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As Vítimas

Vem tudo isto a propósito do que está a passar-se na fronteira da Bielorrússia com a Polónia. Parece coerente e aceitável a explicação de que o Governo da Bielorrússia tem vindo a instrumentalizar aquelas vítimas, no sentido de desestabilizar a organização do espaço europeu, mormente como retaliação em face das sanções aplicadas pela União Europeia. O grande problema, todavia, são as vítimas.

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A presença histórica dos povos europeus no hemisfério sul gerou a situação que hoje a grande comunicação social transporta às sete partidas do mundo: subdesenvolvimento, miséria, pobreza, corrupção, guerra, regresso do fanatismo religioso e exploração das riquezas locais. E, como pode hoje ver-se à saciedade, as independências consentidas aos antigos povos coloniais não os transportaram para lá da situação em que se encontravam sob a liderança e exploração europeias.

A situação do subcontinente americano mostrou até o surgimento de uma doutrina a cuja luz os Estados Unidos nunca consentiriam na exploração europeia dos novos Estados independentes daquele espaço. O que se deu, contudo, foi o surgimento de uma objetiva tutela dos Estados Unidos sobre a América do Sul e da América Central, vivendo, por longuíssimos tempos, sob ditaduras criadas e mantidas pelos Estados Unidos.

Esta situação foi fortemente mimetizada por quase todo o mundo, mormente no continente africano, no Médio Oriente, na Ásia Ocidental, para já não falar nas guerras levadas pelo Reino Unido, a França e os Estados Unidos a países diversos da Ásia. O resultado de toda esta ação prolongada foi a pobreza que se instalou com caráter quase definitivo nessas paragens, acabando por gerar fluxos crescentes e imparáveis de povos diversos a caminho da Europa, na tentativa de conseguirem uma vida melhor e com uma luz de futuro. Fluxos vindos de África e de países diversos do Médio Oriente.

De modo concomitante, surgiu a utilização do mecanismo religioso como instrumento justificador e aglutinador de povos objetivamente subjugados, na História, por parte da cristandade oriunda da Europa. No meio de tudo isto, as vítimas: sejam as que hoje demandam os Estados Unidos, oriundas das Américas do Sul e Central, sejam as provenientes de África, ou ainda as do Médio Oriente, todas estas na peugada de uma vida minimamente segura no espaço europeu.

Vem tudo isto a propósito do que está a passar-se na fronteira da Bielorrússia com a Polónia. Parece coerente e aceitável a explicação de que o Governo da Bielorrússia tem vindo a instrumentalizar aquelas vítimas, no sentido de desestabilizar a organização do espaço europeu, mormente como retaliação em face das sanções aplicadas pela União Europeia. O grande problema, todavia, são as vítimas.

Poder-se-ia olhar as vítimas como mera singularidade, mas a verdade é que, muito recentemente, nós tivemos a oportunidade de assistir a duas claras manifestações dos grandes poderes do Mundo: a falta de acesso dos povos dos países pobres às vacinas contra a COVID-19, e a recente COP26, em que os tais grandes poderes do mundo, muito acima de tudo, deram prioridade aos seus interesses em detrimento da defesa objetiva do sistema climático.

O caso destas vítimas na fronteira da Polónia com a Bielorrússia é um mero acaso, porque nós temos casos destes aos magotes. Tivemos mesmo o pagamento da Alemanha à Turquia de uns bons milhares de milhões de euros, a fim de que esta impedisse a passagem dos migrantes para a Grécia, já bem martirizada, de parceria com a Itália, com os fluxos migratórios que quase todos recusam na União Europeia, com particular referência para a Hungria e… a Polónia. Por acaso, dois Estados que violam, objetivamente, as regras do Estado de Direito, com o poder político a comandar o judicial. Todavia, uma reação europeia hoje muito diferente se o caso se passasse com a Rússia, a China ou a Bielorrússia…

É fantástico constatar o cinismo com que este caso é tratado pela designada Comunidade Internacional, sem que quase ninguém, a começar por polacos, bielorrussos, alemães, europeus, em geral, e Nações Unidas se determinem a limitar os horrores de um inverno que já começou a bater aquelas paragens. Pois, se nem a defesa do sistema climático interessa os grandes poderes do mundo, porque haverão de consegui-lo uns milhares de migrantes esfomeados e sem condições humanas ínfimas?

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