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Nascidos na Violência

A questão dita de Taiwan constitui, indiscutivelmente, um resultado derivado da Guerra Fria, infelizmente mal resolvido no plano político-diplomático por parte da República Popular da China, ainda antes da mudança que conduziu este país ao estado atual, com o Partido Comunista a liderar o Estado e o Pais, mas aplicando as regras capitalistas, derivadas da respetiva vitória após o fim do comunismo soviético.

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Tendo completado ontem o meu 75º aniversário, por acaso marcado por um pequeno inferno que bem pode surgir em qualquer família – até falecer, não esquecerei o dia de ontem –, acompanhei, muito tangencialmente, a visita de Nancy Pelosi a Taiwan, recordando sempre aquelas palavras brutais, até muito grosseiras, de Donald Trump, designando-a, em dado comício seu, já perto da eleição que permitiu a Joe Biden chegar à Casa Branca, como a maluca da Nancy Pelosi. Um outro dado que também nunca esquecerei.

A questão dita de Taiwan constitui, indiscutivelmente, um resultado derivado da Guerra Fria, infelizmente mal resolvido no plano político-diplomático por parte da República Popular da China, ainda antes da mudança que conduziu este país ao estado atual, com o Partido Comunista a liderar o Estado e o Pais, mas aplicando as regras capitalistas, derivadas da respetiva vitória após o fim do comunismo soviético.

Até à fuga dos dirigentes do Partido Nacionalista para a Formosa, como era então conhecida Taiwan, o território nacional chinês era constituído pela parte continental e por aquela grande ilha que é hoje Taiwan. Ou seja: Taiwan foi sempre aceite como território chinês. Naturalmente, esta situação continuou a ser defendida por parte do Governo da República Popular da China. Foi esta realidade que determinou que Taiwan quase não tivesse tido Estados que a considerassem de um outro modo.

A Formosa, pois, só pôde manter-se por duas ordens de razões. Por um lado, porque a República Popular da China não dispunha dos meios militares essenciais a uma imposição do seu poder legítimo na ilha. E, por outro lado, porque os Estados Unidos, sempre nas patéticas aflitinhas com o dito perigo comunista – Hollywood ofereceu ao mundo o histórico filme Vêm aí os russos, por onde se pôde ver, como charada, a autêntica tara norte-americana ao redor do tal dito perigo comunista –, se determinaram a defender deste dito perigo os políticos que se haviam refugiado na Formosa, hoje Taiwan.

Muitos anos depois, George Bush – o pai, portanto – veio a ser embaixador em Pequim, tendo percebido o fantástico baluarte de riqueza, a todos os níveis, que ali se posicionava. Daqui resultou, pois, para mais à luz da luta contra a hipótese de uma unidade político-estratégica entre a União Soviética e a República Popular da China, a abertura dos Estados Unidos à China, ao tempo de Richard Nixon e Kissinger no poder norte-americano. Depois, foi o que acabou por poder ser visto, sendo aqui útil ler, desde que possível, a obra de Gordon Thomas, Sementes de Fogo, um verdadeiro diário dos acontecimentos da Praça Tianamem, que permite perceber a luta titânica de George Bush, já Presidente dos Estados Unidos, no sentido de que os grandes meios de comunicação social dos Estados Unidos esvaziassem o que estava a passar-se em Pequim, porque mudanças para as mãos de estudantes era o que em nada convinha aos Estados Unidos…

Aconteceu, todavia, o inesperado em política: a República Popular da China, sem os escolhos autodestrutivos das designadas democracias, conseguiu um desenvolvimento deveras notável, mesmo singular – convém ter presente que já se fala, no presente momento, numa possível guerra civil nos Estados Unidos. Se nestes se constata o estigma do divisionismo, bem como a violência em que nasceu a sociedade norte-americana, na República Popular da China o que se observa é o seu impar desenvolvimento, bem como a sua presença em lugares do mundo os mais diversos. Bom, como teria de dar-se, os Estados Unidos entraram em pânico.

Os acontecimentos destes dias, no leste europeu e ao redor da China, vieram mostrar esta coisa simples e que Sergei Lavrov tão bem caraterizou ontem: os Estados Unidos seguem a sua velha tradição, que é a do quero, posso e mando. Precisamente o que expus a um velho amigo meu, que faleceu precocemente, vítima de um sarcoma: no dia em que os Estados Unidos perceberem que vão ser ultrapassados por um outro Estado, mesmo que ocidental – recordar, por exemplo, a Crise do Suez –, de pronto partirão para uma guerra a ser por si criada, depois se vindo a ver o resultado. Infelizmente, o meu amigo faleceu cedo, já não podendo assistir ao que hoje se está a passar, na Europa e no Pacífico, precisamente por via do desespero norte-americano em face de estar a ser refreada a sua grande estratégia de dominação do mundo. Uma realidade que se desenvolveu muito rapidamente depois do fim do comunismo soviético.

