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Monitorização das aves rupícolas nos Parques Naturais do Douro Internacional e de Arribes del Duero

Em 2022 o esforço dará prioridade a 7 espécies: cegonha-preta, britango, grifo, abutre-negro, águia de Bonelli, águia-real e falcão-peregrino.

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O ICNF e a Junta de Castilla y Leon retomaram agora as reuniões de trabalho, interrompidas pela pandemia, e celebram 25 anos de parceria.

Em Portugal têm presença regular mais de 30 espécies de aves rupícolas, sendo o Parque Natural do Douro Internacional considerado o seu principal santuário. Espécies, estritamente rupícolas, como águia-real, grifo, britango, falcão-peregrino, gralha-de-bico-vermelho e andorinhão-real, têm densidades de nidificação muito elevadas nos alcantilados fluviais do Douro e afluentes. Os efetivos dessas e doutras espécies assumem números ainda mais relevantes se adicionarmos a área espanhola homóloga, o Parque Natural de Arribes del Duero.

Por serem o grupo faunístico mais emblemático dos dois Parques Naturais, (ainda antes da criação dos Parques, já tinha sido iniciado, em 1995, um programa conjunto de monitorização), e para acompanhar a época de nidificação, os trabalhos de campo terão início em fevereiro, com conclusão prevista para setembro, envolvendo cerca de 30 funcionários, entre técnicos, Vigilantes da Natureza e Agentes Medioambientales.

As prioridades de monitorização da próxima temporada incidem particularmente na Cegonha-preta (Ciconia nigra), britango (Neophron percnopterus), grifo (em 3 setores geográficos delimitados); Águia de bonelli (Aquila fasciata), águia-real (Aquila chrysaeto) e falcão-peregrino (Falcoperegrinus). O Abutre-negro (Aegypius monachus) está incluída no programa, embora não seja rupícola.

Cegonha-preta (Ciconia nigra): em 2021 foram contabilizados 15 casais, dos quais 11 no vale fronteiriço do rio Douro. Em termos demográficos, a situação desta espécie é de estabilidade, mantendo o número de casais, e apresentando uma produtividade média (1,69 crias voadores por casal controlado, em 5 anos), que se enquadra nos valores normais de outros núcleos ibéricos. Nos tempos recentes, não foram conhecidas situações de origem antrópica que possam ter afetado negativamente a espécie. As atividades recreativas e a navegação nas albufeiras contíguas às zonas de nidificação estão reguladas desde 2002 em ambos os Parques Naturais. Foram, contudo, conhecidas situações naturais que provocaram mortalidade de crias e redução da produtividade, ainda que esporádicas como casos de predação por carnívoros, ocupação de ninhos por parte de grifos, e situações de mortalidade nidícola atribuídas a patologias não identificadas.

Águia de Bonelli (Aquila fasciata): em 2021, 14 casais ocuparam território, dos quais 6 no Parque Natural espanhol e 9 nos vales fronteiriços dos rios Douro e Águeda. Esta espécie, que entre 1990 e 2010 apresentou uma marcada regressão, tem vindo a manifestar sinais de recuperação nos últimos anos, com a reinstalação de, pelo menos, 3 casais. Apesar de não serem integralmente conhecidas as causas desta dinâmica populacional (lembremo-nos, por exemplo, que a espécie mais próxima, a Águia-real, apresenta uma tendência de crescimento estável contínuo desde a década de 80 do século passado), afigura-se que a recuperação recente deverá estar associada a um conjunto de medidas de conservação implementadas, notando que a Junta de Castilla y Leon aprovou e concretizou um Plano de ação específico para a Águia de Bonelli. Entre as ações desenvolvidas em ambos os países, destacam-se a implementação de medidas de minimização dos riscos de eletrocussão e de colisão em dezenas de quilómetros de linhas elétricas de média tensão, o aumento da vigilância sobre os ninhos, e o melhoramento da disponibilidade trófica.

Britango (Neophron percnopterus): foram contabilizados 104 casais confirmados e 12 possíveis, o que representa um declínio de cerca de 10 a 15% desde 2016. Em 2020, 71 dos casais recenseados nidificaram nos vales fronteiriços dos rios Douro e Águeda. A causa do declínio da espécie, ainda que ligeiro mas, aparentemente, continuado, com início há cerca de 10 anos, poderá estar relacionado com uma redução da disponibilidade trófica na zona envolvente, uma vez que a atividade pecuária e a paisagem têm sofrido alterações importantes, nomeadamente com o quase desaparecimento da pastorícia de percurso e de outras práticas pecuárias tradicionais. Estas mudanças implicaram uma menor abundância de cadáveres de animais de criação, mas também a perda do típico habitat de alimentação “aberto” com consequente redução de alimento “silvestre”.

Esta problemática tem vindo a ser estudada através do seguimento, iniciado há cerca de 6 anos, de aves adultas e juvenis equipadas com emissores via satélite. Os estudos com esta tecnologia permitem acompanhar a espécie na sua migração para África, onde pode estar parte da causa do declínio da espécie no Douro Internacional. No âmbito do projeto Life Rupis – executado entre 2016 e 2020 – foi detetado um número significativo de aves mortas por veneno (cerca de 50% das causas de morte), ou por eletrocussão/colisão em linhas elétricas (18%). Por outro lado, o programa de alimentação suplementar realizado gerou sinais encorajadores em matéria de aumento da produtividade e taxa de voo da espécie.

Como corolário do aprofundamento do conhecimento sobre avifauna e seus habitats, perspetiva-se o alargamento da Zona de Proteção Especial do Douro Internacional e Vale do Rio Águeda, estabelecendo uma área classificada melhor ajustada aos imperativos ecológicos das aves. Passará assim a integrar a quase globalidade das áreas vitais das populações de espécies rupícolas ameaçadas, parte significativa das áreas de alimentação e nidificação de Águia-caçadeira, e das áreas de nidificação, alimentação e invernada de Milhafre-real. Esta nova configuração equilibrará a relação entre as Zonas de Proteção Especial portuguesa e espanhola, englobando habitats, em diversidade e extensão, suficientes para assegurar a conservação das aves.

O programa de monitorização das aves rupícolas promove uma estreita colaboração transfronteiriça entre as entidades gestoras dos parques naturais do Douro Internacional (ICNF) e do de Arribes del Duero, (Dirección General de Patrimonio Natural y Política Forestal da Junta de Castilla y Leon) dando origem a outras atividades conjuntas em termos de conservação da natureza, por exemplo, ordenamento do território, regulação da navegação nas albufeiras, vigilância, e prevenção/combate de incêndios.

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Fonte desta notícia: ICNF (texto na íntegra)

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