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O cancro do ocidente

Estes acontecimentos recentes mostraram, no mínimo, duas coisas. Por um lado, o intrínseco cinismo de Joe Biden em matéria de Direitos Humanos e o modo como aceita o direito de Israel se defender, mas não o dever de cumprir as determinações da Comunidade Internacional desde 1948.

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Há muito que deixei de mostrar interesse pelas relações entre Israel e os palestinianos. E como não deveria proceder deste modo, se tive a oportunidade de acompanhar toda a campanha eleitoral de António Guterres na corrida a Secretário-Geral das Nações Unidas sem que tenha feito uma só referência ao conflito inerente a estes protagonistas, mormente ancorando-se na lei internacional? De facto, depois de acompanhar tal périplo eletivo, restava-me apenas dizer, e para mim mesmo: mais palavras para quê?!

De parceria com este acontecimento, eu tinha já a minha própria experiência de vida, hoje já com perto de 74 anos, e depois ter escutado do comentador Marcelo Rebelo de Sousa, em certo domingo, perorando com Judite de Sousa ao redor do homicídio do histórico líder líbio, que desde o seu segundo ano de Direito que aprendera que o Direito Internacional Público era o dos mais fortes e dos vencedores. Precisamente o que se pôde ver com os julgamentos de Nuremberga, mormente ao redor do que se passou com o grande-almirante Karl Dönitz.

Este cabal desinteresse internacional pela sorte dos palestinianos às mãos do Governo de Israel deixou de ser falado, pelo que Israel foi campeando, mais rapidamente depois da chegada de Donald Trump à casa Branca. E já não custa perceber que a balela doutrinária dos dois Estados, ambos com capital em Jerusalém, não passa de um seguro de ação para Israel, que vai ocupando novos territórios aos palestinianos, construindo novos colonatos, e agora a construir um regime político de realíssimo apartheid, considerando com direitos inferiores os israelitas de origem árabe. E tudo sem o menor ato reflexo do Ocidente, desde os Estados Unidos aos que lhes obedecem incondicionalmente desde 1945.

Estes acontecimentos recentes mostraram, no mínimo, duas coisas. Por um lado, o intrínseco cinismo de Joe Biden em matéria de Direitos Humanos e o modo como aceita o direito de Israel se defender, mas não o dever de cumprir as determinações da Comunidade Internacional desde 1948. Por outro lado, o cabalmente inútil papel da União Europeia, já tão bem ilustrado por Borrell, mas agora, também, com as confrangedoras palavras de António Costa, na liderança semestral da União Europeia. Simplesmente confrangedor! Uma imagem sobre que tudo farei para esquecer…

As intervenções dos políticos norte-americanos permitiram perceber como, neste domínio dos mil e um abusos de Israel sobre o povo da Palestina, os políticos norte-americanos têm um só pensamento: há que manter Israel e a qualquer preço. Mas se aos republicanos se pode apontar a brutalidade, nos democratas a marca de água é o cinismo e a duplicidade. E as coisas, desta vez, atingiram um tal grau, que até Erdogan conseguiu ter razão: Biden tem as suas mãos cheias de sangue dos palestinianos. Com plena propriedade, bem poderia ter juntado vietnamitas e sul-americanos, recordando as palavras do líder supremo do Irão: levaram a guerra, morte, a miséria e a exploração a todo o mundo.

Em contrapartida, depois de 1945, a Europa tornou-se numa espécie de grande Estado dos Estados Unidos: deixaram de existir políticas europeias, apenas a política da OTAN, comandada pelos Estados Unidos, e onde apenas políticos fortemente patriotas, indiscutivelmente honestos, não necessariamente democratas, conseguiram manter a cabeça levantada, desprezando, tanto quanto era humana e politicamente possível, a bestialidade ou o cinismo dos políticos norte-americanos. Infelizmente, uma realidade que continua viva, como agora se voltou a ver com a retoma das ações de Israel contra palestinianos.

