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A suicida revisão constitucional

Em primeiro lugar, a iniciativa de revisão constitucional do PSD. Em si, pouca importância poderá ter, desde que o PS, de facto, fosse dirigido por políticos com determinação em matéria de valores, o que só raramente esteve presente na sua história.

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Na noite desta passada quinta-feira, como usualmente, acompanhei o sempre engraçado diálogo entre Eduardo Marçal Grilo e Luís Nobre Guedes, na RTP 3. Talvez tenha sido este diálogo mais recente o que mostrou que ambos os residentes se encontram na mesma posição política: Luís Nobre Guedes à Direita, com Eduardo sem se conhecer bem o seu posicionamento político – passou, ao tempo de Guterres, pelo PS, mas logo de lá saiu…

Ora, este mais recente diálogo foi deveras elucidativo, porque nos trouxe, creio que pela primeira vez, a tomada de posição de Luís Nobre Guedes ao redor do Estado Social: tem de ser alterado, como ali nos disse com rara veemência, e sem um ínfimo esgar de Eduardo Marçal Grilo. Um histórico objetivo da Direita, hoje também da Extrema-Direita, ao redor do Estado Social: pôr-lhe um fim, já que não lhes foi possível evitá-lo.

Mas o programa teve, ainda, um outro ingrediente, e muito mais interessante: Luís Nobre Guedes desistiu da ideia de um acordo de regime ao Centro, passando a defender uma maioria absoluta. E a causa deste pinote é simples de compreender: Luís já se deu conta de que o PS não se deixará ir para o caminho do PSD, sendo que a Direita e a Extrema-Direita não irão conseguir uma maioria absoluta. Portanto, a existir um tal resultado, basta esperar que o mesmo provenha do PS.

Há aqui uma certa lógica, tal como em tempos referi ao meu histórico amigo Tó Sousa, em Almeida, quando este protestava contra a presença de Diogo Freitas do Amaral no Governo de Sócrates: repare, o Freitas é uma personalidade do Centro, podendo propender mais para um Centro-Esquerda, ou para um Centro-Direita, e depois o PS, objetivamente, é um partido da Direita, mas com preocupações sociais.

Perante esta minha explicação, Tó Sousa, depois de esperar um pouquinho, respondeu em voz baixa, como que retorcendo a cabeça: sim, isso é verdade, mas mesmo assim… Um acontecimento a que se impõe juntar esta corrente saída do Tó Sousa: eu sou do CDS porque não há CDZ. Mil e um que passaram pelo CDS estarão hoje, com elevada probabilidade, no Chega! de André Ventura.

O que se pôde ver na noite de ontem no programa televisivo acima referido, encontra-se ligado a outros aspetos que estão a surgir no seio da nossa vida política. Portanto, vejamo-los.

Em primeiro lugar, a iniciativa de revisão constitucional do PSD. Em si, pouca importância poderá ter, desde que o PS, de facto, fosse dirigido por políticos com determinação em matéria de valores, o que só raramente esteve presente na sua história.

Em segundo lugar, começa já a perceber-se que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa está a assumir-se, progressivamente, como alguém defensor da Direita e dos seus essenciais objetivos. Um destes, como sempre se soube, é a destruição do Estado Social, tal como hoje existe, onde se encontra salvaguardado o SNS, o acesso ao ensino e o direito a ter uma reforma digna.

Em terceiro lugar, e na linha da mudança operada por Luís Nobre Guedes, também a SEDES se determinou a escolher para a sua liderança um membro do PS, Álvaro Beleza. Simplesmente, este foi sempre um apoiante de António José Seguro, que por um pouco esteve prestes a levar o PS para os desejos da anterior Maioria-Governo-Presidente. Não tivesse sido Mário Soares, e o PS já hoje estaria reduzido a cacos, numa posição como a do atual PSD.

E, em quarto lugar, a mais que expectável tomada de posição do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa: quer um pacto de regime para as grandes transformações que diz serem precisas… Simplesmente, esse pacto de regime não passa de uma ilusão, dado que o PS perderá, numa tal situação, o apoio do Bloco de Esquerda, do PCP e dos Verdes, deixando ao PSD e restante Direita e Extrema-Direita o papel que hoje desempenha o PS. Será, indubitavelmente, o fim político do PS, tal como sucedeu já por essa Europa fora. Os portugueses, esses, ficarão com a designada democracia, mas sem nada de realmente palpável e verdadeiramente útil.

Convém que os portugueses olhem para a luta de uns quantos cubanos em defesa da democracia, recordando no que deu o Brasil de Bolsonaro e o resto do subcontinente americano, tal como o continente africano. E não faltam democracias, como a da África do Sul…

Confesso-me expectante com o poder ver se o PS de António Costa irá, de facto, atraiçoar o que a Constituição de 1976 trouxe de melhor aos portugueses, ao mesmo tempo que caminhará, alegremente, para o seu ocaso rápido.

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