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ASTROpoéticoFENÓMENO

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Carlos d'Abreu

Carlos d’Abreu, raiano do Douro Transmontano (1961), Geógrafo…

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O amor sempre nos recompensará,
podendo brindar-nos de milhentas formas,
as mais das vezes imperceptíveis
devido à nossa desatenção
motivada pela obstinação de prosseguir
numa incessante busca de algo,
alguma coisa que se nos pedirem para definir
teremos dificuldade em exprimir.

Talvez não saibamos o que buscamos.
Somos impelidos para a frente,
como se para a frente fosse sempre o caminho.
Será o kronos que nos engana, como se o devir fosse a meta.
Que marco é esse? Onde está a baliza?
E o que estará para além dela
se porventura a chegarmos a alcançar?
Como se a missão fosse viajar sempre ao futuro.
E se pusermos de lado o futuro
e desacreditarmos o passado
e vivermos um presente estático?
Um presente sempre presente?

Raríssimas vezes me dei conta da recompensa poética.
Chegou há dias        inesperadamente
em forma cosmopoética.
Talvez recorde essa recompensa
porque quando chegou
estava em companhia de um senhor das leis humanas,
credível testemunha por isso,
que de “ballesta” apelido herdou:

Havíamos deixado o Litoral
onde levara o amigo do Interior da Ibéria a seu pedido,
pessoa que poucas vezes vê a Terra beijada pelo Mar,
vínhamos dum lugar        que esse terráqueo
considerou ser o ideal para morrer.
E ao fim do dia regressávamos a uma Meseta central,
pela noite circulando em auto-estrada
– pista-rápida-para-autos-céleres –
uma rodovia sem paragens e muitas portagens,
construída para vencermos distâncias velozmente.
Era o vigésimo quinto dia
do sétimo mês do nosso calendário humanizado
e faltaria um quarto de hora para se anunciar outro dia.
A telechamada que fiz a um camarada
adepto dos fenómenos atmosféricos
registou 23h49m,
encontrando-se este amigo
a cerca de 80km para NE,
em aldeia de loisa duriense,
a mais de 700m de altitude
e que não foi capaz sequer de lobrigar
o que lhe descrevia.
Entráramos há pouco na A-25 em Mangualde
e estaríamos a meio caminho entre aquela localidade
e Chãs de Tavares, em direcção da Raia.
Ao volante do automóvel dissertava sobre a vida
e o irmão ouvinte corroborava que era jodida.
E como pertenço a tudo o que me rodeia,
seja o que de físico e próximo se me apresenta,
sejam os vestígios em forma de luz,
da luz de corpos que há milhões de anos se desintegraram
– dizem-no os astrónomos –
a curiosidade regista os movimentos
as tensões
as quebras
as explosões
o instável
o estático.
Tudo o que tem forma, ou se disforma.

Em observações rápidas,
estáticas são as estrelas.
E as suas imutáveis famílias.
Constelações com registo.
Tudo há-de ter registo,
tudo deve ser catalogado.
Tudo tem de estar ordenado.
Não podemos permitir
que o Universo se desordene.
É nossa obrigação contribuir
para repudiar o caos.
Por isso vemos no céu
o pastor e o cajado e o sete-estrelo.
Logo eu que busco A Ideia de ordem sem pastor.
Mas há até entre os astros alguns rebeldes
que solitários vivem,
corpos que têm curiosidade por outros,
xenófobos, os outros,
que os repudiam, aos atrevidos.
Destes, raríssimos conseguem o contacto
e morrem entre nós,
fenecendo já minguados
porque depauperados de tanta peleja.
Depois há corpos errantes,
que afoitamente desejam ser livres
e viajam acometendo o espaço sideral.
Vemo-los passar com a cauda a saudar-nos,
invejando-os pela liberdade a que se arrogam.

Mas o que vos quero contar
é que naquela supra-mencionada noite,
a poesia da Natureza me brindou,
pois por mim passou – relembro que tenho
uma credível testemunha porque jurisconsulto –
uma numerosa e alegre família de celestes e brilhantes corpos.

Movia-me nocturnamente
dentro de uma máquina com luzes
que projectavam a pista.
O céu encontrava-se completamente transparente
e por isso nem a luz artificial dos faróis do veículo impediu
que,
no lugar onde os relógios anunciam as onze horas
(ou as vinte e três),
se me apresentasse uma alegre constelação,
para mim nova     estranha      desconhecida.
Pareciam as luzes espaçadas ao longo de um eléctrico cordão,
cordão distribuído por descomunal arbor natalis,
ou arburetum obscurecido pela noite.
Acendia uma aqui
apagava-se outra ali
acolá o olho algumas me piscavam,
mantendo-se com luz fixa e muito brilhante a maioria.
E uma ou outra em rápidos movimentos
passava tangentes às congéneres.
Ou talvez fosse ilusão minha
e a que parecia mover-se fixa estava
lá longe no horizonte
e o que acontecia era que o grupo estava já,ou sempre estivera,
em movimento,
como então começara a pressentir.
Afinal todo o conjunto se movia,
ordenadamente é verdade,
mas alterando as geométricas formas da constelação.
E em determinado momento
foram imprimindo mais velocidade à viagem.
Parei na auto-estrada, desde logo um perigoso gesto,
apagando as luzes,
olhando estupefacto e alegre o fenómeno
e comentando-o com o companheiro.
Agora corriam já. E aproximavam-se.
Parecia uma regata oceânica vista do fundo.
Ou um rebanho de ovelhas com lã de cor de ovelha
– nada de negras ovelhas – que numa encosta em frente,
pastava em andamento direccionado a trigueiro restolhal.
Corriam as minhas badanas alegres e reluzentes
descrevendo a curvatura da abóbada celeste que a todos envolvia,
sobre o nosso olhar,
da sinistra para a dextra,
cruzando-se com a nossa marcha de poente a oriente.

Corriam umas atrás das outras
e despediram-se no horizonte.

Porque no dia seguinte
ao contarmos esse poético regalo
a gente com fé no Universo,
nos perguntou pela sua duração,
dez minutos lhe aventámos.

Vi!
A menos que o meu cérebro me enganasse
(e o do companheiro também?).
E o que com os olhos percebi,
é o que aqui tento contar-vos,
modestamente,
pois o que visionámos (ou julgamos ter visto)
suplanta a minha capacidade de descrever uma maravilha.
Um deslumbrante assombro,
fascinante sedução,
que a Natureza me ofertou.

Um astro-fenómeno
– como desde logo lhe chamei –
raríssimo certamente,
que convosco quero partilhar,
assim              sem estratagemas,
mesmo sem saber se encaixará
num livro de poemas

 

Carlos d’Abreu

(25.VII.2020; 23h45; A-25 entre Mangualde e Chãs de Tavares)

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