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De mal para pior

Esta realidade permitiu perceber que o risco há muito apontado por Kissinger, de uma unidade entre a Rússia e a China, começava a dar mostras de poder vir a materializar-se. Uma realidade a que poderiam vir a juntar-se outros Estados da Ásia, criando um potencial difícil de igualar pela comunidade ocidental, toda ela suportada na regra do vale-tudo.

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Aí está a mais recente ária da grande ópera Apocalipse, da autoria do enorme coro da classe política mundial. Neste caso, trata-se da ária que se constitui na entrada da Finlândia e da Suécia para a estrutura da OTAN, entidade criada para defender os Estados europeus ocidentais da expansão do comunismo sob o comando soviético. Portanto, no seu início, e até ao fim dessa estrutura comunista soviética e do Pacto de Varsóvia, a OTAN foi uma estrutura defensiva.

Com o colapso do comunismo soviético seria de esperar que, no sentido da construção de um novo e amplo espaço de Paz, a OTAN viesse a ter o seu fim. A verdade é a que se conhece: tudo continuou, acabando mesmo por se ampliar, sempre no sentido de Leste, englobando os antigos Estados que haviam pertencido ao Pacto de Varsóvia. Um mecanismo que se saldou num cerco crescente da Rússia, agora já com a designada economia de mercado.

Toda aquela ampla região, ao redor da Polónia, da Ucrânia, do oeste russo, da Roménia, da Grécia, da Alemanha, da Áustria, etc., viveram sempre em constante sobressalto histórico, entrando e saindo em Estados vencedores ou derrotados, ou assumindo mesmo independências mais ou menos frágeis. E é, ainda hoje, esta a realidade política que se está a viver por toda aquela região.

Portugal aderiu à OTAN muitas décadas antes da Espanha, pelo simples facto de ter aquela estrutura considerado que o país vizinho vivia sob o domínio de uma ditadura – o franquismo –, não considerando Portugal na mesma situação. A verdade é que a Espanha nada perdeu com essa não entrada na OTAN. E o mesmo se teria dado com Portugal, se, por uma qualquer razão, não nos tivéssemos tornado membros da estrutura. Certo é que o comunismo não nos atingiu, tal como aconteceu com Espanha, situações que nada tiveram que ver com estar, ou não, na OTAN. Portanto, estar nesta estrutura apenas se saldou em gastos acrescidos de dinheiro com o ambiente militar. Em contrapartida, esta nossa presença na OTAN, tal como a de Espanha, colocou-nos sob a mira dos mísseis estratégicos soviéticos, ou russos, como é agora o caso.

É esta a situação da Suécia e da Finlândia: se, até aqui, nunca nada tiveram de mal com a União Soviética, ou com a Rússia, ao entrarem para a OTAN passam logo a ser alvos de uma intervenção com mísseis estratégicos em caso de guerra. Aumentam-se, deste modo, os respetivos riscos em caso de guerra entre os Estados Unidos e a Rússia. E quem diz Rússia, diz qualquer outro Estado que se veja posto em causa pelos Estados Unidos. Hoje, portanto, a OTAN é já um instrumento da grande estratégia dos Estados Unidos, autêntica ponta de lança.

O que hoje se passa com a grande batalha da Ucrânia, opondo a Rússia à Ucrânia, nunca teria lugar se a OTAN tivesse deixado de existir. E não será por existir que as tentações, ou pulsões, irão deixar de estar presentes, venham elas de onde vierem.

Os Estados Unidos deram-se conta desta realidade simples, mas que vai passando para lá da atenção corrente: as estruturas democráticas são, pela sua natureza, fracas, vivendo de aparências, subordinadas, de facto, à corrida pelos grandes interesses, invariavelmente à revelia de outros valores para lá do dinheiro e de uma liberdade tão ampla quanto possa conceder-se. Passou a valer tudo, desde bilionários – poucos – ao lado de amplíssimas pobrezas, casamentos de todo o tipo, abortos a pedido, morte em circunstâncias similares, ordenados inimagináveis para uns poucos, etc.. Simplesmente, esta realidade gerou uma sociedade que vem caminhando para uma pobreza objetiva, acompanhada de uma instabilidade pessoal crescente na vida. Realidades que culminaram, qual referência suprema, com a histórica invasão do Capitólio. Como há muito escrevi, a democracia é uma ilusão, mas que funciona (cada dia pior).