A constante referência aos Direitos Humanos e à democracia só deriva de saberem os políticos norte-americanos que existe, deste pelo menos 1945, uma fortíssima dependência, política, científica, comunicacional, etc., da generalidade dos Estados europeus, e das suas antigas colónias, na Ásia e no subcontinente americano. A verdade é que a separação de poderes não está presente nos Estados Unidos, como não está o direito universal ao voto. Para já não referir a possibilidade legal de poderem os poderes estaduais mudar as secções de voto em função dos resultados potenciais. E também está presente o direito legal a práticas de tortura, como se mantém, legalmente, desde que George W. Bush chegou ao poder. Foi com a CIA e com o FBI que alguns dos históricos da antiga PIDE aprenderam a torturar sem deixar vestígios. Um Estado de Direito Democrático, portanto… Os políticos norte-americanos sabem muitíssimo bem, mormente por via da experiência, que a facilidade de se corromperem políticos nas democracias partidárias é muito maior que nas ditaduras de base histórico-cultural. John Bolton, muito recentemente, foi até muito claro neste domínio. E a chegada da embaixadora a Itália, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, mostrou o real valor da dita democracia italiana. Tantas décadas depois, a recente visita de Joe Biden à Arábia Saudita mostrou que esta ideia, com a correspondente prática, continua em vigor.

Que Taiwan continua a ser parte do território da República Popular da China, pois, não oferece dúvidas. Mas o que foge a toda a lógica de um miniminho do Direito Internacional é considerar que os Estados Unidos podem intervir num assunto que é, de facto, interno à China de sempre. Seria como aceitar que os norte-americanos pudessem intervir no conflito que opõe a maior parte dos catalães ao Governo de Madrid.

Este estado de coisas mostra, porém, esta outra realidade: hoje, Taiwan está, de facto, colonizada pelos Estados Unidos. Como o estão o Japão e a Coreia do Sul. Os povos destes Estados, por exemplo, não podem decidir, em referendo ou por via dos seus representantes, mudar de posição política: o Japão, por exemplo, nunca poderá pôr um fim nas bases militares dos Estados Unidos no seu País. E quem diz Japão, diz Coreia do Sul, ou mesmo Taiwan. No fundo, trata-se de colónias, embora num sentido amplo, todavia real, dos Estados Unidos. No caso japonês, a realidade monárquica até foi imposta por MacArthur, com o Tribunal de Tóquio a fazer vista grossa à responsabilidade política, e criminal, do Imperador Pirolitho.

A visita de Nancy Pelosi a Taiwan materializou uma marca essencial da política externa de sempre dos Estados Unidos: a sua duplicidade, sempre em nome da democracia e da (falsa) separação de poderes. Objetivamente, a visita mostrou a tal faceta da política norte-americana no mundo e desde sempre: o quero, posso e mando, que Sergei Lavrov ontem, com tanto acerto, referiu. O nascimento da História dos Estados Unidos é o da guerra contra ingleses, franceses, espanhóis, índios e mexicanos. Realidades que se continuaram por todo o mundo ao longo dos anos que já levam de vida. É a sociedade onde estão presentes mais armas no seu seio que cidadãos, a sociedade do racismo que continua vivo, com a polícia transformada num verdadeiro Estado dentro do Estado, deixando as autoridades da nossa II República aparentando uma bondade quase referente. Enfim, parece que estão, internamente, à beira de uma guerra civil.

Por fim, Nancy Pelosi. Pelo que ontem escutei, terá sido uma jovem precoce, por sorte – também soube aproveitá-la – oriunda de uma família da classe alta e política do país. Penso, todavia, que criou de si mesma uma ideia com alguma marca providencial, para mais marcada por uma atitude muito feminista. Tenho para mim, porém, que ela fica, de facto, a uma distância grande de Madeleine Allbright – Madalena Cheia de Brilho, portanto…–, mormente por via da classe pessoal, do seu real saber e de um grau de bom senso que esta última sempre mostrou e tanto falta em Nancy. Por muito que me custe aceitar, é minha ideia que Donald Trump sabia bem o que dizia quando referiu aquela expressou insultuosa.

Quem conseguir manter alguma liberdade de pensamento para lá da fantástica intoxicação que nos vai sendo debitada pela grande comunicação social, facilmente perceberá que os desequilíbrios que estão a surgir no mundo se devem, primeiro que todos, à política ditatorial que os Estados Unidos levam à prática no mundo: é o quero, posso e mando. Uma realidade por que estão a lutar sem tréguas. E nem por um minuto deixarão de recorrer à guerra, com ou sem armas nucleares, se estimarem vir a perdê-la.

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