Por tudo isto, e perante o marasmo silencioso do Ocidente europeu, foi com um indisfarçável agrado que ontem escutei, no Jornal 2 da RTP, pelas 21.30, a curta entrevista concedida pela nossa concidadã ilustre, Alexandra Lucas Coelho. E o mais relevante – tudo teve o maior interesse – foi aquela sua constatação de que, não só não se está perante um conflito, como o mundo tem hoje medo de Israel. Vejamos, então, a minha interpretação.
Em primeiro lugar, embora nunca se diga, está-se aqui perante acontecimentos que têm na sua génese a temática religiosa, à luz de um dueto claramente incompatível.

Em segundo lugar, Israel dispõe hoje, inequivocamente, de um controlo sobre o Ocidente. Um controlo sobre a Alemanha por via do Holocausto; um outro sobre a França, porque esta foi a nação fraca e colaboracionista com o nazismo; também sobre a Igreja Católica pela sua contemporização com o nazismo, ajudando, maciçamente, na fuga de criminosos nazis por fantásticas maquias obtidas das vítimas judias, ciganas e outras; da Áustria, pelas suas ligações ao III Reich; da Polónia, por via da sua completa luta contra o Islão e os islamitas; e de vários outros Estados da Comunidade Internacional. Quem sabe se também ainda com o franco apoio da África do Sul?

O mecanismo dos Descobrimentos, que também comporta uma ampla parte do justo orgulho ocidental, mormente para o caso de Portugal, acabou por gerar o surgimento de uma bactéria que se foi propagando por todos os lugares aonde chegaram os europeus. O resultado acabou por se saldar no surgimento do racismo, da discriminação racial, na exploração de riquezas e povos, conduzindo ao resultado hoje conhecido. Realidades que continuam presentes, agora com o problema da distribuição universal das vacinas contra a COVID-19.

A dado passo, os políticos ocidentais perceberam que o melhor seria abandonar os povos que haviam ocupado, o que se fez em nome de um suporto Direito à Autodeterminação e à Independência. Um mecanismo que recebeu uma pressão forte dos Estados Unidos, desejosos de retirar as fontes de riqueza das mãos do empresariado europeu. Sem riquezas – mormente combustíveis –, militarmente fracos e dependentes dos norte-americanos, os europeus ficaram reduzidos à ocupação dos seus territórios continentais. Além do mais, haviam também perdido uma enorme maioria dos grandes cientistas fugidos ao nazismo, que logo se transportaram para os Estados Unidos.

Todavia, mau grado a desatenção geral, por detrás de tudo isto, e para lá das riquezas sempre sonhadas, estão as doutrinas religiosas, fruto da sua dependência humana natural, mas também porque, por essa via, se conseguem fatores de unidade que vão para lá do circunstancialismo político meramente material. E esta realidade esteve sempre muito presente na região que é hoje o Estado de Israel. Em essência, estes mais recentes acontecimentos, como os anteriores, relevam sempre de lutas de hegemonia religiosa. E é por esta razão que o Ocidente reage como se vai vendo: trata o problema como um conflito entre partes políticas, dá sempre razão a Israel, e tenta acalmar os palestinianos, ou outros, na base de inúteis diálogos, ou mesmo fechando os olhos à maciça corrupção que se desenvolve no seio dos dirigentes palestinianos. Ao mesmo tempo, aponta o dedo a supostos crimes de políticos inconvenientes, mas não a Benjamin Netanyahu…

Hoje, é fácil perceber o futuro: continuará a tomada de territórios aos palestinianos, bem como as suas propriedades, com estes a demandarem o Egito e outros Estados, ao mesmo tempo que Israel avança para a situação de um só Estado, com a Comunidade Internacional a fingir-se desatenta. De modo concomitante, altera-se a legislação interna de Israel, perdendo direitos essenciais os israelitas de origem árabe, o que acabará, também, por atirá-los para uma diáspora a prazo médio.

Bem ou mal – creio que bem –, retiro de tudo o que escrevi antes que Samuel Huntington sempre teve toda a razão no que nos forneceu. Simplesmente, teria sempre de recusar-se a evidência do que nos revelou, pretendendo acreditar que talvez as coisas não seguissem à luz dessa regra. No fundo, mais uma manifestação da grande tragicomédia que é a vida que conhecemos. A de hoje e a que lemos nos livros sobre a História do Mundo.

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