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Dependências

Afinal, não estando dependentes da Rússia, estávamos até ontem à noite da Nigéria. E quem diz Nigéria, diz um qualquer outro deste nosso mundo decadente, sem regras nem valores fora do malfadado pilim.

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Em texto meu recente – duas ou três semanas –, tive a oportunidade de salientar que a dependência energética em face do gás e do petróleo russos não passava de uma fantasia. An-gela Merkel, nesta sua recente presença em Portugal, teve a oportunidade de salientar a evidência da situação: o que se fez seguiu a lógica das coisas, e sempre por todos praticada. Se o gás russo era o mais barato, e se a Rússia de Vladimir Putin era confiável, a decisão mais correta era a que foi tomada e prosseguida.

Claro está que em política também existem os técnicos especializados em análises day after, que foram os mil e um que, num ápice, passaram a ver na antiga chanceler um fracasso, mas depois de a terem pintado, em contínuo temporal, como uma maravilha dos deuses. Fico mesmo admirado de não ter ainda surgido a ideia de alguma cumplicidade estratégica entre Merkel e Putin, para mais sendo ela oriunda do espaço da antiga Alemanha Oriental. Talvez aquela escuta da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos ao seu telefone, como aos de outros políti-cos europeus, tivesse andado a procurar essa potencial cumplicidade, para mais falando ambos alemão e russo e tendo Vladimir Putin trabalhado em Dresden, quando era oficial da KGB.

Acontece, todavia, que o mundo vive completamente interligado, ao mesmo tempo que a ausência de moral e de ética na política e nos negócios acaba por transformar as certezas de agora em agonias de amanhã. Precisamente o que está agora a passar-se com o gás que a Nigéria havia garantido a Portugal. Se não estávamos nós dependentes do gás russo, passámos a estar, recentemente, do produzido na Nigéria, mas por igual em outros países. Simplesmente, se Vladimir Putin procede para com os que maltratam a Rússia de um modo similar, já a Nigéria, e num futuro próximo talvez outros, atuam à revelia do contratado.

Afinal, não estando dependentes da Rússia, estávamos até ontem à noite da Nigéria. E quem diz Nigéria, diz um qualquer outro deste nosso mundo decadente, sem regras nem valores fora do malfadado pilim. Temos, porém, uma boa porta de saída: façamos como sempre procederam no mundo os Estados Unidos, passando a ter como amigos, hoje, os inimigos de on-tem. Olhemos o comportamento dos nossos ditos aliados norte-americanos – há tolos em toda a parte, incluindo na política portuguesa –, e pensemos no seu comportamento para com a Venezuela, a Arábia Saudita, mas por igual o tal crime de alta traição praticado pelos homens da campanha presidencial de Ronald Reagan, e sigamos em frente, se necessário recorrendo às quotas necessárias de gás russo. E não duvidemos por um segundo: se os Estados Unidos se virem forçados a proceder deste modo, pois fá-lo-ão.

Apetece-me recordar aqui o nosso Vasco Santana, creio que n’A CANÇÂO DE LISBOA, convidando os políticos que vamos tendo a pensarem no mesmo: calem-se ó palermas, dependências há muitas!

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