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Liberdade e objetividade

Quando se mostra fé à luz de certa religião, o grau de liberdade sai fortemente condicionado, dado o modo absoluto como se olha para a instituição ligada a essa fé, bem como para com os seus dirigentes.

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No seu interessante blogue, dizia-nos ontem o nosso embaixador Francisco Seixas da Costa que “se fosse católico e seguidor da “santa madre igreja”, estaria seriamente preocupado com a onda de descrédito por que a instituição – por via de ações, omissões, a que se somam escandalosos erros de comunicação dos seus responsáveis – está a passar.” Pois, não concordo. E passo a explicar a razão desta minha discordância.

Há muitas décadas, mal se tomou conhecimento da existência do designado Pacto Germano-Soviético, de pronto boa parte da nossa intelectualidade se determinou a mandar a militância comunista às urtigas. O argumento aduzido foi aquele pacto, mas a realidade era a derivada de tais intelectuais, de facto, não estarem dispostos a se subordinarem à classe operária, e não estarem dispostos a correr o risco de ficar com a sua carreira pelo caminho, acabando por ir passar longos anos na prisão. É claro que existiram exceções, como foi o caso de António Borges Coelho, mas eram apenas isso mesmo, exceções.

Esta posição do nosso embaixador deriva de ser ele um concidadão independente da fé católica, para quem a Igreja Católica Apostólica Romana, sendo uma instituição que lhe merece todo o respeito, em nada o condiciona, conscientemente ou não, na sua liberdade de pensar e de poder opinar. No fundo, o mesmo que se dá comigo.

Acontece que a esmagadora maioria dos portugueses que praticam a religião católica romana se mostra completamente inamovível em face dos mil e um escândalos que varrem a instituição e por todo o mundo. Creio mesmo que raríssimos alguma vez se preocuparam com os milhares de casos noticiados a um ritmo verdadeiramente alucinante. Nalguns casos, existiram mesmo crimes graves e diversos, como o que se passou com o Colégio da Divina Providência, que também envolveu o Governo do Quebeque, bem como a Ordem dos Médicos que ali tinha jurisdição. A verdade é que tudo se saldou em quase nada, depois que o caso assumiu implantação pública.

Quando se mostra fé à luz de certa religião, o grau de liberdade sai fortemente condicionado, dado o modo absoluto como se olha para a instituição ligada a essa fé, bem como para com os seus dirigentes. De resto, coisas absolutamente inenarráveis tiveram lugar nos Estados Unidos, numa célebre seita que acabou por ser tomada pela força e com desagradáveis consequências. A fé, objetivamente, é cega. Quem a possui, tolera quase tudo. E quem dela vive longe, só pode raciocinar à luz da sua situação, desconhecendo o que faria se essa fé estivesse presente. E é por ser esta a realidade, que tudo, como já se percebeu, irá terminar em nada.

Hoje mesmo, Daniel Sampaio negou que a Igreja tenha recebido uma lista com os nomes dos padres abusadores sem ter mais informações sobre os casos denunciados: a lista foi obtida a partir das denúncias de vítimas – a vítima X diz que foi abusada pelo padre Y – e da investigação resultante do Grupo de Investigação Histórica junto dos arquivos, sendo que a que foi entregue resulta da junção destas duas. Contudo, e como tudo faz crer, nada irá acontecer.

A natureza do tema, bem como a estrutura conhecida da Igreja Católica Romana, permitem perceber que, com elevadíssima probabilidade, o que agora se tratou em Portugal é uma realidade típica, constante e muitíssimo abrangente. Cá e por todo o mundo. Tudo está em procurar e em investigar. E foi o que agora se noticia como se tendo passado na Polónia com o então cardeal Karol Wojtyla: uma qualquer investigação revela agora que ele teve conhecimento de atos de pedofilia por parte de padres quando era cardeal de Cracóvia. Uma revelação que nada comporta de estranho, antes de expectável. E quem diz Wojtyla, diz a enormíssima maioria dos hierarcas da instituição. Pela natureza destas coisas, terão acompanhado estas realidades desde muito novos, mas o que imperou foi o silêncio, naturalmente em nome da defesa da imagem institucional.

Por fim, esta evidentíssima e expectável realidade: o modo, quase silencioso, como Luís Marques Mendes e Ana Gomes ontem se referiram ao andamento recente deste caso português. Uma realidade partilhada, à luz das imagens televisivas que nos chegaram, por uma manifestação de umas poucas dezenas de católicos praticantes… Alguns mais terão atuado por escrito, mas o resultado vai ser o mesmo: nada. De modo que pergunto eu: haverá coragem para colocar este tema no domínio da justiça internacional, mormente a europeia? Claro que não! E a razão é simples: uma coisa é a objetividade, outra a liberdade para retirar da primeira as suas consequências. E mais: nada impede que quem não é católico opere aquela referida exposição internacional. Mas irá esta ser feita? Ah, claro que não!

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