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Revelada riqueza arqueológica do Castro de São João das Arribas, Miranda do Douro

Castro de São João das Arribas (Miranda do Douro): quatro anos de campanha arqueológica revelam riqueza monumental de edificados e artefactos de diferentes materiais e povos.

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Muralhas, muros, artefactos, séculos e séculos de história… a riqueza arqueológica do Castro de São João das Arribas, em Aldeia Nova (Miranda do Douro), é de uma grandeza difícil de mensurar, mas a equipa liderada pela arqueóloga Mónica Salgado está, desde 2016, a desvendar e a estudar tudo o que foi submerso pelas mãos do tempo e do homem, no âmbito do “Projeto de Investigação sobre o Castro de São João das Arribas”.

Tudo começou com uma primeira visita realizada pela arqueóloga Mónica Salgado ao Castro de São João das Arribas, e com a perceção de que ali se encontrava uma “mina” arqueológica. “Eu conheci o lugar e achei que tinha muito potencial arqueológico e como ainda não tinha sido estudado, decidi fazer um projeto de investigação”, conta a especialista.

A primeira campanha arqueológica do projeto no Castro de São João das Arribas foi realizada em 2016, seguindo-se mais três, em 2017, 2018 e 2019. Uma das principais descobertas da equipa de arqueólogos foi verificar que as estruturas edificadas identificadas não eram da Idade do Ferro, como previsto, mas quase todas datáveis da Antiguidade Tardia e da Alta Idade Média.

“Temos uma estrutura que pode ser do final do Império Romano, outras dos séculos IV, V, ou seja, da Antiguidade Tardia, e depois as outras todas que acreditamos ser da Alta Idade Média”, explica Mónica Salgado.

Entre os achados estão, por exemplo, muros que dividem compartimentos e uma lareira que se acredita ser do século IV d.C. Foi também identificada, na segunda campanha, uma estrutura arquitetónica, que, numa primeira análise, parece ser de armazenamento de cereal, onde foram igualmente encontrados vasos cerâmicos com cereais no seu interior.

Podemos estar a falar de um período “de ocupação relativo aos séculos IV, V e VI, d.C., mas ainda temos muito trabalho a fazer, nomeadamente no que se refere ao estudo dos materiais”, explica a arqueóloga.

Muralha monumental pode ser o principal edificado descoberto

Um dos principais edificados descobertos no âmbito do estudo arqueológico realizado até ao momento no Castro de São João das Arribas é uma muralha monumental muito provavelmente da época Alto Medieval (séc. V d.C.).

Na quarta campanha arqueológica, descobrimos “duas estruturas defensivas. Uma muralha e uma estrutura triangular, que supomos que serão do período do encastelamento do séc. V, quando sofremos as invasões de povos nórdicos: Suevos e Visigodos”, refere Mónica Salgado.

“Essa muralha que encontramos na quarta campanha, que ainda não sabemos a espessura, mas vai superar os cinco metros, é uma grande muralha, que parece ser escalonada. Nessa muralha, na parte que escavámos junto à face exterior, os materiais encontrados são sobretudo da época Alto Medieval, não são materiais da Idade do Ferro, mas também ainda não encontramos a vala de fundação e a parte exterior. Ainda não chegamos ao limite da fundação da muralha. Por isso, ainda temos que alargar as escavações e perceber bem do que se trata, mas essa estrutura é imponente”, acrescenta a arqueóloga.

Também na quarta campanha arqueológica foi desvendado o que parece ser um campo de pedras fincadas, que poderá ser uma estrutura defensiva da Idade do Ferro, ou do séc. V d.C. Mas só com um estudo mais aprofundado e com a realização de mais escavações que permitam descobrir mais materiais e chegar até à vala de fundação de algumas estruturas é que será possível determinar com exatidão o seu período histórico.

Artefactos de diferentes materiais e povos também foram encontrados

As escavações arqueológicas realizadas no Castro de São João das Arribas levaram igualmente à descoberta de centenas de artefactos de diferentes materiais produzidos por vários povos ao longo dos séculos.

Materiais cerâmicos como, por exemplo, sigillatas, foram encontrados em quantidades significativas. Um estudo já realizado pelo investigador Rui Moraes, especialista em sigillatas, revela que alguns desses materiais datam da Antiguidade Tardia e da Alta Idade Média.

