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As difíceis coisas simples do PS

O PS foi sempre um partido social-democrata, genuinamente defensor de aspetos essenciais à dignificação das pessoas, embora nunca tivesse deixado de acautelar, por igual, os grandes interesses económicos de uns quantos.

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Em Portugal a posição política dos partidos nunca foi a referida publicamente, nem a sua intervenção pública foi determinada pelos princípios presentes nos programas. Foi assim com o PPD, mais tarde rebatizado como PSD, sendo aqui muito elucidativa a pequena, mas significativa, história passada entre Francisco Sá Carneiro e Barbosa de Melo, mesmo à beira da criação do partido, e recentemente contada por Miguel Pinheiro na TVI 24.

Também se conhece que o PSD foi o partido em que ingressaram os concidadãos interessados na política, mas oriundos da área do regime constitucional de 1933. E se Francisco Sá Carneiro começou por apresentar a Barbosa de Melo as linhas gerais de um programa realmente liberal, também num ápice mandou que lhe fossem operadas as mudanças essenciais a dele fazer um outro, mas mais social-democrata. Como natural consequência, também por via da intervenção de Mário Soares, nunca o PPD de então foi acolhido no seio da Internacional Socialista. Ou seja: o PSD foi sempre – hoje, nem se fala…– um partido da Direita. E foi deste processo de desenvolvimento que surgiram as mil e uma discussões de todo o tipo, com tomadas de posição as mais diversas e outras tantas mudanças de lugar na vida interna do partido. Uma verdadeira estrutura política circunstancialmente catavento.

Em contrapartida, o PS foi sempre um partido social-democrata, genuinamente defensor de aspetos essenciais à dignificação das pessoas, embora nunca tivesse deixado de acautelar, por igual, os grandes interesses económicos de uns quantos, do que resultou que acabasse por vir a ser o porteiro do regresso dos mil e um deserdados da Revolução de 25 de Abril. E teve uma caraterística muito marcante, já com raízes muito antigas, ainda com reflexos a cada momento: foi o partido que, em Portugal, mais se ligou à grande estratégia dos Estados Unidos.

O CDS acabou por ser o partido da grande maioria dos católicos mais proeminentes e interessados na política. Embora, note-se, tenham sempre estado presentes membros importantes da Opus Dei no PS, PSD e CDS. Mas a matriz essencial do partido foi a democracia-cristã, suportada por uma plêiade de católicos fortemente ligados ao magistério da Igreja Católica. Deriva desta realidade o facto de ter o CDS tido sempre um amplo espetro de apoiantes nas estruturas humanas de mais baixos rendimentos. A liderança, porém, esteve sempre nas mãos de gente da classe alta do País. Só mais tarde, após o surgimento de Manuel Monteiro, veio ali a triunfar uma prática claramente neoliberal, que se limitou a seguir o vetor principal da moda do tempo.

Por fim, o PCP. Bom, o PCP limitou-se a manter a sua matriz ideológica fundamental, organizando-se, embora democraticamente, em consonância com essa mesma matriz. Um dado é certo: o PCP tinha valores, nunca os renegou, e cá se mantém, ao contrário da generalidade dos seus congéneres mundiais que quase desapareceram, tal como se deu com os socialistas e com os social-democratas. Até o CDS foi minguando, estando hoje à beira da transição, com armas e bagagens, para a área do Chega!, o que acabará por conduzi-lo a uma extinção prática.

Durante anos, os portugueses tomaram a escolha presidencial como uma garantia de defesa dos valores da Revolução de 25 de Abril e da Constituição da República. Começou por ser assim com António Ramalho Eanes, até este se ter virado contra o PS, apoiando o surgimento do falido PRD. Mas logo se continuou com a eleição de Mário Soares, que enfrentou Salgado Zenha na primeira volta, acabando por vencer Diogo Freitas do Amaral, também com a lucidez política e a coragem de Álvaro Cunhal e do PCP. Depois, seguiu-se Jorge Sampaio, ele também uma garantia de se evitar a corrida para o precipício de Aníbal Cavaco Silva, como depois veio a poder ver-se. Desta vez – com a eleição de Cavaco –, faltou ao PS e aos partidos da Esquerda a tal lucidez que assistiu Álvaro Cunhal, evitando, por 20 anos, a derrapagem para a Direita que se veio a dar com a eleição do antigo Primeiro-Ministro.

Desde então, têm-se sucedido os nados-mortos do PS em matéria presidencial: Soares, Alegre, Maria de Belém e o independente Sampaio da Nóvoa. Impôs-se a sensação de que o PS terá sempre dificuldade em encontrar alguém com potencial presidencial ao nível do eleitorado, talvez com a notável exceção de António Costa. E tudo isto ao mesmo tempo que, nas calmas, o PSD vai regressando àquelas origens em que Francisco Sá Carneiro apresentou a Barbosa de Melo um programa partidário… liberal. O recente caso do Governo Bolieiro na Região Autónoma dos Açores, com evidentíssimas correlações nacionais, veio completar a demonstração de que o verdadeiro PSD é o inicialmente suportado na proposta de programa do PPD apresentado por Sá Carneiro a Barbosa de Melo.

Por fim, continua a faltar a PS a sua mais difícil coisa simples: estruturar um programa de governação amplamente comum com os partidos da Esquerda, o que continua a ser largamente possível, assim exista boa-fé por parte dos dirigentes do PS, conseguindo a coragem de ir ao encontro dos desejos dos eleitores que tanto apreciaram a Geringonça. Se o caminho for um outro, bom, a médio prazo iremos ter o fim do… Estado Social. Com ele, lá irá sucumbir o próprio PS. Será assim tão difícil perceber uma tão evidente realidade?!

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