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Cena ridícula

Uma notinha para os políticos do Chega: parem com a cena ridícula que agora se pôde ver nos Açores, e deixem de se mostrar protetores absolutos dos policias. Do que eles não precisam é de graxa...

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Foi com uma enorme graça que ontem pude assistir, em plena televisão, àquela deslocação dos dirigentes nacionais do Chega, creio que nos Açores, até junto de um grupo de agentes da PSP que se encontravam em protesto em defesa da melhoria das suas condições salariais, mas por igual por uma atitude de justiça em face do que se fez com a Polícia Judiciária. Para já não falar nos meios físicos, móveis ou imóveis. Indubitavelmente, foi, para mim, uma cena deveras engraçada, mas por igual imensamente ridícula.

O tema que tem motivado o presente protesto dos elementos da PSP e da GNR encontra-se fortemente suportado na razão que assiste ao mesmo. Em todo o caso, o que está agora a passar-se entronca-se em aspetos diversos, nascidos há muito, e que foram sendo hipertrofiados pela generalidade da governação, e bem para lá da atual.

Em primeiro lugar, o modo fraco como se opera a governação na generalidade das designadas democracias. Invariavelmente, a governação pensa sempre na sua manutenção no poder, em geral por acreditar que conseguirá atingir o cerne dos problemas, o que a experiência mostra não corresponder à realidade.

Em segundo lugar, e fomentado pelo exposto antes, nem todas as reivindicações conseguem a mesma atenção e a mesma disponibilidade por parte dos governantes. Foi o que há dias referiu o Almirante Henrique de Gouveia e Melo, pedindo atenção para os que não podem manifestar a sua razão.

Em terceiro lugar, a governação, de um modo muito geral, quase não reflete sobre um modelo adequado para abordar a problemática das forças de segurança. Se num dia se pensa na tradição de sempre, logo num outro o que surge é a ideia das superesquadras, para, um tempo depois, se vir a cair num policiamento com alto teor de mobilidade, muito mais que com locais fixos para presença permanente. Enfim, de um modo politicamente muito transversal, a regra é a de mudar ao sabor de quem chega, ou do último grito, muitas vezes suscitado por questões estritamente singulares.

Em quarto lugar, e por via do que se expõe no ponto anterior, também se acaba por deixar de lado um mecanismo de gestão de stocks no respeitante, por exemplo, a viaturas. Nos termos do que nos é dado observar, ao dia-a-dia do funcionamento da sociedade, parece viver-se, neste importante domínio, à luz de uma esperança em que o mal não vá para pior. E quando algo surge de mal irremediável, tenta fazer-se o impossível, digamos assim.

Em quinto lugar, o problema central das instalações destinadas a pernoitar. É um domínio onde, à luz do que se ouve, se vive a anos-luz de um pouco de boa vontade e de imaginação, sendo certo que qualquer solução para esta realidade terá sempre de se ficar por longe de uma situação que possa ser considerada adequada. Simplesmente, pode fazer-se muito mais e bem melhor. Em todo o caso, necessita-se de boa vontade, e de cuidado dos que comandam com os seus subordinados.

Em sexto lugar, os cuidados que um bom comandante – no sentido geral – deve ter para com a situação psicológica, mesmo social, dos seus subordinados. A função policial está hoje fortemente marcada por um grau de isolamento social que poderá vir a comportar desagradáveis consequências. E nem toda a governação dispõe de melhores condições do que os que lideram os seus subordinados.

Em sétimo lugar, o problema do regresso dos agentes, ou militares, à sua região de origem familiar, muitas vezes separados dos seus por muitos anos. Quase com toda a certeza, poderá aqui fazer-se muito mais e bem melhor.

Em oitavo lugar, as essenciais facilidades no domínio dos transportes, incluindo os nacionais, o que logo se traduzirá num acréscimo de benefício global para cada um. É um tema que, na parte que possa não estar ainda tratada, pode ser atacado num ápice.

Em nono lugar, o problema salarial. Bom, é essencial fazer contas e assumir opções corajosas. E é um problema passível de solução, embora custe dinheiro. Um dado é certo: ninguém regateará a legitimidade de se pagar bem aos agentes da PSP e da GNR.

E, em décimo lugar, é essencial promover a cidadania e a qualificação global dos que servem nas nossas forças de segurança. Autoridades de segurança e ordem pública de elevada qualidade é um acontecimento fortemente possível. Simplesmente, muito do que aqui expus depende dos que comandam a força e as suas partes menores. O Governo – este ou outro – não poderá nunca chegar a tudo.

Por fim, uma notinha para os políticos do Chega: parem com a cena ridícula que agora se pôde ver nos Açores, e deixem de se mostrar protetores absolutos dos policias. Do que eles não precisam é de graxa…

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