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Berbicacho

Não deixa de ser espantoso que um académico do Direito Constitucional se tenha lançado numa decisão longínqua de fechar o campo dos graus de liberdade que a própria Constituição da República confere ao Presidente da República, lançando o País numa corrida que quase ninguém desejava: realizar, antecipadamente, eleições para deputados à Assembleia da República.

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Objetivamente, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa criou a si mesmo, e à generalidade da classe política, também aos portugueses interessados na vida do País, um verdadeiro berbicacho com aquela sua tentativa de levar os partidos da Esquerda a aprovar o Orçamento do Estado para 2022. Bom, o resultado foi um daqueles do tempo da nossa juventude, ao redor dos bonecos da bola, quando na leitaria o dono nos referia que o resultado fora furado.

Não deixa de ser espantoso que um académico do Direito Constitucional se tenha lançado numa decisão longínqua de fechar o campo dos graus de liberdade que a própria Constituição da República confere ao Presidente da República, lançando o País numa corrida que quase ninguém desejava: realizar, antecipadamente, eleições para deputados à Assembleia da República.

Com os mil e um problemas que sempre estão presentes no tecido social – recordemos que Salazar nos deixou aquela sua chamada de atenção, a cuja luz governar é, acima de tudo, descontentar –, a verdade é que o Governo de António Costa venceu, dentro dos limites expectáveis, a pandemia, com Portugal a ser visto no mundo como a singularidade a seguir, ao mesmo tempo que, por via da natureza das coisas, a economia começou a crescer rapidamente logo que o quase total desconfinamento teve lugar. Temos mil e um problemas, claro está, mas estamos a sair deles.

Não há hoje quem não aponte o interesse nacional como coisa suprema, embora se fuja a reconhecer que Salazar também atuou na defesa do interesse nacional, sendo embora o inerente à visão pessoal do mesmo. E também não há quem não defenda que ao interesse nacional se devem adaptar as organizações partidárias, mormente as que agora tentam mudar à pressa, com o sonho do poder já bem à sua vista. Ainda que possa ser uma miragem, sempre será um sonho agradável. Foi isto, objetivamente, que gerou a infeliz e errada decisão do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

No meio de tudo isto, a data das eleições. À luz do seu erro estratégico, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, raciocinando de modo aparente fácil, explicou-nos que deveria ser logo, logo, e em janeiro, a data dessas eleições. O problema é que a Direita e a Extrema-Direita não querem. Dois grupos a que se vêm juntado os mil e um sonhadores concomitantes com a vontade de assumir o poder. E sempre, claro está, para servir, ainda melhor, os portugueses. Em especial, os mais desfavorecidos… Enfim, um berbicacho!

A culminar tudo isto, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ainda se colocou naquela de receber Paulo Rangel, adversário de Rui e um neopassista radical, agora a tentar retirar do poder Rui Rio, de quem sempre havia sido apoiante, mas que estima agora conseguir uma inversão da vida política no poder. Como é poderoso o cheiro do poder…

Claro está que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa insiste agora naquela sua ideia de ser um ser supremo, bem para cima das influências humanas: ele será, à luz da sua definição, ininfluenciável!! Bom, caro leitor, desatei a rir com esta sua tomada de posição, mormente na parte respeitante à audiência concedida a Paulo Rangel. E a tal ponto foi a minha reação, que disse para minha mulher: nem com o Papa Francisco de joelhos à minha frente, garantindo tudo não ter passado de gentileza, eu acreditaria na ideia do acaso! Nem eu, nem ninguém, porque todos, tal como o Presidente da República, sabem que em política, o que parece é. Um berbicacho!

Estou ansioso por perceber o que irá fazer o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa: coincidir, na sua decisão, com as altas pressões da Direita e da Extrema-Direita, ou manter a sua raciocinada exposição sobre o tema, há já um bom tempão atrás. Um dado é certo: tem razão Rui Rio e tem-na também Francisco Rodrigues dos Santos. O problema está em que Nuno Melo e Paulo Rangel parecem ser muito mais radicais e garantidamente neopassistas. Eles são, por tudo isto, altamente desejados pela Direita e pela Extrema-Direita. Enfim, um fantástico berbicacho, que bem justifica que se ofereça, neste Natal, a obra MEMÓRIAS, de Francisco Balsemão. E mesmo por fim: aceitam-se apostas sobre o que virá a ser decidido pelo Presidente da República, ao mesmo tempo que tudo irei fazer para criar um prémio sobre criatividade no domínio das crises políticas. Sim, porque Portugal precisa, ainda mais, de criatividade, havendo que acautelar, contudo, o surgimento de berbicachos…

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