Em contrapartida, as ditas autocracias suportam-se hoje em valores fortes, que permitem que a vida comunitária consiga mínimos de qualidade de vida aceitáveis. Dispõem, pois, de uma capacidade de comando e controlo que vão secundarizando, quase a um ritmo diário, a decomposição social e política das sociedades (ditas) democráticas. A tal ilusão, de um modo veloz, vem-se esfumando. No entretanto, os Estados Unidos despertaram para o designado perigo chinês, já prestes a ultrapassá-los no domínio negocial internacional.

Esta realidade permitiu perceber que o risco há muito apontado por Kissinger, de uma unidade entre a Rússia e a China, começava a dar mostras de poder vir a materializar-se. Uma realidade a que poderiam vir a juntar-se outros Estados da Ásia, criando um potencial difícil de igualar pela comunidade ocidental, toda ela suportada na regra do vale-tudo. Além do mais, a Rússia dispunha do instrumento católico ortodoxo, com a Índia suportada no seu histórico hinduísmo. Apenas a China mostra algum potencial de abertura aos valores religiosos católicos romanos. Bom, o pânico foi-se instalando no ambiente político norte-americano. Para mais depois da experiência Trump e dos acontecimentos do Capitólio, com tudo o que mostraram estar a seu montante.

É neste contexto que surgiu a historieta do novo coronavírus, com que se pretendeu criar uma responsabilidade mundial sobre a China. Mas também os mil e um homicídios em Londres de gente russa, de pronto apontados ao Presidente Vladimir Putin. Como pude explicar em texto já antigo, Putin seria sempre o que menos interesse tinha em tais inúteis homicídios. Pelo contrário: os mesmo serviriam, do melhor modo, para, pela comunicação social ocidental ao serviço da grande estratégia dos Estados Unidos, ir desacreditando o líder russo.

Por fim, o famoso caso dos oligarcas russos. A verdade é que Londres sempre soube da sua existência, como conhece, por igual, a das offshores. Todavia, fartou-se de deitar mão do dinheiro movimentado pelos referidos oligarcas. E quando, finalmente, se viu obrigada a prescindir dos mesmos, o que fez foi deitar a mão aos seus bens, completamente à revelia do tal mecanismo do Estado de Direito.

Como pude escrever, a Rússia teria sempre a perder, fosse por via desta ação ou por não ir por aí. A verdade é que se tudo isto, pelos mesmos motivos, se passasse com os Estados Unidos e não com a Rússia, nem uma agulha buliria na quieta melancolia dos pinheiros do caminho, como nos poderia dizer hoje Augusto Gil. E esta realidade, como se vai podendo perceber, suporta-se na fantástica propaganda operada pela grande comunicação social.

À Rússia sobra um caminho, mas para que lhe falta uma marca tradicional forte e continuada: o recurso às armas nucleares. Convém ter presente que o bombardeamento nuclear sobre o Japão se ficou a dever à necessidade de experimentar a descoberta ao vivo, e não por causa do tal milhão de mortos norte-americanos em alternativa.

Chegou-se a ponderar a iniciativa de fazer uma experiência ao largo de Tóquio, mas recuou-se por via de um possível fracasso funcional. E o mesmo se fez com a ideia de trazer dirigentes políticos japoneses a Los Alamos: havia o temor de que as explosões pudessem não ocorrer.

Com esta adesão da Suécia e da Finlândia à OTAN está-se a caminhar de mal para pior. Além do mais, não custa perceber que a Rússia nunca se iria envolver numa outra aventura por meios convencionais. Agora, todavia, o que que se vai dar é um aumento significativo da probabilidade de que algo de terrível possa vir a ter lugar. Até porque a Finlândia irá passar a servir de porta provocatória na atitude dos Estados Unidos em face da Rússia. Tudo estava bem, assim se tivesse prosseguido no espírito de mudança que se operou com a passagem da URSS para a Rússia, já sem Pacto de Varsóvia. Infelizmente, os Estados Unidos continuaram a pretender uma expansão para Leste, sempre com os olhos postos na decomposição da Rússia e na tomada da exploração das suas amplas riquezas. No fundo, o que sempre fizeram por todo o mundo. É isso: vamos de mal para pior.

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