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Entrevista a Jorge Carvalho: “não há condições internas para voltar a ser candidato pelo BE em Alijó”

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Entrevista

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ENTREVISTA: CELINA MARTINS

É natural a expectativa dos alijoenses sobre a recandidatura de Jorge Carvalho no concelho às eleições autárquicas que se aproximam. Numa altura em que todos os partidos se começam a posicionar localmente para esse novo combate, muitas são as pessoas que interrogam o ex-candidato do Bloco de Esquerda (BE) sobre a sua recandidatura em 2021. A resposta é dada em primeira mão ao Notícias do Nordeste. “Não. Não serei candidato pelo BE em Alijó. Neste momento não há condições internas para o poder fazer”, disse-nos Jorge Carvalho.

Aquele que protagonizou uma das candidaturas do BE de maior sucesso no interior do país, ficando a escassa meia centena de votos de ser eleito vereador num concelho com um eleitorado tradicionalmente fechado aos partidos de esquerda como o BE, sai agora da cena política partidária por uma porta entreaberta, ou por uma porta que nunca verdadeiramente lhe foi franqueada, como nos revelou Jorge Carvalho.

O projeto político construído em Alijó à volta do BE deu os únicos eleitos em Assembleias Municipais e em Assembleias de Freguesia pelo partido em todo o distrito de Vila Real nas últimas autárquicas de 2017, num total de seis eleitos, dois para a Assembleia Municipal e quatro para as Assembleias de Freguesia. Um projeto  assim bem se pode considerar como coroado de sucesso,  por ter nascido sob a bandeira do BE num concelho onde a votação neste partido era praticamente residual. De todo um trabalho desenvolvido em curto espaço de tempo, Jorge Carvalho deixa um ativo de 745 votos no concelho de Alijó, que agora o partido e a nova equipa local vão ter que gerir nas próximas eleições de 2021.

Mas o que foi que esteve na base do desmoronamento da liderança política concelhia do BE em Alijó e de todo um projeto político à esquerda, que pelo sucesso alcançado, se poderá apodar de dinâmico e inovador?  Foi isso que o Notícias do Nordeste com esta entrevista pretendeu apurar junto de Jorge Carvalho.

Notícias do Nordeste (NN): O Jorge Carvalho teve um dos melhores resultados nacionais em concelhos do interior, como candidato local do BE nas últimas eleições autárquicas em Alijó. Vai apresentar-se novamente aos eleitores pelo BE nas próximas eleições de 2021?

Jorge Carvalho (JC): Como é sabido, demiti-me da Distrital de Vila Real do BE por sentir uma discriminação negativa por parte de alguns dos seus elementos, assim, a única coisa que posso garantir é que nunca fui contactado pelo BE para esse efeito.

Diria mais. Esses resultados que refere e bem, não são meus. São fruto de uma equipa que trabalhou incansavelmente. São de todos quantos se envolveram de corpo e alma a troco de nada, mas apenas, por acreditarem incondicionalmente na causa e, sobretudo, por defenderem também eles o melhor para o concelho de Alijó.

NN: Mas o BE vai apresentar candidato?

JC:  Não sei mesmo responder a essa questão. Nem faço futurologia. A única coisa que posso afirmar por me ter sido dito, valendo o que vale, é que alegadamente alguém do BE andou e anda a efetuar convites por este concelho fora. Quanto a mais não sei. Mas não sou terceiras escolhas de ninguém!

NN: Então não vai ser de novo candidato pelo BE em Alijó nas próximas eleições autárquicas?

JC:  Não. Nem eu nem o cabeça de lista eleito para a Assembleia Municipal. Neste momento não há condições internas para o poder fazer.

Jorge Carvalho: “Não. Não serei candidato pelo BE em Alijó. Neste momento não há condições internas para o poder fazer”

NN: Mas acha que o BE vai apresentar uma candidatura forte em Alijó?

JC: Não sei. Não posso falar pelas candidaturas futuras fortes ou fracas do BE em Alijó. Posso-lhe falar da que eu encabecei nas passadas eleições. A nossa candidatura tinha uma força que poucos conheciam e menos ainda acreditaram. Alguns até subestimaram e por isso pagaram caro.

Tenho para mim que os resultados históricos alcançados pela nossa equipa nas últimas eleições respondem a esta questão. Ficámos a meia centena de votos para eleger um vereador. Elegemos dois deputados da Assembleia Municipal e vários nas Assembleias de freguesia. Desbravámos caminhos que tinham tanto de novo como de penoso.

O BE tem agora o trilho em aberto e com todas as condições para superarem o nosso resultado, só precisam de encarar esta missão com a seriedade que ela exige e tratar os eleitores que em nós confiaram com respeito.

NN: Quer com isso dizer que o BE distrital desrespeitou a vossa candidatura e os vossos eleitores?

