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Angélicos

Assim, Luís Nobre Guedes, ao terminar o seu inútil comentário sobre o caso dito de Isabel dos Santos – envolve mil e um, por Angola e por cá –, salientou, em tom solene, numa espécie de defesa da honra da classe causídica, que os escritórios de advogados são constituídos por gente de eleva estatura moral e técnica.

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Na sociedade portuguesa começam a surgir, com uma frequência invulgar, as manifestações angelicais e de origens as mais diversas. Por vezes, de onde ninguém poderia imaginar, mesmo que extraordinariamente dotados neste domínio. Situações que surgiram, ao longo destas última semana, pela voz de Luís Nobre Guedes, no seu programa semanal de comentário, com Eduardo Marçal Grilo, mas também pela muito especializada de Pedro Abrunhosa, surgida num jornal deste domingo. Palavras verdadeiramente angélicas.

Assim, Luís Nobre Guedes, ao terminar o seu inútil comentário sobre o caso dito de Isabel dos Santos – envolve mil e um, por Angola e por cá –, salientou, em tom solene, numa espécie de defesa da honra da classe causídica, que os escritórios de advogados são constituídos por gente de eleva estatura moral e técnica. Afirmações muito enriquecidas pela expressão facial adotada, como por igual pelo tom de voz assumido.

Trata-se, objetivamente, de uma espécie de intervenção angelical, e completamente inútil. Talvez até contraproducente, dado que a generalidade dos portugueses, para lá de nunca se terem mostrado grandes adeptos da dita democracia, também não têm em grande conta a generalidade das instituições.

Claro está que se Luís Nobre Guedes soubesse de casos diversos – mera hipótese para se raciocinar –, surgidos a um ritmo inusitado no seio da classe da advocacia, nunca ali iria apontar uma tal situação. Ora, sabendo Luís Nobre Guedes do amplo desprestígio da generalidade das nossas instituições, numa situação como aquela em que perorou o melhor seria não tentar defender quem de tal o não encarregou. Nestas situações é essencial ter em conta o estado de alma dos que nos ouvem quando falamos. E depois, entre estas palavras angélicas de Luís Nobre Guedes e as desta noite, de Ana Gomes, eu opto sempre, nas primeiras mil escolhas, pelas de Ana Gomes. Eu e quase todos os portugueses. E Luís Nobre Guedes sabe que é esta a plena realidade.

Os portugueses mais atentos conhecem bem que este caso, dito de Isabel dos Santos, inclui muito mais gente que a engenheira. De Angola e de cá. E percebem que o atual movimento que se vai fazendo ouvir está a delimitar os contornos essenciais a evitar que se possa chegar ao nosso baronato. Luís Nobre Guedes, como se percebe, não poderá imaginar que os portugueses acreditam na existência de padres pedófilos, mas que imaginam que bispos ou cardeais nunca o poderão ter sido. O mesmo se passa com os escritórios de advogados, ou de Engenharia, ou de Silvicultura, etc.: há bom e há mau, defendendo-se o que for preciso para se ganhar dinheiro.

Em contrapartida, Pedro Abrunhosa terá dito a um qualquer jornal nacional que os políticos merecem ter vencimentos maiores. É também uma atitude angelical, porque Pedro dá a sensação de que a classe política que temos recebe mal, tal como a esmagadora maioria dos cidadãos que aqui vivem e conseguem trabalhar.

É essencial que Pedro Abrunhosa tenha em conta a realidade do país em que vive, porque a esmagadora maioria dos portugueses, como também as suas famílias, vive muitíssimo longe das condições de dignidade que tem de desejar-se que cada um de nós possa ter. Não se trata de viver na luxúria, mas de poder dispor do que o Estado Social tem para dar em domínios absolutamente essenciais. De resto, um aumento da classe política, nos dias de hoje, seria uma garantia de derrota para quem a pudesse propor, mormente se do PS ou da Esquerda.

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