Mas a análise “do resto do material cerâmico encontrado ainda tem que ser realizada, também em termos de comparação, porque há outros castros com os quais podemos comparar, por exemplo, com a escavação que decorreu no Castro de Crestelos, que tem ocupação desde a Idade do Bronze até ao séc. XX. Há muito material da Alta Idade Média e também da Idade do Ferro e do Bronze nesse local. Nós, em princípio, também temos ecos da ocupação da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, mas não estão associados a nenhuma estrutura, aparecem ou nos níveis de aterro, juntamente com outro tipo de material, ou então em zonas de escoamento de águas e estão mesmo junto à rocha ao nível geológico”, explica Mónica Salgado.

Foram ainda identificados dois aparos, pregos, moedas, uma das quais romana, do séc. IV d.C., uma bracelete e contas de colar. As escavações também permitiram descobrir fragmentos de uma estela funerária utilizada na construção de um muro e um fragmento de coluna romana.

“Este tipo de material indica que houve ali uma ocupação monumental, mais trabalhada, mais bem idealizada, só que isso parece que foi tudo demolido e depois fizeram então outras estruturas, como muros, no período da Alta Idade Média, reutilizando todos esses materiais, mas esses são muros de fraca construção”, explica Mónica Salgado.

Como é feito o estudo arqueológico?

O estudo arqueológico das edificações encontradas abaixo da superfície do solo é feito com recurso ao registo e à avaliação do contexto estratigráfico das várias camadas e estruturas que vão sendo desvendadas.

A identificação do período das estruturas arquitetónicas encontradas durante as escavações arqueológicas é realizada através da análise da engenharia usada na construção, dos materiais associados a essas estruturas, das valas de fundação, bem como dos materiais que aparecem acima, abaixo e ao redor das estruturas.

O que é o contexto estratigráfico?

Os contextos são eventos ou ações únicas que deixam vestígios detetáveis na sequência arqueológica ou na estratigrafia (estruturas e camadas de sedimentos). Consistem em depósitos (como o preenchimento de uma vala) e estruturas (como muros). As relações estratigráficas são as relações criadas entre os contextos no tempo, representando a ordem cronológica em que foram criados.

A estratificação ou sequência arqueológica é a sobreposição dinâmica de unidades estratigráficas, ou contextos. Quando os achados arqueológicos se encontram abaixo da superfície do solo (como é mais comumente o caso), a identificação do contexto de cada achado é essencial para que o arqueólogo tire conclusões sobre o sítio e sobre a natureza e a data da sua ocupação. O papel do arqueólogo é exatamente tentar descobrir quais são os contextos que existem e como eles foram criados.

Estudo dos achados vai continuar e mais campanhas arqueológicas devem ser realizadas

O estudo de todas as estruturas e materiais descobertos ao longo das quatro campanhas arqueológicas vai continuar e será aprofundado para que seja possível tirar conclusões definitivas sobre os achados e os seus respetivos períodos históricos.

Segundo refere Mónica Salgado, há ainda várias “dúvidas que não foram esclarecidas com as quatro campanhas e que é fundamental esclarecer para conhecermos esses períodos históricos que não estão estudados aqui no Nordeste Transmontano”, pelo que o objetivo é continuar com o projeto de investigação em arqueologia no Castro de São João das Arribas e realizar mais campanhas num futuro próximo.

O que é o Projeto de Investigação arqueológica sobre o Castro de São João das Arribas?

O Projeto de Investigação sobre o Castro de São João das Arribas, em Aldeia Nova, no concelho de Miranda do Douro, é um projeto de investigação arqueológica que teve início em 2016 e que, através de operações de baixo impacto, como prospeções e sondagens, pretende trazer à luz novos dados sobre a romanização e a ocupação humana no território do planalto mirandês. No âmbito deste Projeto, são realizadas escavações e estudos arqueológicos no Castro de São João das Arribas. O Projeto é coordenado pela equipa de arqueólogos Mónica Salgado e Pedro Pereira e tem como parceiros a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, a associação francesa Rempart, a Junta de Freguesia de Miranda do Douro e o Município de Miranda do Douro.

Este Projeto tem como coordenadores científicos: Armando Redentor, Susana Cosme, Nelson Rebanda, Hermínio Bernardo, Javier Sanchez-Palencia, Francisco Queiroga, Hortensia Larren Izquierdo, Rudolph Nicot e Inês Elias.

A colaboração com a Palombar

A Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural colabora, desde o início, com o Projeto de Investigação sobre o Castro de São João das Arribas – Aldeia Nova (Miranda do Douro), com o objetivo de contribuir para aumentar o conhecimento sobre os antecedentes das técnicas de construção tradicionais no Nordeste Transmontano e para traçar a sua evolução histórica.

A organização considera este Projeto um grande contributo para o estudo e conhecimento arqueológicos sobre o Planalto Mirandês e quer ser um ator ativo e interveniente nesta área de conhecimento.

Texto: Uliana de Castro/Palombar

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