológicos e sem a ideia de se ser da Esquerda ou da Direita. Enfim, falar por falar. Um pouco à portuguesa: uma baralhada, como tudo ao molho e fé em Deus.

Marçal Grilo, já por diversas vezes, referiu o caso inglês da Segunda Guerra Mundial, com o Governo lide-rado por Churchill, que também se determinou a criar um tal tipo de governação, incluindo nesta os traba-lhistas. Simplesmente, eu tenho muitas obras sobre esse tempo, uma delas até do próprio Churchill, e ne-nhuma trata esse tema como uma singularidade de relevo. Ou simplesmente não é referida a mesma, ou a obra de Churchill refere-se-lhe em bem menos de uma página.

Acontece que Eduardo Marçal Grilo não consegue citar mais um só caso deste tipo, passado numa demo-cracia de tipo ocidental. E também não refere que a iniciativa de Churchill se ficou a dever ao receio de um possível triunfo da adesão de gente inglesa com poder ao nacional-socialismo. O que é certo é que este caso é único. E é lógico, numa democracia liberal, que as coisas funcionem sem este tipo de governações do tipo União Nacional, mas que só o seria de um modo fictício.

Com graça, reparei, logo no texto que sucede ao título e antecede o texto global, que Eduardo é “Ex-ministro da Educação Socialista”, sendo que Eduardo Marçal Grilo não é um socialista, apenas esteve filiado no PS ao tempo da liderança de Guterres, saindo mal este Governo teve o seu fim nos termos que se conhecem. Eduardo, tal como Guterres, segue com grande assertividade o magistério da Igreja Católica, são naturais da mesma região do País, passaram ambos pelo Técnico e também pela Fundação Calouste Gulbenkian. De resto, tenho para mim que nem Guterres é um socialista, tal como o não é Vítor Constâncio. Com maior ou menor duração, passaram pelo PS. Hoje, porém, vivem a anos-luz de tal ambiente político. Ora, para os mais atentos, isto é facilmente percetível, desde que acompanhem o programa em causa na RTP 3.

Mas vamos, então, à essência desta ideia peregrina. Para tal, convém que o leitor saiba de uma entrevista de Adelino Amaro da Costa a certo jornal, em que este respondeu sobre a rotura do CDS com o segundo Governo de Mário Soares: juntámo-nos a eles para os destruir. E também convém recordar o excelente Governo do Bloco Central – sempre apontado como de mútua lealdade e colaboração autêntica por Mário Soares, Mota Pinto e Rui Machete –, mas que veio a ser deitado por terra por Cavaco Silva, mal assumiu a liderança do PSD. O resultado foi o esperado: subiu Cavaco e o PSD, quase sucumbiu o PS. E tudo isto nas barbas de Eanes, que ainda ajudou a patrocinar o PRD, claramente destinado a pôr um fim no PS. Por um acaso, Eanes era também da mesma região de Guterres e de Eduardo. E também um católico muito assumido, que até se doutorou na… Universidade de Navarra.

Perante toda esta realidade, percebe-se facilmente aonde se chagaria com um Governo, dito de salvação nacional – é o momento da gargalhada –, formado por PS, PSD, CDS e IL: nas próximas eleições para deputados à Assembleia da República, daqui a três anos, facilmente o PS seria apontado como o cau-sador do que de pior tivesse caído sobre a enorme parte dos portugueses, com PSD, CDS, IL – e o apoio, no mínimo, do Chega! – a apresentarem-se coligados a eleições e contra um PS em estado de garantida irreversibilidade política na vida nacional. Seria, como qualquer um percebe, o fim político do PS.

Esta ideia de um Governo de salvação nacional tem a sua lógica, e que é esta: se o PS cair, será, então, o seu fim. Até porque, pondo de parte tudo o que fossem valores políticos ideológicos, lá se iria o Estado Social, e com ele o Serviço Nacional de Saúde, a Educação Pública, acessível a quem queira estudar, e a Segurança Social Pública. Seria, como facilmente se percebe, o fim histórico-político do PS.

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