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Ao redor de mais um diálogo

E já agora: deu-se conta, o leitor, da cabal ausência de uma tomada de posição da Conferência Episcopal dos Bispos (Católicos) Portugueses? E já reparou que da generalidade do setor religioso o que sobreveio foi o silêncio? E não consegue concluir nada? Lembra-se de um Papa negro? E ainda não consegue concluir nada?

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A noite de ontem trouxe, na SIC Notícias, um diálogo com algum interesse, ao redor da temática do racismo, omnipresente no seio da comunidade portuguesa, mas com uma manifestação muito típica, e em que estiveram presentes Cristina Roldão e António Nunes. Um debate que foi mais objetivo por parte da convidada que do convidado.

Cristina Roldão foi muito clara em tudo o que expôs: o problema do racismo, no seio da comunidade portuguesa, existe mesmo, até com profundidade, mas só pode ser combatido, porventura fortemente desbastado, se existirem as adequadas políticas públicas destinadas a enfrentá-lo, que é o que não tem lugar. E não tem lugar há muito. Porventura, desde sempre.

Nestes termos, a entrevistada referiu um aspeto que tenho já apontado há muito, e que é o do ensino da História na escola. A verdade é que o tema da escravatura quase não é tratado – é aflorado numa ou duas linhas –, tal como o da discriminação racial ao longo dos séculos, as referências à legislação vigente durante o tempo em que estiveram por aqui pessoas africanas, ou outras, os massacres praticados sobre comunidades africanas nas antigas províncias ultramarinas, e muito menos o modo como as comunidades africanas, tal como as ciganas – entre outras, claro está –, se encontram hoje distribuídas no território nacional, quase completamente deixadas à sua sorte, em estruturas que se encontram organizadas como autênticos guetos.

De igual modo, Cristina Roldão apontou também o modo hiperdiscreto como o tema do racismo é tratado no seio da nossa comunidade, sempre à luz de, alegadamente, se evitar hipertrofiar os conflitos interétnicos. E salientou, como qualquer um percebe com facilidade, que tal atitude acaba por se constituir na antecâmara das manifestações que, em crescendo, se têm vindo a observar. Em síntese: o racismo está omnipresente no seio da comunidade portuguesa, pouco dele se falando, e muito menos atacando o que se lhe encontra na base.

Em contrapartida, a intervenção de António Nunes foi uma espécie de tudo em nada. Chegou mesmo a referir estar certo de que, em coisa de dias, a Polícia Judiciária descobrirá quem esteve por detrás destas ameaças recentes, tal como os manifestantes e respetivos mandantes daquela presença ameaçadora à frente das instalações da SOS Racismo, culminada com aqueles escritos que se puderam ler nas paredes.

Bom, até aqui tudo numa boa, como usa dizer-se. O problema foi depois, porque António Nunes explicou que, em sua opinião, a classe política falha no domínio das políticas públicas que poderiam dar seguimento ao tal bom trabalho que estimou ali vir a ser o da Polícia Judiciária. E quando a jornalista o questionou sobre se a Justiça acabava, depois, por não dar seguimento aos tais rápidos trabalhos da Polícia Judiciária – terá, por-tanto, tido meios para trabalhar –, de pronto assestou baterias à classe política, sempre o verdadeiro bombo da festa!!

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa salientou que os factos em causa são um crime, portanto previstos na Constituição da República, no Código Penal e noutras leis, mas António Nunes diz agora que falta clareza em tudo isto, porque acaba por não se saber como enquadrar os temas (criminosos) em causa!! Bom, fiquei siderado, dizendo para comigo: e este nosso concidadão – só Deus sabe – talvez possa um dia vir a liderar a PJ, ou o SIS, ou o SIED…

Claro está que há muito me dei conta desta caraterística de António Nunes: um verdadeiro especialista do tudo em nada. De resto, já era esta a realidade com o seu antecessor à frente do OSCOT. De modo que o resultado está à vista: as comunidades africana, cigana e outras, e de áreas diversas, acabam por ver-se objetivamente discriminadas no seio da sociedade portuguesa, mas são-no de um modo diferente – menos frontal e menos globalmente brutal – do que se pode ver noutros países. No fundo, uma consequência daquele nosso modo muito conhecido de ser, sobre que Kennedy um dia falou a Franco Nogueira, em Washington: a vossa escola diplomática é deveras qualificada. Se necessário for, até rimos a chorar, ou, como eu escrevi há muito, não vimos, não ouvimos, não sabemos, não pensamos, obedecemos. E é por ser esta a realidade que, a uma primeira vista, o racismo até parece estar ausente da nossa sociedade. O grave problema é que não está.

Por fim, uma notinha muito interessante, que colhi das considerações de António Nunes. A dado passo, referiu que estes fenómenos de extremismo-direitista está presente em muito outros países europeus, e não só por cá. Sem que eu estranhasse, antes rindo, disse para minha mulher: esqueceu-se dos Estados Unidos e do Trump, onde até se assassinam negros por asfixia e em plena rua. E a verdade, que António Nunes conhece bem, é que Steve Bannon, um dos mentores de Trump, por aí vai andando, pela União Europeia, sem problemas, clamando em favor do regresso de uma Extrema-Direita pura e dura e em defesa do fim da própria União Europeia.

É por tudo isto, muito presente neste diálogo da noite de ontem na SIC Notícias, que o racismo continua

presente e a crescer no seio da sociedade portuguesa: pouco se faz e o que se diz é pouco e pronunciado baixinho. Está, pois, para durar e crescer. E já agora: deu-se conta, o leitor, da cabal ausência de uma tomada de posição da Conferência Episcopal dos Bispos (Católicos) Portugueses? E já reparou que da generalidade do setor religioso o que sobreveio foi o silêncio? E não consegue concluir nada? Lembra-se de um Papa negro? E ainda não consegue concluir nada?

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