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A nova grande estratégia da direita

Um dos fenómenos que logo pôde ver-se à saciedade, foi o facto de ninguém se mostrar como antigo defensor do regime da Constituição de 1933. Em pouco tempo, todos passaram a democratas, muitos deles saltitando de partido em partido, à medida que a realidade se ia impondo, mormente por via de forças exteriores.

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O surgimento do triunfante Movimento das Forças Armadas, culminando no que veio a ser a Revolução de 25 de Abril, caiu sobre a generalidade dos portugueses como uma espécie de bomba. Para a maioria, uma bomba como as da Noite de Ano Novo, mas para os detentores de grandes interesses, em pouco tempo, passou logo a ser uma fonte de preocupações.

Um dos fenómenos que logo pôde ver-se à saciedade, foi o facto de ninguém se mostrar como antigo defensor do regime da Constituição de 1933. Em pouco tempo, todos passaram a democratas, muitos deles saltitando de partido em partido, à medida que a realidade se ia impondo, mormente por via de forças exteriores. A grande maioria, naturalmente, passou também a não contrariar a democracia, embora se estivesse comple-tamente nas tintas para tal realidade em si mesma.

Como José Pacheco Pereira pôde já confirmar, ainda na QUADRATURA DO CÍRCULO, o PPD foi o partido que asilou a grande maioria dos portugueses provenientes do apoio, mais ativo ou mais tacitamente conivente, ao regime da II República. Como também eu pude expor, até por vezes diversas, os portugueses, de um modo muito geral, nunca foram grandes sonhadores com a chegada de um sistema político democrático. Mas era trocistas, críticos de bancada, maldizendo do poder e dos poderosos, pobres e invejosos e sempre com o pensamento luzidio sobre o que surgia no estrangeiro. Em contrapartida, ainda se aceitava que, pela natu-reza (aparente) das coisas, se estaria, com avanços e recuos, a caminhar para sociedades de tipo socialista.

Os grandes poderes oriundos do tempo da II República rapidamente se deram conta de que se impunha parar o comboio que surgira na madrugada de 25 de Abril, para tal começando a gizar o que veio a ser o seu primeiro falhanço: a tentativa abortada do golpe de 28 de Setembro, que levou a mudanças profundas na Junta de Salvação Nacional.

Já com Costa Gomes como Presidente da República, os velhos conspiradores, saudosos de um Estado Novo corrigido por via de aparentes mudanças democratizadoras, não baixaram os braços, continuando a preparar o golpe que desejavam e que havia falhado em 28 de setembro de 1974. E o novo golpe surgiu: a tentativa de golpe de 11 de Março de 1975. Mas se a anterior tentativa de golpe fora um falhanço, desta vez foi uma tragédia, com fugas em massa para o estrangeiro, nacionalizações em barda e detenções às centenas, inclu-indo de militares que também se haviam visto forçados a aderir ao Movimento das Forças Armadas.

Aprovada a Constituição de 1976,o novo mecanismo democrático foi funcionando, naturalmente com momen-tos melhores e outros piores, e também com sete revisões constitucionais, que retiraram à estrutura inicial da Constituição da República algumas âncoras que se haviam mostrado como fatores de garantia forte de de-mocraticidade.

A presença de António Ramalho Eanes como Presidente da República, por via do PRD por si muito apoiado, poderá considerar-se a terceira tentativa de golpe no espírito do 25 de Abril, uma vez que o PRD tinha por função esvaziar o PS, alinhando depois, taticamente, com uma Direita conservadora, com suporte religioso católico, mas ancorada, junto dos portugueses, na base de um populismo moralista e contra a desbunda a que se chegara. Num certo sentido, constituiu-se o PRD numa espécie de primórdio do Chega! dos nossos tempos, onde, com muitas diferenças, Eanes desempenhava o papel que hoje desempenha André Ventura: se este é o líder, Eanes era a referência cimeira inspiradora.

