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Nada de traições

Foi um momento deveras divertido, ao menos para mim, o recentemente passado com as declarações de Augusto Santos Silva, nosso Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, na Assembleia da República, ao expor que recorrer a outras vacinas para lá das contratadas pela União Europeia – e quase sempre falhadas – seria um ato de traição à solidariedade europeia. Bom, sorri, até abertamente, mas com alguma perplexidade, tal foi a rigidez da posição ali assumida por Santos Silva.

Este tema – o da traição e o da vacina Sputnik V – voltou ontem a ser tratado num diálogo, na SIC Notícias, de que participaram Adalberto Campos Fernandes, que foi Ministro da Saúde, e João Ferreira, recente candidato ao Presidente da República e eurodeputado. Foi um debate civilizado, cordial e muitíssimo esclarecedor. E uma das realidades com ele esclarecidas foi a enorme dificuldade em defender uma causa perdida, sobretudo, por se ter utilizado uma linguagem de verdade.

Já poucos duvidarão que qualquer coisa ultrapassa a qualidade da Sputnik V, sendo para mim essa a razão de se ter ali colocado a falta do uso desta vacina no espaço da União Europeia, quando as vacinas contratadas simplesmente falharam o que fora contratado com as autoridades europeias.
O tempo tem vindo a mostrar que certas vacinas ocidentais que não foram garantidas para cidadãos com menos de 65 anos, num ápice, qual manipulação de Luís de Matos, passam logo a poder valer para esse escalão… Em contrapartida, sobre a Sputnik V… nada.

João Ferreira expôs, de um modo seco mas brilhante, o que realmente se passa com as vacinas contratadas pela União Europeia, acabando por levar Adalberto Campos Fernandes a responder com a verdade: é essencial ter em conta que há aqui, neste caso das vacinas, aspetos que se prendem com posições geopolíticas. Ou seja e como há muito pude expor nos meus escritos: o que conta não são as pessoas, mas os interesses geopolíticos, e também a negociata.

Este caso trouxe-me ao pensamento um acontecimento passado com Churchill, durante a Segunda Guerra Mundial. Já com os códigos da Enigma decifrados, o Governo Inglês teve conhecimento de que os alemães se preparavam para atacar certa cidade do país. Conversando com certo oficial superior do Gabinete, Churchill expôs que teria de não se revelar o facto aos responsáveis da referida cidade. Perante isto, o tenente-coronel contrapôs: mas isso é proibido, é um crime! E então, Churchill respondeu: sim, é um crime, mas se informássemos a cidade, todos iriam fugir, o que mostraria aos alemães que já dispomos dos códigos da Enigma. E logo completou: a Coroa está acima das populações. Ou seja, Churchill expôs ali que o Estado é sempre totalitário, porque os seus considerados interesses superiores estão sempre acima das liberdades, direitos e garantias dos cidadãos.

Assim se dá com a União Europeia, bem como com Portugal: primeiro as conveniências geopolíticas, só depois a defesa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Já se havia visto isto mesmo ao tempo da Cimeira dos Açores, onde os nossos órgãos de soberania contemporizaram, com alarido ou silêncio, com a mentira norte-americana sobre as armas de destruição maciça inexistentes. Entre Hans Blix e as Nações Unidas, por um lado, e os Estados Unidos, pelo outro, Portugal optou por estes: eram um aliado e haviam mostrado documentos (falsos), logo foi esse o caminho seguido.

Este caso constitui-se, em boa medida, num isomorfismo do caso das vacinas: somos europeus, existe um acordo com algumas empresas farmacêuticas, os acordos não são cumpridos por estas, mas nós, perante aliados, cumprimos. No entretanto, diversos Estados da União Europeia já se deram conta deste logro, pelo que se determinaram a defender os seus cidadãos, recorrendo às outras vacinas já existentes, incluindo a primeira a ser criada e aprovada em todo o mundo, que foi a Sputnik V.

Perante tudo isto, estou em crer que o Governo Russo cometeu o erro de submeter a Sputnik V à análise por parte a Autoridade Europeia do Medicamento a segurança, a eficácia e a qualidade daquela sua vacina. E a razão é simples, e foi-nos exposta, na noite de ontem, por Adalberto Campos Fernandes: há um problema geopolítico em causa… Ou seja: as pessoas são o que menos conta nesta equação. Até já se noticia, num diário de hoje, que os Estados Unidos de Joe Biden poderão vir a impedir a distribuição, no mundo, das vacinas chinesas. Temos, como se vê, a democracia, percebendo-se que os democratas norte-americanos nos estão a conduzir para a guerra.

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Publicado por
Hélio Bernardo Lopes