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Mais um momento raro

Invariavelmente, os nossos comentadores não militares seguem um alinhamento já conhecido, e que vai sendo o predominante. Tal alinhamento, objetivamente, é o derivado do interesse e do posicionamento ocidental em face da Rússia – no presente momento –, mas que se desenvolve, de facto, contra tudo o que não seja ocidental e com raízes judaico-cristãs.

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A pobreza do nosso comentário político é de tal modo grande, que escutar a palavra do académico Manuel Loff se constitui num verdadeiro acontecimento raro e de mui elevada qualidade e clareza. Objetiva-mente, fica-se a saber algo de verdadeiro sobre o que fala, mormente quando o faz em torno da atual grande batalha da Ucrânia.

Invariavelmente, os nossos comentadores não militares seguem um alinhamento já conhecido, e que vai sendo o predominante. Tal alinhamento, objetivamente, é o derivado do interesse e do posicionamento ocidental em face da Rússia – no presente momento –, mas que se desenvolve, de facto, contra tudo o que não seja ocidental e com raízes judaico-cristãs.

Pude já salientar, num outro texto com alguns meses, que a esmagadora maioria das instituições do Direito Internacional Público se situa, precisamente, no Ocidente. E também que o mundo de hoje, tal como o conhecemos, é o resultado da expansão dos europeus para a sua restante parte, nomeadamente para o hemisfério sul. Uma expansão que deixou esses territórios distantes completamente subjugados à grande estratégia do Ocidente, acabando, nos dias de hoje, por se situarem com o grau de atraso, de pobreza e de dependência que se conhece.

Ora, as intervenções de Manuel Loff fogem completamente, e para muitíssimo melhor, à vulgaridade do quase nada a que se reduz a generalidade do debitado pela grande maioria dos comentadores que nos surgem nas televisões. São intervenções muito típicas de um historiador isento, que olha a História na base dos factos que se conhecem, porventura com um posicionamento político que é o seu. Simplesmente, ele vai sempre buscar os casos similares já passados com os Estados do Ocidente, mas que são raramente expostos e utilizados adequadamente, sobretudo como base para a explicação de coisas que, no dizer da generalidade, parecem ser singulares e só começadas hoje.

Com frequência quase diária, muitos dos nossos jornalistas, analistas e comentadores esgrimem o Direito Internacional Público como uma estrutura que vem sendo violada pela Rússia, nunca recordando a corajosa e clarificadora intervenção do nosso embaixador Francisco Seixas da Costa no final de certo noticiário da TVI, entrevistado aí por Miguel Sousa Tavares: mas isso foi sempre assim, Miguel, sempre houve uma lei internacional para os Estados Unidos e outra para os restantes Estados. Simplesmente, perante esta mais que reconhecida realidade, lá se continua sempre a falar na mais recente violação do Direito Internacional, mas sem referir que esta violação é a praticada pela Rússia, porque se tudo o que se tem visto fosse praticado pelos Estados Unidos, ou por Israel, nem dez minutos se gastariam com tal acontecimento.

De modo concomitante, ninguém se recorda do desabafo do atual Presidente da República, quando era comentador da TVI, em conversa com Judite de Sousa: desde o meu segundo ano de Direito que aprendi que o Direito Internacional (Público) é o dos mais fortes. E ontem mesmo Diana Soller se determinou a misturar completamente as palavras de Sergei Lavrov, ao redor das violações do tal Direito Internacional Público por parte dos Estados do Ocidente: o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia disse, isso sim, que os que agora criticam a Rússia são os que fizeram coisas similares em tempos. Sergei não disse que tem o direito de fazer porque os outros já fizeram, mas que estes não têm moral para criticar esta ação da Rússia porque fazem o mesmo quando entendem ser justificado. Trata-se, no fundo, das tais duas leis internacionais: uma para os Estados Unidos, outra para os restantes Estados. Por isso também brandem as violências da Rússia sobre prisioneiros, mas raramente abordaram, mesmo que de passagem, os crimes de Guantánamo, ou de Habougraib, ou os praticados nas prisões de Israel sobre detidos palestinianos.

Enfim, no meio do marasmo comunicacional das nossas televisões ao redor da grande batalha da Ucrânia, ter a oportunidade de escutar o pensamento e as análises do académico Manuel Loff constitui-se num tempo de grande qualidade e de real aprendizagem. Um verdadeiro convite à reflexão sobre o que vai pelo mundo.

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