Com a chegada da anterior Maioria-Governo-Presidente operou-se o que designo, na base desta minha in-terpretação histórica, pela quarta tentativa de golpe contra a Constituição da República e contra o espírito a cuja luz a Revolução de 25 de Abril se desenvolveu e consolidou. Convém não esquecer a ideia de mudar a escolha dos juízes do Tribunal Constitucional, defendida publicamente por Pedro Passos Coelho, bem como o apoio presencial deste a André Ventura no seu concurso à Câmara Municipal de Loures. E continua a convir não esquecer que André Ventura, muito recentemente, mostrou o desejo de ver Pedro Passos Coelho regres-sar à liderança política do PSD, ao mesmo tempo que se vem desenvolvendo, ao nível da grande comunica-ção social, uma autêntica campanha contra Rui Rio e em favor do regresso do antigo Primeiro-Ministro às lides do PSD.

Quando surgiu a Geringonça, como se sabe, nunca alguém acreditou que a mesma triunfasse, chegando ao ponto de um Governo seu conseguir, pela primeira vez na História da III República, um superavit. Mas tudo se tornou pior para os eternos saudosistas dos velhos tempos – mas sempre aparentemente democratiza-dos…– quando a presença de Marcelo Rebelo de Sousa se mostrou um fator de estabilidade na vida política nacional, ao invés de se colocar ao serviço da Direita – PSD e CDS. Quase não lhe perdoaram. E muitos não o perdoaram mesmo, virando-se para André Ventura, que disse de Marcelo o que os muçulmanos não dizem do toucinho.

Com a vitória de Marcelo na recente eleição presidencial, renasceu o sonho de poder vê-lo trabalhar, politica-mente, ao serviço da Direita, agora já também suscetível ao poder da Extrema-Direita. Isto mesmo nos expôs o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa na sua conversa com Ricardo Araújo Pereira, salientando que al-guns lhe pedem para obrigar o Governo a sair. Embora eu não saiba se tais pedidos são só de agora, a verdade é que a Direita que se formou depois da Revolução de 25 de Abril tudo fez para tentar reduzir a nada o PS, incluindo o próprio Mário Soares. E sempre esperou que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tivesse posto um fim na Geringonça, logo que começou a exercer as funções de Presidente da República.

Estas quatro tentativas de pôr um fim no espírito da Revolução de 25 de Abril e na sua Constituição de 1976, já com as suas sete revisões, estão agora a mostrar-se continuadas com o que designo pela quinta tentativa de golpe político, destinado a operar o fim daquela referência e da própria Constituição da República. Para tal, todavia, impõe-se esvaziar o PS. Um tal objetivo é o que norteia a mais recente e peregrina ideia de criar um Governo de unidade nacional.

Defende Luís Nobre Guedes que um tal Governo de unidade nacional deveria constituir-se à custa do PS, PSD, CDS e IL. Simplesmente, isto é ainda mais variado que uma salada russa. No fundo, seria um 4 em 3, porque num ápice o PS se veria reduzido a quase nada, já prestes a entrar para os anais da História da III República. De resto, tal ideia provém, naturalmente, da Direita, como no-lo garantem os apoios à mesma de Eduardo Marçal Grilo, Pedro Santana Lopes, Manuel Vilaverde Cabral, entre muitos outros, e mais que bem aceite pela Extrema-Direita. Nem me causaria admiração que surgisse o apoio, a esta peregrina ideia, por parte de Eanes, Cavaco, Maria de Belém, Henrique Neto, Vera Jardim, etc.. E mesmo muitos dos nossos bispos só veriam numa tal salada russa governativa as melhores virtudes. E dos banqueiros e empresários, bom, nem se fala! Mas seria, como referiu há dias Paulo Pedroso, o início de um inverno democrático. Seria, indubitavelmente, o fim histórico-político do PS.

Diz Luís Marques Mendes que uma tal ideia é ficção científica. Bom, este nosso analista político dominical está certamente mais bem informado que eu, mas há um dado que creio termos em comum: seria o fim histórico-político do PS. De resto, um fim inglório. E por tudo isto, convém que PS, BE, PCP, Verdes e PAN olhem com atenção esta grande estratégia da Direita e da Extrema-Direita, gizada em torno da tal peregrina ideia do Governo de unidade nacional, para cuja realização os seus defensores continuam a sonhar com um apoio do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, ele também um concidadão da nossa Direita – costumo dizer, nesta fase dos meus textos, ou em conversas, que… nunca fiando. É imperativo focar os essenciais interesses da enorme maioria dos portugueses, evitando entrar em aventuras suicidas…

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