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Ilustração Científica – um portal para outras dimensões da Ciência

Na realidade, todos os cérebros animais leem “imagens”, mesmo que de diferentes naturezas e, por isso, o treino das suas competências e aprendizagens gira à sua volta, sejam elas imagens sonoras (como as formadas no cérebro de um golfinho ou morcego, graças ao exercício das funções do biossonar...

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Fernando Correia

Biólogo (Mestre em Ecologia Animal) /Biologist (MSc degree in…

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O ser humano é um ser sensorial que reage a estímulos externos, isto é, que toma consciência do mundo exterior através dos sentidos. Mas é também, por natureza, curioso e incrédulo, devoto da Luz —mas já la vamos…

Tal como muitos outros animais, evoluímos no sentido de majorar o sentido da visão. O nosso cérebro desenvolveu-se para priorizar a luz (enquanto estímulo sensorial). E que luz? Aquela que os objectos não absorvem, refletindo-a de volta, para assim impregnarem a retina dos nossos olhos, com todo um mapa de cores, um autêntico puzzle multicromático e cheio de nuances (intensidade, saturação, brilho, temperatura, etc.) que o cérebro procura depois interpretar, dar sentido, significado ou razão.

Na realidade, todos os cérebros animais leem “imagens”, mesmo que de diferentes naturezas e, por isso, o treino das suas competências e aprendizagens gira à sua volta, sejam elas imagens sonoras (como as formadas no cérebro de um golfinho ou morcego, graças ao exercício das funções do biossonar; ou as imagens hápticas, resultantes de variações de pressão de contacto no exercício do tacto, como as de uma toupeira ou dos animais abissais que vivem na escuridão total, etc.). O ser humano especializou-se na aptidão em descodificar impressões luminosas — lemos e interpretamos imagens visuais — donde possuímos um cérebro “visual”. Não é, pois, de estranhar que demos mais importância e credibilidade ao que vemos, do que ao que cheiramos, provamos ou tateamos.

Mesmo tendo a perceção que a realidade é mais complexa, chegamos assim a um primeiro ponto que nos incute uma confiança quase cega: a imagem visual inspira-nos, por defeito (instintivamente), credibilidade, passando a constituir prova material de aquele objecto existe ou aquele fenómeno acontece. “Ver para crer”, como se atribuiu ao apóstolo S. Tomé, o Incrédulo.

Vivemos, cada vez mais, imersos numa profusão de imagens. A cada dia da nossa existência, as competências cognitivas para aceder e/ou partilhar informação de natureza visual são continuamente melhoradas, pois é importante saber reconhecer e distinguir a informação imagética que chega aos nossos olhos e desenvolver espírito critico para as interpretar o mais corretamente possível. Aprendemos a ler ou assimilamos conhecimento apoiados praticamente e só em imagens — nas que testemunhamos presencialmente ou então nas observadas de forma indireta, através da sua representação, isto é, de uma “re-apresentação” de algo material e que pode ser vivenciado (quem nunca montou um móvel apenas com a ajuda de uma sequência de desenhos técnicos num impresso?).

Ao sermos educados para as imagens — para treinar o nosso cérebro a perceber a informação que elas codificam em termos gráficos — desenvolvemos, desde muito cedo, uma bem consolidada literacia visual. Atualmente, praticamente todos nós somos profundos literatos em imagética, pois sabemos ler, interpretar e alguns até comunicar, através de imagens, sejam elas estáticas (fotografias, gravações, desenhos, pinturas, ilustrações), ou animadas (vídeo, animação). Essa nossa esforçada e cultivada aptidão parece-nos, contudo, algo natural, intuitivo, que realizamos e até memorizamos sem grande esforço (uma imagem vale por mil palavras, já enuncia a sabedoria popular).

Essa tomada de consciência, sobre o valor e potencial da imagem, enquanto ferramenta pictórica passível de ser utilizada em tudo o que implica o conhecimento humano, sua transmissão ou registo para memória futura, conduz-nos inexoravelmente a utilizar a imagem para poder Comunicar de modo mais efectivo (eficiente e eficaz). E constatamos essa apropriação generalizada, quase sem exceção: na religião e sua “ciência” (teologia), na Arte e sua “ciência” da estética, na própria Ciência, na multitude de campos de intervenção e domínios (sejam ciências naturais, como a Biologia; sociais ou humanas, como a Geografia, ou Antropologia; as ciências exactas, como a Física, a Química, etc.). Todas elas usam da imagem para comunicar dogmas, princípios, teses ou teorias. E talvez a prova que mais atesta esta factualidade é que, mesmo quando procurámos comunicar com eventuais seres extraterrestres que vivam noutros mundos fora do nosso sistema solar, fizemo-lo através de uma mensagem pictórica, contendo a imagem de um casal de seres humanos e a localização da Terra — tudo gravado numa placa afixada à sonda espacial Pioneer, num estilo primitivo de gravura rupestre, mas prenhe de significado. Parece lógico que a imagem é percecionada, em todos os sentidos, como um inestimável recurso, Pioneiro e Universal.

