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Despovoamento, abandono, solidão

Hoje estou aqui perante casas que já não o são. Um moinho derruído, sem nada, um engenho já podre. Apeteceu-me vir aqui para imaginar, para ver as ruas com gentes desenhadas na loucura desta perseguição que faço ao passado. Não conheço ninguém, nunca conheci ninguém e já não há quem se lembre de quem aqui tenha vivido.

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António Luis Pereira

Arqueólogo. Desenvolve a sua atividade no âmbito da…

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Todos estamos convencidos do contrário, mas o tempo derrete a matéria mais áspera que a natureza criou. E talvez por isso em todas as épocas emudecemos as casas onde viveram e vivemos, até as transformarmos em pedaços de quase nada, como em quase nada se transformam as vidas que lhes deram as antigas formas. Hoje, agora, no instante, o tempo não nos diz nada, porque estamos sempre ocupados a olhar o circo da vida. Mas perante uma aldeia derruída podemos sentir o movimento de outrora num arfar de pedras onde cristalizaram os últimos suspiros dos homens e das mulheres que a habitaram.

Depois há o cemitério, esse último reduto e guardião de memórias, mas quando abandonado um local, abandonamos também o culto dos mortos. E a pouco e pouco também as lembranças desses homens e mulheres de ontem. Morremos. É assim que se morre. É assim que “desnascemos”, é assim que agonizamos na lembrança dos vindouros e que finalmente findamos.

Hoje estou aqui perante casas que já não o são. Um moinho derruído, sem nada, um engenho já podre. Apeteceu-me vir aqui para imaginar, para ver as ruas com gentes desenhadas na loucura desta perseguição que faço ao passado. Não conheço ninguém, nunca conheci ninguém e já não há quem se lembre de quem aqui tenha vivido.

Mas posso imaginar as pessoas, observá-las, ouvi-las, ver aquele grupo de crianças que brinca à sombra do castanheiro; o homem que passa de enxada ao ombro. E de repente os sons, todos os sons montesinos que aprendi a reconhecer como meus e da minha gente. E todos aqui estão, como desabrochados de um filme antigo mixado com o choro de crianças, o balir de ovelhas e o latir de cães cansados da fome dos homens. Até quase respondi ao simpático “boa tarde” daquela mulher que passou com o rosto granjeado a sol e geada.

O silêncio entranha-se-me no corpo, encharca-me os poros do cérebro. São agora cinco horas da tarde. Ecoa por todo o lado este silêncio medonho, em sereno conflito com os debilíssimos gemidos que brotam de entre os derrubes das pedras onde sucumbe o passado. Esta aldeia teve tanta vida, tanta gente e hoje é isto: silêncio, arqueologia!

Vim aqui porque gosto de ler. Sempre os livros. Sempre os livros a determinar esta minha banal e insignificante existência. Os livros, esses “malditos objetos” que não me deixam aquietar o pensamento. Vim aqui porque precisei de assemelhar. Precisei de comparar a minha imaginação, a realidade destas ruínas, com a imaginação e a realidade vertida no magnífico livro de Julio Llammazares, onde se fala de extinção, de esvaziamento, de abandono, de finitude.

“A Chuva Amarela” era já um livro antigo que estava ancorado na fila das intenções de leitura que tinha para fazer. Finalmente deitei-lhe mão e logo ao fim das duas primeiras páginas o monólogo do último habitante de um povoado abandonado do Pirineu aragonês prendeu-me a atenção. Também ele, esse tal último habitante, agora aqui está, em Gavião*, mas com o nome de José.

José olha-me daquela porta entreaberta, com os pés assentes no derrube do telhado que aconchegou o seu lar. José fala-me da solidão que lhe impuseram, fala-me do abandono a que o submeteram. Desta aldeia, José foi o último a partir. Há sempre um último a partir. Resistiu. Resistiu o quanto pôde e já sem sequer poder continuou a resistir. Também quase enlouqueceu com o silêncio sepulcral a que o degredaram nos últimos anos de vida. José fala-me agora da solidão que está em toda a parte desta região e que da região apenas mantém a prosápia do seu nome. Fala-me desta solidão de gente que impregna as aldeias, as casas, as palavras, as árvores, o sol e as próprias sombras.

Em “A Chuva Amarela” José não fala só de “Ainielle”, fala também de nós, de Gavião, de Trás-os-Montes.

Por isso vim até aqui. Vim até aqui para confrontar, para sentir, para escrever. E enquanto o sol abandona o rosto deformado da aldeia, as sombras vão lambendo lentamente Gavião. Depois, a pouco e pouco, surge o anoitecer. E agora, uma espécie de chuva amarela cai-me asperamente na alma, pesadamente na alma, como gritos derradeiros em ecos de desassossegar.

*Gavião é uma aldeia abandonada do concelho de Vila Flor, distrito de Bragança. Este texto é um convite à leitura do livro “A Chuva Amarela” de Julio Llammazares, um «monólogo do último habitante de um povoado abandonado do Pirineu aragonês. Entre a ‘chuva amarela’ das folhas de outono que se equipara ao fluir do tempo e da memória, ou na brancura alucinante da neve, a voz do narrador, às portas da morte, nos evoca outros habitantes desaparecidos do povoado, que o abandonaram ou morreram, e nos confronta com os extravios de sua mente e as descontinuidades de sua percepção na aldeia. Fantasma da qual a solidão se apoderou».

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