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A mudança das finanças

O problema de Mário Centeno, nos dias que passam, deixou de ser a sua intervenção anterior, mas o da sua ida para o cargo de Governador do Banco de Portugal. Simplesmente, este é um tema em que se tem podido ver boa parte do pior da política portuguesa, mormente no domínio da mesquinhez e da inveja, tão típicas da marca lusitana.

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Tomou hoje posse o novo Ministro das Finanças, o académico João Leão, que fazia já parte da equipa liderada por Mário Centeno. Um tema certamente já conhecido da generalidade dos portugueses, incluindo os menos atentos à vida pública do País. Neste sentido, uma espécie de não tema, dado que se conhece já imenso da intervenção de Mário Centeno ao longo dos anos em que sobraçou a pasta das Finanças, bem como dos êxitos que, com a sua equipa e com o apoio forte dos portugueses, conseguiu para Portugal.

O problema de Mário Centeno, nos dias que passam, deixou de ser a sua intervenção anterior, mas o da sua ida para o cargo de Governador do Banco de Portugal. Simplesmente, este é um tema em que se tem podido ver boa parte do pior da política portuguesa, mormente no domínio da mesquinhez e da inveja, tão típicas da marca lusitana.

Que a inveja é uma marca fortíssima no domínio dos traços culturais portugueses, bom, creio que ninguém dirá que duvida. Até Salazar, no seu tal discurso do Porto, no Palácio da Bolsa, se referiu a este modo portu-guês de apreciar, ou depreciar, as figuras públicas. A verdade, todavia, é que a prática democrática da nossa III República, veio hipertrofiar esta desagradável e mesquinha caraterística, ao trata-la com o adiáfano manto do cinismo e da hipocrisia.

Como facilmente se percebe, este modo de estar na vida, em especial na pública, conduz a uma permanente perda de oportunidades para muitos dos nossos mais qualificados concidadãos. Um destes é, indubitavel-mente, Mário Centeno, que sempre irá ficar nas páginas da História da III República em Portugal. Além do mais, também pelo prestígio granjeado internacionalmente, tanto pelos resultados da sua ação – também de toda a sua equipa, claro está – como nosso Ministro das Finanças, mas também como Presidente do Euro-grupo. Hoje, como qualquer um de boa fé terá de reconhecer, Mário Centeno é um português de renome internacional.

O grande problema de Mário Centeno, lamentavelmente, está cá dentro, mormente no seio da classe política, sobretudo ao nível dos partidos hoje fora da ação governativa. Sendo sabedor e competente e tendo tido um êxito internacionalmente reconhecido – Wolfgang Schäuble chamou-o de Ronaldo das Finanças e Jeroen Dijsselbloem, seu antecessor no Eurogrupo, descreveu-o como um colega muito sério desde o primeiro dia, mantendo um orçamento muito restritivo em Portugal, mas em que no Eurogrupo o seu papel foi muito cons-trutivo e sério –, Mário Centeno teria de vir a sofrer os ataques mais difíceis de conceber, seja pela Direita, seja pelo Bloco de Esquerda.

Mau grado tudo isto, tão bem conhecido dos portugueses já com alguma idade, é conveniente ouvir o que Ana Gomes nos expôs no seu comentário semanal de ontem, na SIC Notícias. E, em boa verdade, é bem possível que por aí exista muito boa gente que talvez trema só de imaginar que um concidadão nosso como Mário Centeno possa vir a liderar o Banco de Portugal…

Ouvir Luís Marques Mendes referir que Mário Centeno deixa as suas anteriores funções quando Portugal tanto precisaria de si, é caso para depreender que Luís também acredita em homens providenciais: ou ele fica, ou Portugal desaparecerá. E nem sequer se lembra de olhar para um facto já tão antigo e de todos conhecido: Mário Centeno há mais de um ano que mostrou o desejo forte de apenas ficar como Ministro das Finanças por uma legislatura. Para Luís Marques Mendes, ele teria agora de se eternizar na sua ante-rior função, sempre para lá dos seus legítimos direitos de cidadania. Não pensará assim de Marcelo Rebelo de Sousa, se este, por sua decisão consciente, se determinasse a não se recandidatar ao Presidente da República. Neste caso, para Luís Marques Mendes, já se trataria de um direito naturalíssimo. Provavelmente, também não se terá exprimido com tanto frémito ao tempo em que Durão Barroso deixou a liderança gover-nativa para seguir para a da União Europeia. O grande problema, aqui, é que os portugueses, sempre tão pouco interessados na democracia, não são parvos. E já agora e mesmo por fim: cá estaremos para ver como irão os portugueses tributar o Bloco de Esquerda, depois de tanta mesquinhez e cinismo ao redor deste caso de Mário Centeno… Ou bem me engano, ou virá por aí um pote profundo de água mui pouco densa… Os portugueses não são parvos.

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