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Águia-imperial-ibérica regressa a Trás-os-Montes

Este é o segundo registo que a Palombar faz de um indivíduo imaturo da espécie no Nordeste Transmontano, região onde atualmente não existem casais reprodutores de águia-imperial-ibérica.

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Uma águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) imatura (palhiço – segunda plumagem) foi registada no dia 30 de abril de 2020, através de câmaras de fotoarmadilhagem colocadas por técnicos da organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural num dos Campos de Alimentação para Aves Necrófagas (CAAN) geridos pela organização no concelho de Mogadouro no âmbito do projeto “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt ).

Este CAAN está localizado no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI). Atualmente, esta espécie está restrita como nidificante em Portugal e em Espanha, constituindo por isso um endemismo da Península Ibérica e é uma das aves de rapina mais ameaçadas da Europa, estando igualmente entre as mais raras a nível mundial, tendo um estatuto e conservação “Criticamente em Perigo” em Portugal.

Este é o segundo registo que a Palombar faz de um indivíduo imaturo da espécie no Nordeste Transmontano, região onde atualmente não existem casais reprodutores de águia-imperial-ibérica. O primeiro registo ocorreu no dia 4 de setembro de 2018 num CAAN gerido pela organização no concelho de Miranda do Douro e igualmente localizado no PNDI.

O avistamento de indivíduos desta espécie é muito raro tão a norte do país. Tratando-se de uma águia-imperial-ibérica imatura, o mais provável é que esteja em dispersão e a estabelecer o seu território, o que poderá ser um sinal do seu possível retorno a esta região do país, que a espécie já ocupou no passado.

Os dois registos efetuados pela Palombar desta espécie ocorreram em CAAN geridos pela organização, o que demonstra o papel fundamental destes campos de alimentação para a conservação de espécies estritamente e/ou parcialmente necrófagas com estatuto de conservação muito desfavorável, como é o caso desta rapina ibérica, sobretudo para os
indivíduos imaturos. Estes são também reveladores do amplo impacto que o projeto LIFE Rupis tem tido, desde que começou a ser implementado, em 2015, na preservação de várias aves de rapina e necrófagas ameaçadas não só na Península Ibérica, como também na Europa.

Nos finais da década de 70 e inícios dos anos 80, a população reprodutora da espécie Aquila adalberti desapareceu em Portugal e a nidificação só voltou a ser confirmada em 2003 na região do Tejo Internacional, na Beira Baixa.

Fruto de vários esforços de conservação que têm vindo a ser dedicados a esta espécie, ela tem vindo a colonizar lentamente o território nacional. Em 2018, a população nacional nidificante totalizou 17 casais distribuídos pelas regiões da Beira Baixa, Alto Alentejo e Baixo Alentejo, sendo que esta espécie ainda apresenta, em território nacional, o estatuto de conservação mais preocupante: “Criticamente em Perigo”, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Está também atualmente classificada como “Em Perigo” no Livro Vermelho das Aves de Espanha e ainda como “Vulnerável” pela Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza.

Em Espanha, de acordo com dados oficiais da Junta de Castilla y León, em 2019, foi confirmada a existência de três casais reprodutores na província espanhola de Salamanca e de um na província de Zamora, áreas limítrofes ao Nordeste Transmontano.

O tamanho da sua população reprodutora é tão reduzido que existe um elevado risco de extinção da espécie face ao aparecimento, por exemplo, de uma doença, por redução significativa da população devido a alta mortalidade e períodos consecutivos de baixa produtividade e/ou por deterioração genética (devido à possível reprodução entre
indivíduos da mesma “linhagem”, diminuindo a viabilidade e a diversidade genética da espécie), de acordo com dados do projeto “LIFE Imperial Conservação da Águia-imperialibérica (Aquila adalberti) em Portugal” (www.lifeimperial.lpn.pt ).

Águia-imperial-ibérica: que espécie é esta?

É uma águia de grandes dimensões que se caracteriza pelas asas compridas e largas e a cauda relativamente curta. A cabeça e o bico são maciços. A plumagem atravessa seis fases distintas até atingir a coloração de adulto. Esta é praticamente negra, com as penas da parte posterior da cabeça e da nuca douradas. Nas asas, um bordo branco de dimensões variáveis delimita os ombros. A base da cauda é cinzenta clara com uma barra terminal larga de cor preta.

