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Da Vila não reza a História

Um povo que não conhece a sua identidade dificilmente saberá também como escolher o seu futuro. Em vez de pontes megalómanas de sete milhões de euros que ninguém pediu, não me importaria nada de ver meia dúzia de milhares de euros na instalação de sinalética turística nesta cidade – cosmopolitamente assinaladas também em inglês, já agora.

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Há dias, lia numa publicação regional um lojista vilarealense que, tendo o seu negócio na zona história da cidade trasmontana, se queixava da falta de sinalética para a zona antiga. Sendo munícipe de Vila Real, e apaixonado por História, compreendo a sua indignação. Numa faixa de 500 metros no centro da cidade podem-se encontrar monumentos uns atrás dos outros, mas poucas ou nenhumas referências ou notas turísticas visíveis.

A Capela Nova impõe a sua majestade barroca, e, descendo a rua, passando por várias casas brasonadas que valeram em tempos à cidade a alcunha de “Corte do Norte”, o elaborado pelourinho dá acesso à avenida central. E chegando aí, é só escolher: a casa quinhentista dos Marqueses de Vila Real, título que terminou com o envolvimento do seu titular numa tentativa de assassinato de D. João IV na alvorada da Restauração, e que condenou Vila Real a viver três séculos na infâmia de ver o seu símbolo virado de cabeça para baixo, como sinal de desonra. A estátua de Carvalho Araújo, herói trasmontano da Primeira Guerra Mundial, cujo sacrifício contra um submarino alemão valeu a passagem de um paquete em segurança para os Açores – o comandante alemão escreveria dessa refrega desigual que “os portugueses bateram-se como diabos!”. Do lado contrário, a Sé de Vila Real, com a característica traça robusta de templo gótico. Mesmo abaixo, a fachada austera da casa que viu nascer Diogo Cão, o navegador que primeiro levou Portugal a terras angolanas.

A rematar esta faixa de uma riqueza histórica singular, as ruínas do castelo, o local de nascimento da cidade, que por ser criada por iniciativa de D. Dinis foi baptizada de “Vila Real de Panóias”, denominação ancestral destas terras desde o domínio romano até à Alta Idade Média.

Mas nem o pano de muralha sobrevivente abaixo do liceu Camilo Castelo Branco, com o que resta da Porta Franca (entrada onde os comerciantes não pagavam portagem para entrar no burgo), nem a Porta Norte e as fundações de um torreão mesmo detrás da Câmara Municipal, vêem destaque algum. No interior do castelo, o Museu da Vila Velha alberga dois tesouros do tempo da fundação da cidade: os dois únicos sobreviventes “Marcos da Redonda”, monólitos com escudo de cinco quinas, que delimitavam uma área arredondada de terrenos – daí o termo “Redonda” – que o rei concedia à recém fundada vila; e a medida padrão gravada na Porta Norte, que definia a unidade de comprimento porque se regia a vila.

Junto a tudo isto há ainda a Igreja da Misericórdia, pequeno templo românico, e o Museu de Arqueologia e Numismática, com o enorme marco romano da Via Imperial XVII que assinala a fundação simbólica da aldeia mirandelense de Vale de Telhas, e uma impressionante coleccção de moedas desde a Grécia Antiga à Roma Imperial e aos Reinos Suevo e Visigodo.

Um povo que não conhece a sua identidade dificilmente saberá também como escolher o seu futuro. Em vez de pontes megalómanas de sete milhões de euros que ninguém pediu, não me importaria nada de ver meia dúzia de milhares de euros na instalação de sinalética turística nesta cidade – cosmopolitamente assinaladas também em inglês, já agora.

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