JC: Isso não são palavras minhas. Quero com isto dizer o que digo: quem dá o que tem a mais não é obrigado. A nossa equipa vestiu a camisola do concelho sem nunca desrespeitar o BE e, também por isso, o próprio Partido deveria ter vestido a nossa camisola, a camisola do concelho!

NN: E não vestiu?

JC: Vestiu do avesso! (Risos)

NN): Que quer dizer com isso? Pode ser mais concreto?

JC: Quero dizer que ao contrário do que muitos esperavam, até mesmo nós, o nosso resultado foi tão grande que ao invés de criar reconhecimento e união dentro do Partido, tornou-se numa ameaça e num alvo a abater.

NN:  Quer dizer que o abateram?

JC:  Não. Espero estar enganado, mas abateram-se localmente a eles próprios. Infelizmente, ainda há Partidos tão cegamente urbanos que falam nas raízes e na essência dos Povos, mas que na prática ignoram e desprezam o restante território.

NN:  Mas o caso do concelho de Alijó,  (e também de Mesão Frio), não deveria ter sido um fundamento motivacional e um fator de alavancagem para fazer crescer o partido em localidades do interior, nomeadamente no distrito de Vila Real?

JC:  Disse bem: deveria! Mas quando as estruturas estão recheadas de subalternos, quaisquer outras vozes que os superem através do trabalho são encarados como ameaças e não como parceiros ou aliados, portanto, são para silenciar!

NN:  Silenciaram-no ou fechou a porta?

JC:  Não, não me silenciaram. Quanto ao fechar da porta, para o Concelho e conterrâneos nunca! Se se refere ao Partido, não se fecha uma porta que nunca nos foi totalmente aberta!

Jorge Carvalho: “O meu maior ponto fraco é, por mais paradoxal que pareça, o amor por esta terra! E por isso paguei muito caro nos últimos anos, sobretudo desde que fui candidato.”

NN:  Que tem a dizer sobre o CHEGA?

JC:  Que, embora esteja a engordar graças ao esvaziamento das franjas dos fascistas oriundos do CDS e do PSD, me preocupa o seu crescimento. São modas e tendências que não devemos sobrevalorizar, pois são resultado das más politicas, dos maus políticos e dos grupos extremistas organizados nos últimos anos!  Mas, tão grave quanto estes, são os fascistas assintomáticos que recheiam a nossa sociedade.

NN:  Qual considera ser o seu maior ponto forte?

JC:  Isso é uma questão repleta de rasteiras. A nossa força sentimo-la no dia-a-dia. Em cada momento que representamos as pessoas que confiaram em nós, procurando nunca as defraudar e em cada vez que estávamos com eles a ouvir e partilhar das suas preocupações e necessidades. Quando sentimos o dever cumprido, sentimo-nos engrandecidos. Eu fui um privilegiado por ter a equipa que tive sempre ao meu lado e pelas pessoas que em nós confiaram.

NN:  E o maior ponto fraco?

JC:  O meu maior ponto fraco é, por mais paradoxal que pareça, o amor por esta terra! E por isso paguei muito caro nos últimos anos, sobretudo desde que fui candidato.

NN:  Como avalia este último mandato do executivo em exercício na Câmara de Alijó?

JC:  Tenho uma perceção muito pessoal das coisas enquanto cidadão, pelo que qualquer opinião minha é exclusivamente minha evitando sempre julgamentos de qualquer outro carácter.

O mandato ainda está a decorrer. Estamos a um ano de eleições. Muita coisa vai acontecer. Todos sabemos como o ano das eleições é profícuo em obras e favores.

Não sou um profeta da desgraça, mas também não me resigno às evidências das limitações que de certa forma hipotecam o desenvolvimento das terras e o futuro dos nossos filhos.

Mas custa-me a crer que no ano que falta tripliquem a Zona Industrial ou que o campo de aviação deixe de ser uma coutada de caça.

NN:  E que tem a dizer sobre o PS de Alijó, o maior partido da oposição?

JC:  É um Partido que me merece o maior respeito, mas que tem muita culpa no cartório e que, até pela sua força histórica e representação local, deveria ser mais produtivo na oposição e mais construtivo na defesa dos interesses de todos nós.

Terá, a meu ver, de reestruturar os seus quadros de pessoal e reformular as suas politicas locais, pois tem muita gente com valor que espero não se perca e menos ainda embarquem em complôs e erros do passado recente que não deixaram saudades a ninguém e pelas quais pagaram e pagam ainda atualmente bem caro! Eles e todos nós!

NN:  O que poderia convencê-lo a ser novamente candidato?

JC:  A força do meu ponto fraco. (Risos)

NN:  Quer deixar uma mensagem a alguém?

JC:  Sim. Quero agradecer o convite e a oportunidade desta entrevista da qual me sirvo para retribuir o meu reconhecimento por todos quantos nos representaram nas assembleias ao longo destes anos, bem como, deixar uma palavra de apreço àqueles que acreditaram e se juntaram a nós. Muito obrigado.

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