Informativo Digital de Trás-os-Montes e Alto Douro

Do 28 de maio ao OE de 2022

Em mui boa medida, a sobrevivência longa do Estado Novo também se ficou a dever às mil e uma lutas que quase nenhum português conhecia.

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O velho Estado Novo, em boa medida, durou quase meio século. Tive já a oportunidade de salientar os três suportes principais do regime constitucional da II República: a Igreja Católica, o Exército e o Povo, que se ligavam, respetivamente, à tríade de referências centrais do regime, que eram Deus, Pátria e Família.

Existia, naturalmente, quem se opusesse ao regime do Estado Novo, mas o número de concidadãos que assim se situava, era escassíssimo, sendo o de grupos organizados e ativos razoavelmente grande: num certo sentido, existiam tantos grupos quantas as principais personalidades que, gostando da política, pretendiam poder vivê-la pública e exteriormente ao Estado Novo.

Neste ambiente, o número de tentativas de golpadas, a fim de derrubar Salazar e o seu regime, foi enorme, mas cada um deles, de um modo muito geral, com um número ínfimo de revolucionários. A regra era a de cada cabeça, sua sentença. E tornou-se célebre o número de saídas, ou de expulsões do PCP – era a única força realmente organizada, na clandestinidade ou fora dela – na sequência do Pacto Germano-Soviético, mostrando uma atitude oportunista, a anos-luz do alheamento determinado dos católicos em face desse novo holocausto que tem sido, aos milhares, o número de vítimas de pedofilia de padres e leigos da Igreja Católica Romana.

Em mui boa medida, a sobrevivência longa do Estado Novo também se ficou a dever às mil e uma lutas que quase nenhum português conhecia. Se um era leninista, o outro não era; se um entendia que o ultramar era Portugal, outros não pensavam assim; se alguns viam no PCP uma força fascizada, mas de sinal contrário, logo os comunistas se apresentavam como os verdadeiros herdeiros do combate ao obscurantismo; e se uns defendiam a democracia, de pronto os comunistas se demarcavam desta ideia burguesa. Enfim, uma barafunda, com cambiantes para todos os gostos e vaidades. E qual foi, afinal, o resultado? Ah, meio século de vida para o Estado Novo e a vitória de Salazar, já bem dentro da III República, no concurso sobre O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE!

Ora, as décadas foram passando, mudou-se de século, mas aquelas velhas marcas da (dita) oposição ao Estado Novo não mudaram. Vivem-se hoje tempos perigosos, a Direita tomou a grande comunicação social, que vai vendendo histórias ao serviço do fim do Governo de António Costa e da própria destruição da atual Constituição da República.

Sem espanto para mim, eis que a Esquerda portuguesa dos nossos dias volta a mostrar o histórico comportamento da (dita) oposição ao Estado Novo naqueles já distantes anos: cada cabeça, sua sentença, com as miudezas da política a servirem de charneira nas tomadas de posição dos diversos partidos políticos desta área, com especial referência para PCP, Verdes, Bloco de Esquerda, PAN, Livre, etc., em face do PS de hoje, liderado por António Costa.

Quase me custa acreditar que, entre dois males, aquele grupo de partidos da Esquerda prefira o pior. Embora – há que recordá-lo – já se tenha visto isto ao tempo do PEC IV, com as terríveis consequências que estiveram à beira de se tornar irreversíveis. Mau grado tudo isto, o divisionismo sonhador – ou interesseiro, ou de aflição…– continua, sempre ao redor de miudezas políticas a que a esmagadora maioria nada liga.

Será possível que o Comité Central do PCP acredite que os resultados recentes do seu partido se devem à Geringonça e ao apoio aos Orçamentos do Estado do PS de António Costa?! Será concebível que a liderança do Bloco de Esquerda finja que acredita que o PS é um partido alheio ao triunfo capitalista neoliberal?! Viverão os Verdes alheados da realidade em que se consubstancia o comentário político das nossas televisões?! Portanto, deitar o atual Governo à rua servirá a quem? Será que aqueles partidos da Esquerda se preocupam com o futuro dos portugueses? Muito sinceramente, não creio, porque se estivesse errado, nunca teriam derrubado o PEC IV, com as consequências que depois se viram.

Temos um mês, pois, para ver no que dão as coisas para os portugueses, com os partidos da Esquerda a fingirem acreditar que o Governo de António Costa pode mesmo ser absolutamente independente e praticar toda a natural e essencial justiça social. Embora a democracia – a nossa e todas as outras – não permita que os cidadãos decidam livremente em matérias fundamentais, compete aos portugueses olharem o que hoje têm, comparando com o que lhes virá a acontecer se aqueles partidos da Esquerda vierem a avalizar a atual Direita e Extrema-Direita em reconstrução, tendo sempre como fim supremo pôr um termo em tudo o que possa dizer respeito à Revolução de 25 de Abril. E como não há uma sem duas, resta agora ver o que nos farão os partidos da Esquerda depois do que já fizeram com o PEC IV…

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