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Investigadores da UTAD analisam as implicações da COVID-19 na resistência a antibióticos

A COVID-19 causa principalmente infeções respiratórias graves, tendo sido declarada como uma emergência de saúde pública de interesse internacional em janeiro do presente ano. Além de todas as implicações, já conhecidas, do vírus SARS-CoV-2, na saúde humana, também esta doença poderá estar a agravar “de forma desastrosa” a prevalência mundial de resistência antimicrobiana.

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“Quais as implicações do uso de antibióticos durante a pandemia de COVID-19?”. Esta é uma questão que tem preocupado os investigadores do grupo MicroART – Microbiology and Antibiotic Resistance, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), que há muitos anos investigam a crescente resistência de bactérias aos antibióticos, a qual se tem revelado como um dos problemas mais graves que a humanidade terá de enfrentar num futuro próximo.

A COVID-19 causa principalmente infeções respiratórias graves, tendo sido declarada como uma emergência de saúde pública de interesse internacional em janeiro do presente ano. Além de todas as implicações, já conhecidas, do vírus SARS-CoV-2, na saúde humana, também esta doença poderá estar a agravar “de forma desastrosa” a prevalência mundial de resistência antimicrobiana. Patrícia Poeta, docente da UTAD e líder deste grupo de investigação, alerta para as consequências de saúde pública que poderão estar relacionadas com o tratamento de infeções secundárias em pacientes com COVID-19.

No tratamento de pacientes com COVID-19 têm-se verificado a administração de uma variedade de antimicrobianos, tais como, antivirais, antibióticos e antifúngicos, de forma a combater a infeção viral e as complicações/infeções secundárias adjacentes”, refere a investigadora, adiantando que “embora os antibióticos não sejam usados no tratamento de infeções virais, a infeção bacteriana é, frequentemente, uma consequência secundária das infeções virais sendo que a administração de antibióticos durante a pandemia 2019-2020 poderá agravar de forma desastrosa a prevalência mundial de resistência antimicrobiana”. A DGS recomenda a implementação de Programas de Gestão de Utilização de Antibióticos (ou “Antibiotic Stewardship”) para reduzir a prevalência da resistência aos antimicrobianos, diminuindo os custos com os cuidados de saúde e aumentar a eficácia da terapêutica. Para além dos médicos de medicina humana, os médicos veterinários exercem um papel extremamente importante nesta área visto apenas estas classes possuírem legitimidade para prescrever. Patrícia Poeta, médica veterinária e membro eleito do Comité Executivo do ESGVM pertencente ao ESCMID, reconhece que apenas com uma gestão adequada do uso dos antibióticos, será possível controlar o problema numa perspetiva “One Health”.

Também Carla Miranda, investigadora do grupo, fez questão de salientar que “o uso inadequado e excessivo de antibióticos acelera a resistência antimicrobiana” e, embora poucos estudos refiram especificamente o uso de antibióticos no tratamento de complicações graves de pacientes infetados com o SARS-CoV-2 ou inicialmente como medida profilática, contraindicado pela Organização Mundial de Saúde, “o impacto global no surgimento de resistência a novos antimicrobianos ainda é incerto”.

Estando ciente das quantidades não descritas de antibióticos que foram administradas em todo o mundo em apenas alguns meses, Patrícia Poeta adianta que “deve-se antever por um aumento acentuado destas resistências com consequências potencialmente graves quer para a saúde humana e animal quer para o meio ambiente”.

É sabido que a preocupação é salvar vidas, contudo, segundo a investigadora e líder do grupo “não podemos descuidar as futuras implicações de efeitos colaterais desta pandemia, devido à administração de antibióticos”. Além disso, Patrícia Poeta sublinha que “já anteriormente à pandemia se previa um aumento significativo nas mortes e custos médicos por infeções bacterianas resistentes a antibióticos até 2050”. Contudo, o desenvolvimento de novos antibióticos diminuiu bruscamente nos últimos anos, podendo por em causa o tratamento eficaz de inúmeras doenças. Tal como aconteceu, por exemplo, no caso da Peste Negra que também causou milhões de mortes no século XIV, a qual foi recentemente reportada na Mongólia, resultando possivelmente da capacidade da bactéria Yersinia pestis em adquirir resistência aos antibióticos até então aplicados, levando ao surgimento de novos surtos.

Por estas e inúmeras razões, o combate à resistência antimicrobiana “requer medidas profiláticas urgentes” de forma a reduzir a administração e uso de antibióticos inadequadamente, tais como a consciencialização a população em geral, incluindo a classe médica, do uso inadequado dos mesmos, a implementação de medidas higio-sanitárias de forma a prevenir a infeção e transmissão de doenças infeciosas. Além disso, o investimento, por parte de governos e da indústria, deve ser fulcral, no desenvolvimento de novos medicamentos assim como vacinas, contra infeções resistentes para reduzir com sucesso a resistência antimicrobiana.

O grupo MicroART acaba de publicar um artigo, a 24 de Agosto de 2020, intitulado Implications of antibiotics use during the COVID-19 pandemic: Present and Future numa revista científica internacional de prestígio, a Journal of Antimicrobial Chemotherapy com grande impacto na área, sobre esta problemática, alertando sobre os seus perigos.

A COVID-19 já infetou mais de 23,424,844 pessoas com 808,716 mortes registadas em todo o mundo (25 de Agosto de 2020).

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