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Estatuária

Esta atitude de agora constitui-se, afinal, num isomorfismo do caso repugnante da inexistente distribuição das vacinas, nunca enviadas para os países e povos mais pobres, mas por igual do caso da recusa em receber muçulmanos ou negros que possam pedir para entrarem na Europa, ou nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que recebem agora ucranianos, que são brancos, cristãos e de olhos claros. São, como se vê, os grandes valores ocidentais em movimento...

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Todos recordam bem a corrida ao desmantelamento de estatuária a mais diversa, e por lugares vários do mundo, contra referências ao tempo da escravatura dos europeus, num primeiro passo, e dos Estados Unidos e outros países, num segundo passo, na sequência do assassínio de George Floyd às mãos da polícia norte-americana, completamente dentro da tradição, e mesmo da legalidade, da nação que deita mão, sempre que conveniente, da bandeira dos Direitos Humanos.

Este desmantelamento, com as proporções lusitanas típicas, também por aqui chegou, mas sem dar a cara. Foi o que se passou, no Largo da Misericórdia, com a estátua do Padre António Vieira, sarapintada cm dizeres diversos ao redor da proteção (branca) às vítimas (negras). Bom, de pronto nos surgiram as usuais vozes da Direita, também da Extrema-Direita, na defesa da ideia de que os acontecimentos em causa haviam tido lugar num tempo distante e que a estatuária hoje existente, além do mais, constitui um património artístico, que deve, por isso, ser preservado.

No entretanto, o tempo passou, e eis que nos surgiu a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Ora, talvez anteontem surgiu na Ucrânia, ao nível das autoridades, a decisão de mudar certo monumento que envolvia uma ligação (historicamente antiga) entre a Ucrânia e a Rússia. Sem estranheza, ninguém por cá se manifestou contra esta iniciativa, à semelhança do que se passou na sequência do homicídio de George Floyd. Nem sequer a grande comunicação social se deu ao trabalho de suscitar a legitimidade desta decisão, à semelhança do que havia alimentado, dias e noticiários a fio, naquele caso da escravatura dos europeus sobre os restantes povos do mundo, mormente africanos.

Esta atitude de agora constitui-se, afinal, num isomorfismo do caso repugnante da inexistente distribuição das vacinas, nunca enviadas para os países e povos mais pobres, mas por igual do caso da recusa em receber muçulmanos ou negros que possam pedir para entrarem na Europa, ou nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que recebem agora ucranianos, que são brancos, cristãos e de olhos claros. São, como se vê, os grandes valores ocidentais em movimento…

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