Em suma, a Comunicação pode ser feita recorrendo a múltiplos instrumentos, recursos e agentes, mas parece óbvio que se apoia e muito, na exuberância da visualidade. A Comunicação de Ciência, como não poderia deixar de ser, também faz uso do domínio imagético estático, no que se designa por Ilustração Científica (IC). Resulta óbvio que esta só existe a partir do momento em que oficialmente a Ciência surge, acompanhando-a e com ela evoluindo — razão pela qual se pode estudar a História da Ciência a partir delas.

Assim, uma ilustração científica nada mais é que uma imagem, uma representação pictórica (pode ser um gráfico de dados, um diagrama de delineamento ou uma representação híper-realista de uma espécie, ou de um cristal ou rocha, de um fóssil, etc.), criada propositada e estrategicamente para esclarecer factos que a ciência valida, mais ou menos categoricamente, ou até para corporizar ideias, teses, ou conceitos mais abstratos, desenvolvidos por cientistas ao longo da sua investigação.

Em termos técnicos e práticos, pode ser um desenho, uma pintura, uma fotografia ou qualquer um em separado ou misturados (hibridizados). O importante é que seja rigorosa, correta, verosímil e honesta, isto é, credível e validada cientificamente e, portanto, assumindo um papel documental capaz de transmitir uma mensagem científica, sem erro ou deturpação e consolidada à luz do conhecimento atual. Por mais que esteticamente seja bela, não é Arte e sim Ciência visual.

Na realidade uma IC é uma ferramenta de imenso e inquestionável valor, já que é duplamente credível: por ser imagem que materializa visualmente e, por outro lado, também por ser científica e procurar apresentar a verdade validada pela comunidade científica mundial. E tanto assim é que, se um exemplar físico de planta rara ou extinta e conservada seca, resumida a um único exemplar presente num herbário, por alguma infelicidade desaparecer, a comunidade científica aceita a sua representação em ilustração científica como a prova material da sua existência real, elevando-a ao papel de holótipo (entidade física que é portador do nome da espécie e pelo qual foi descrita).

Se bem que inicialmente pensada para servir a comunicação científica no sentido mais estricto (para e dentro da comunidade académica e científica), cedo se percebeu o seu potencial para servir também a divulgação científica, aproximando os conteúdos científicos, por vezes complexos, à sociedade em geral (na perspetiva de um publico-alvo não-especialista). Nos inúmeros projectos que hoje podemos apreciar (livros, jornais e revistas, folhetos, pósters, painéis, murais, páginas de internet, aplicações, etc.) a IC transcende, muitas vezes, para uma forma de representação menos rígida e espartilhada que os ditames e protocolos científicos impõem, assumindo um pendor mais de ilustração naturalista.

De uma forma ou de outra, ela está presente em todos os lados e momentos, valorizando e informando sobre os recursos naturais (praticamente todos nós já vimos um “lobo” ou um diamante, mesmo sem o ter ao nosso lado), as conquistas médicas e tecnológicas (todos sabemos como é o coronavírus SARS-CoV-2, responsável pela atual pandemia, mesmo sem nunca o ter visto). Por outro lado, a IC não só se destina somente à faixa dos adultos e dos ilustres elucidados, como se poderia pensar, já que enquanto recurso didático e de reconhecido valor pedagógico também pode ser encontrar nos atuais e renovados manuais escolares do ensino básico e secundário — e o ano de 2015 representa um marco editorial já que, pela primeira vez, se assumia finalmente a importância ilustração cientifica na aprendizagem do conhecimento científico em ciências naturais, com o merecido destaque na capa.

Da próxima vez que olhar para uma imagem não-criativa (como uma infografia num periódico, um gráfico, ou a fruta num invólucro de um sumo natural, etc.) muito provavelmente dar-se-á conta que está defronte a uma IC e um novo portal para o que se conhece se abrirá à sua perceção — acredite, observe e aprenda um pouco mais sobre este nosso Mundo, aos olhos da Ciência no dia-a-dia.

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Fonte desta notícia: Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa

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