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A objetiva realidade

No meio desta barafunda, inutilmente causada pelo tal consórcio de jornalistas, tem toda a razão o académico angolano Domingos da Cruz, que nos apontou esta objetiva realidade desde há muito: existe uma teia de corrupção internacional, que vai muito para além das investigações em Angola. É uma realidade conhecida desde há muito. De resto, uma realidade facilmente intuída por quem tenha um mínimo de atenção em face do que vai pelo mundo.

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As palavras de ontem do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, um pouco como as do Ministro Augusto Santos Silva, provocaram em mim um certo sorriso, porque o facto de o investimento ser sempre bom, desde que legal, é, claro está, uma inútil proposição verdadeira. Simplesmente, sabe-se, sem margem para um mínimo de dúvida, que terá de existir investimento que aqui chega e que se encontra longe da legalidade. Desde logo, porque se vive um tempo sem ética, onde até pode ter lugar o que já se conhece sobre Donald Trump e sem que nada aconteça. Portanto, o que se impõe agora é descobrir quem sempre soube o quê, quem colaborou em quê, e quem tem cabritos aos milhares, sem que se lhe conheçam cabras. E nisto, claro está, não haverá, por todo o Portugal, alguém que acredite.

No meio desta barafunda, inutilmente causada pelo tal consórcio de jornalistas, tem toda a razão o académico angolano Domingos da Cruz, que nos apontou esta objetiva realidade desde há muito: existe uma teia de corrupção internacional, que vai muito para além das investigações em Angola. É uma realidade conhecida desde há muito. De resto, uma realidade facilmente intuída por quem tenha um mínimo de atenção em face do que vai pelo mundo.

Mas Domingos da Cruz vai ainda mais longe, tocando no cerne desta situação de podridão mundial: não é surpresa nenhuma a participação de governos ocidentais naquilo que se acusa ser a corrupção de Isabel dos Santos, da família e dos amigos, de todos os membros do antigo regime, porque isto é uma teia de corrupção internacional, não é uma questão meramente interna de Angola. Precisamente o que tive já a oportunidade de expor por diversas vezes: é o Ocidente que promove a corrupção dos dirigentes dos Estados do Terceiro Mundo, explorando aqui riquezas, e recebendo, nos seus bancos, o dinheiro surripiado por aqueles aos tesouros dos seus países.

Continuando a sua análise ao redor destes dados mais recentes, mas conhecidos desde sempre, Domingos da Cruz salienta que as revelações do tal Consórcio de Jornalistas mostram, sem margem para dúvida, que o que Isabel dos Santos e o pai fizeram em relação a Angola teve o envolvimento da Comunidade Internacional, de governos e de outras personalidades em diferentes partes do mundo, da Europa e até nos Estados Unidos. A evidência, porque resulta da natureza do mundo neoliberal, desregulado e sem moral nem ética. Basta ouvir o Papa Francisco. E diz ainda mais isto, sempre aparentemente esquecido – evitado…– na nossa grande comunicação social: há várias empresas do setor privado dos EUA que contribuíram consideravelmente para que o povo angolano esteja no nível de miséria em que está hoje. E quem diz Estados Unidos, diz Portugal. No mínimo… E já reparou, o leitor, que a União Europeia não anda nem desanda?…

Por fim, o académico ainda explica esta evidentíssima realidade: sempre dissemos que Angola estava a saque e nem sequer éramos ouvidos pela Comunidade Internacional, pelo contrário. E completa deste modo tão claro, quão singularmente certo: as pessoas envolvidas são tão ladras e corruptas quanto a Isabel, e isso é uma lição para os africanos em geral, porque quando os tempos e os interesses mudam, mudam também as vontades, e temos de aprender a estar virados para dentro e para os nossos interesses.

Por fim, Domingos da Cruz acerta na mouche, ao referir esta cabalíssima verdade: a divulgação desta investigação tem de ser olhada num contexto mais amplo da luta política geoestratégia, não é um jogo desinteressado, não há intenção de ajudar o povo angolano, pelo contrário, há um reposicionamento estratégico no xadrez geopolítico internacional com vista a manterem os seus interesses em Angola, uma vez que o poder mudou de mãos. Fabuloso! Fabuloso e verdadeiro!!

Com este caso mais recente, ao redor de Isabel dos Santos e da sua família, mas também de muitíssimos outros angolanos ligados ao poder, anterior e atual, o leitor fica a perceber que Isabel dos Santos não chegou a Portugal e tomou as rédeas do nosso poder soberano sem mais. Ela foi recebida de braços abertos, porque dispunha de fabulosa riqueza, sobre que ninguém alguma vez a questionou, com Portugal de mão estendida. As carências de Portugal eram de tal ordem, que se recebia tudo, fosse lá o que fosse: ninguém via, ninguém ouvia, ninguém sabia, ninguém pensava, todos obedeciam.

E mesmo por fim, convido o leitor a tentar ler – de preferência obter – a obra de Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e um outro autor, OS DONOS ANGOLANOS DE PORTUGAL, porque ali irá encontrar o que já se sabia e que podia ser exposto, dado existir já nessa altura o conhecimento de imensamente mais.

Sem o Ultramar, envolvido por uma crise mundial e com as graves dificuldades aqui criadas por estes dados, Portugal precisava de capital como a boca precisa do pão. Se o capital provém daqui, ou dali, é completamente indiferente. Todos sabiam de tudo, pelo que quase nada irá acontecer. De outro modo, o País ruiria de todo. A grande sorte, como todos sabemos, é que temos a democracia…

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