Dieta

Esta espécie alimenta-se principalmente de coelho-bravo, mas também fazem parte da sua dieta a lebre, a perdiz, os pombos, os corvídeos e outras aves, mamíferos de médio e pequeno porte e ainda répteis, como sardões e cobras. Alimenta-se também de cadáveres, sendo parcialmente necrófaga.

Reprodução

Nidifica em árvores de grande porte, sobretudo em pinheiros, sobreiros e eucaliptos. Pode também usar ninhos de anos anteriores ou ocupar ninhos alternativos. Normalmente coloca entre um a quatro ovos por ninhada.

Comportamento

É uma espécie predadora de topo e muito territorial que utiliza extensas áreas de caça. Os casais mantêm-se no seu território ao longo de todo o ano, enquanto as aves jovens efetuam movimentos dispersivos, frequentando áreas com grande disponibilidade de alimento até se fixarem como reprodutoras, o que ocorre quando atingem a idade de três a cinco anos.

Habitat

Habita sobretudo em montados e mata mediterrânica intercalados com áreas abertas de cerealicultura e pastagens.

Principais ameaças

Declínio das populações de coelho-bravo, uso ilegal de venenos, abate a tiro, perda e degradação de habitat, eletrocussão em linhas elétricas e perturbação nas áreas de nidificação.

Campos de Alimentação para Aves Necrófagas: qual é a sua importância?

Os CAAN são fundamentais para assegurar a conservação de espécies de aves com hábitos alimentares necrófagos. Todas as espécies de aves necrófagas registadas em Portugal estão legalmente protegidas e, a grande maioria, apresenta um estatuto de conservação delicado.

Uma das principais ameaças que enfrentam estas aves é a falta de disponibilidade de alimento, a qual foi agravada com a chamada crise das “Vacas Loucas”, que levou a que as carcaças de gado (a principal fonte de alimento para os abutres) não pudessem mais ficar no campo.

Os CAAN surgem exatamente para fazer face a esta ameaça e aumentar a quantidade de alimentos disponíveis para estas espécies, sobretudo no período reprodutivo, quando há uma maior exigência energética não só por parte das progenitoras, como também das crias após o nascimento.

Além dos CAAN, a Palombar também desenvolveu estruturas móveis de alimentação para aves necrófagas que permitem dar uma resposta mais rápida e localizada às necessidades alimentares das espécies no território.

Aproveitando as recentes alterações na legislação portuguesa, a organização tem vindo igualmente a trabalhar na implementação de áreas de alimentação para aves necrófagas fora dos CAAN, uma abordagem que favorece o fornecimento de alimento de uma forma natural, não previsível e com maiores benefícios para as espécies e para os seus hábitos de prospeção de alimento.

Projetos e investigação científica

Nos últimos anos, a Palombar tem desenvolvido e/ou integrado vários projetos de conservação de aves necrófagas e de investigação científica sobre estas espécies. O projeto LIFE Rupis, o ‘ConnectNatura – Reforço da Rede de Campos de Alimentação para Aves Necrófagas e Criação de Condições de Conectividade entre Áreas da Rede Natura 2000′ (connectnatura.pt) e o ‘Sentinelas – marcação e seguimento de grifos Gyps fulvus como ferramenta de combate ao uso ilegal de venenos em Portugal’ (wwww.sentinelas.pt ) são três deles. A organização tem também realizado trabalhos de investigação científica na área da conservação das aves necrófagas e da perceção social sobre estas espécies, os quais já foram apresentados em congressos e seminários nacionais e internacionais.

A Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural é uma organização não governamental de ambiente sem fins lucrativos, criada em 2000, que tem como missão conservar a biodiversidade, os ecossistemas selvagens, florestais e agrícolas e preservar o património rural edificado, bem como as técnicas tradicionais de construção. A organização, que atua orientada por uma abordagem pedagógica e de cooperação, promove também a investigação científica nas áreas da ecologia, biologia da conservação e gestão de ecossistemas, a educação ambiental, o desenvolvimento das comunidades e a dinamização do mundo rural. A área de intervenção da Palombar é principalmente a região de Trás-os-Montes, contudo, a organização tem vindo a expandir o seu território de atuação.

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Fonte desta notícia: Texto de PALOMBAR – Conservação da Natureza e do Património Rural

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